Precisamos, mais do que nunca, de presença nacional. Sem ela frouxamos e não superamos provocações como essas dos paulistas por causa das montadoras. As reações do governador e do seu secretário de Planejamento foram boas porque responderam, uma a uma, as interpelações. Fica, porém, do episódio uma lição: a de que temos que sair da toca, do nicho, da autarquia, e partir para o front nacional que pode, como neste momento, estar em São Paulo e como esteve, no caso dos empréstimos, em Brasília.
Mas o governo estadual, até por imperiosidade da recuperação do tempo perdido nestes três anos, precisa também voltar-se ao interior, o que está fazendo com razoável frequência e bons resultados. O plano de industrialização estava com um defeito original, na sequência corrigido, de uma concentração excessiva tanto na Região Metropolitana como no eixo Curitiba-Ponta Grossa. O Ipardes denunciou em trabalhos técnicos a arriscada estratégia. Ficaria, de fato, inaceitável que enquanto em termos nacionais Lerner briga pela desconcentração para que tenhamos a redução de desníveis regionais proceda, internamente, de forma contrária. As expectativas semeadas obrigam o interior a pedir mais e o governador tem a obrigação de ouvir, sentir e examinar. Essa dialética é inevitável e será doravante a alavanca cívica que ajudará o Paraná a sentir-se mais unido.
O diagrama de Ney Braga, nos anos 60, foi mais ou menos esse. Tanto que a idéia-força da unidade e da integração estava no ‘teaser’ singelo ‘‘Somos todos uma só força’’. Era seguido de um grafismo: aqueles efeitos dos bonecos de mãos dadas recortados em série sobre a cartolina. O conteúdo da pregação era mais forte do que o ‘marketing’. Lerner tem todas as condições para ampliar em muito aqueles horizontes: hoje não mais o Estado assume o controle da poupança interna e a sua distribuição prioritária em estradas e energia, setores públicos, e age em cima de um novo signo, o das privatizações e a injeção de recursos exógenos, do exterior ou de outras unidades brasileiras.
Que não se descure, como tenho dito, da doutrina e vamos substituir aquele triunfalismo retórico por mobilização verdadeira em cima da autonomia.
Um detalhe: marketing é acessório: doutrina mais ação, o principal.
OVO DA SERPENTE O tom fanático, xiita, das organizações ambientalistas, pedindo intervenção do Exército no caso da Estrada do Colono e cassação de mandatos de petistas porque favoráveis à ocupação tem o embrião fascista daqueles que anulam o ‘‘outro’’ e desejam suprimí-lo nos confrontos.
Ninguém examinou, quando a estrada foi fechada, o impacto das três décadas de uso sobre o parque e a sua integridade. O que se sabe é que com o fechamento a ação de caçadores e predadores se tornou mais intensa.
O que mais impressiona, no entanto, é o fato de não agirem com essa veemência diante, por exemplo, de invasões de migrantes em áreas de preservação para fins de suprimento de água à população metropolitana. É que temem parecer aí
‘‘politicamente incorretos’’ diante dos movimentos sociais, como se estes tivessem o corpo fechado para agir.
Não há parque nacional no mundo que não tenha estradas. É possível fazê-las de forma correta, eco-vias, como se dá com a pantaneira que só a debilidade mental aconselharia a asfaltar. Se para invasores de terras se concede a tolerância, aliás indispensável, do diálogo prolongado, com a própria justiça atenuando o rigor dos seus rituais, tal se pode fazer na Estrada do Colono.
Diálogo sem intolerância de parte a parte: solução negociada.
REFLEXÃO Segundo a Associação Comercial o problema da inadimplência, de quase 30% da população economicamente ativa de Curitiba, está na moralização do cheque. Mas se o comércio faz liquidações, como as deste início de ano, com descontos de 60 e até 70%, é porque havia gordura demais. E esses preços altos podem explicar também a inadimplência exagerada. É o bumerangue.
BIZARRICE Curitiba teve a cesta básica mais cara do país. Só falta um vereador propor como saída a revogação da lei da oferta e da procura.
SPRAY Precatórios vão acabar marcando o governo como tatuagem: viúvas do IPE têm requisitórios vencidos desde 95 que o governo não paga. Vão fazer auê na frente do Palácio.- Não só as viúvas, mas também funcionários que ganharam pendências na justiça, titulares de indenizações e desapropriações sofrem na fila. Há quem esteja pedindo intervenção federal.- Tem ainda essa mega-operação com carros, em número de 500, na Banestado Leasing, no montante de R$ 11 milhões e que está sendo paga justamente com precatórios, negociados com deságio, e recebidos pelo valor de face (100%).- Vamos nos precatar com os precatórios.- Ainda bem que não entramos na onda daquela CPI.-
FOLCLORE O médico Saburo sai de casa com um terno alvíssimo para uma recepção. Quando atravessava uma rua de Curitiba um caminhão tocou as rodas numa poça de água e lama e acabou com a roupa do transeunte. Este, irritado, teria feito o top-top gestual para o motorista. O caminhoneiro recuou e da boléia saiu um gigante, um armário, que perguntou o que o doutor queria com aquele gesto e ele teria respondido com a repetição e tradução verbal: ‘‘não tem buzina?’’
CROMO O conféte, a serpentina, o apito, a máscara e agora a camisinha. É o mostruário do carnaval: nenhum deles prenche a ausência do lança-perfume.
AFORÍSTICO Aníbal Khury é o ACM do Paraná. Mais suburbano, é claro.

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