Luiz Geraldo Mazza
As cenas deploráveis de ontem da Câmara Federal sinalizam para o estilo de campanha eleitoral que teremos em meio à radicalização. Aquilo tudo se deu no mesmo dia em que o MST anunciava que fará das centenas de ocupações que pretende para este ano o lastro para a campanha de Lula. Para os radicais do MST Lula anda pasteurizado demais no esforço para tornar-se palatável, daí a decisão de dar sequência às invasões de terras como background eleitoral. Como em eleições todos acham que vale tudo (e essa troca de processos entre Requião e Rafael Greca é uma amostra da sordidez), o governo federal se verá obrigado a deixar o seu fair play, relativamente ao assunto, e impelido, por tal tipo de ameaça, a cumprir decisões judiciais em torno dos despejos.
A decisão dos agraristas é a prova de que sua prioridade é outra e num momento em que o governo federal cria o banco da terra, detém novos instrumentos para a regularização de processos fundiários.
Se o cenário já estava anunciando o fim do PMDB, o maior partido, com o racha entre partidários de FHC e os autonomistas, pouco desanuviado com a decisão de Itamar Franco de entrar na parada, ainda que fortalecendo aparentemente a tese da candidatura própria, as coisas caminham para a autodestruição do melhor dos nossos grêmios, o PT, com mais uma bravata dos basistas. E aqui no Paraná, onde o único nome viável, fora da visão de aparelho, é o de Luis Eduardo Cheida, para uma composição sucessória, as coisas se complicam com a audaciosa operação do doutor Rosinha, o derrotado de plantão, botando em cena a Milena, que não é aquela da novela Por Amor, e que ainda por cima tem o nome de Martinez, uma típica militante do nicho universitário, do qual saiu o Emmanuel Appel, filósofo dos mais sérios, que também viveu essa experiência.
Legítima a resistência do núcleo que se opõe ao oportunismo da tal aliança oportunista das oposições, essa manobra visa deixar a descoberto o caráter negativo desse ajuste, no qual o PT age a reboque de interesses que nada têm a ver com o seu ideário, embora próximo de sua praxis. Uma colocação, aliás, parecida com a dos peemedebistas que não concordam com a reeleição de FHC e que abominam os adesistas.
Como um dia ainda teremos instituições sérias e permanentes, espera-se que tanto as cenas de beira de cais da Câmara Federal como as dos nossos partidos indiquem apenas que tudo não passa das dores do parto da democracia na qual chegaremos com o adubo de tantos erros, tensões e primarismo.
RADIOGRAFIA Impacto forte na publicação ontem dos indicadores de crianças fora da sala de aula no Paraná. Com o simples anúncio dos investimentos na Grande Curitiba, montadoras, especialmente, a questão vai agravar-se. Há 27.989 (ou seja 7,26%) fora da escola e os maiores percentuais são Cerro Azul (30,1%), Doutor Ulyssses (28,7%), Tunas (26.1%), Bocaiúva (21%), Quitandinha (19,8%), Agudos do Sul (19,4), Contenda (18,4%). Essas cidades, quase todas com vazios demográficos, são a periferia extrema da região metropolitana e que pouco ou quase nenhum reflexo sofrem com a dinâmica do centro (Curitiba, Araucária, São José dos Pinhais, Campo Largo).
Quem sabe a discussão dos protocolos leve o governo finalmente a restabelecer aquilo que o PMDB acabou: as bases do planejamento, que até uma parte do governo Richa (Belmiro Valverde) ainda existia.
Espera-se que Cássio Taniguchi, ex-secretário do Planejamento, gerindo a Assomec, dos municípios da Região Metropolitana, fique de olho na questão.
ERRATA Na listagem referida ontem acabei comendo mosca, trocando linhas da tabulação: Cerro Azul é quem detém o recorde de 30,1% de crianças fora da sala de aula e não Centenário do Sul, que aparece com 11,9%: das 2.362 da faixa de 7 a 14 anos apenas 282 estão fora da sala de aula.
BIZARRICE Se um ataque ao Iraque for para desviar a atenção do público no caso dos feitos sexuais do presidente Clinton, teremos o michê mais caro do mundo.
SPRAY Governo para enfrentar a batalha com São Paulo no caso das montadoras (e dá para ter uma idéia pela mídia) precisará de maior agilidade relativamente à comunicação: instantaneidade no repique.- Ontem, por exemplo, aparecia no Estadão um misterioso personagem, tido como do governo federal, que dizia ter o Paraná se tornado refém da Renault. Tem o mesmo valor de um grito do PC do B dizendo que o Brasil é refém do FMI. A batalha vai ser longa e não serão os áulicos, em maior número do que os competentes no Palácio Iguaçu, que a decidirão.- Operação da Leasing Banestado, paga com precatórios, adquiridos com deságio e recebidos pelo valor de face, está em investigação.-
FOLCLORE Não existe a tal pesquisa DataFolha que daria Álvaro Dias com cinco pontos na frente de Lerner. Especulação e boato em política têm um poder multiplicador extraordinário e nessas artes há prestidigitadores capazes de fazer o boato e, para torná-lo mais autêntico, vertê-lo em xerox. A propósito: se proceder a notícia, dada em murmúrio, de que na espontânea Álvaro Dias estava com três pontos à frente de Lerner não seria demais que na estimulada ficasse até com mais de cinco no primeiro lugar. O boato, como lecionava Anfrísio Siqueira, é o embrião da verdade. Na bolsa de valores e na política.
CROMO Na mão que se abre em concha, a flor; nunca a pedra, a não ser uma gema.
AFORÍSTICO Campanha eleitoral vai exigir a mesma censura etária adotada para o filme pornô. Traição em casamento será mais comum do que troca de legendas.





