Luiz Geraldo Mazza
É um traço característico do Brasil aplicar cataplasma ou band-aid naquilo que exige cirurgia. Começa com a moralidade pública e termina em situações como essa da crise leiteira, em que mais uma vez se percebe que ironicamente o governo, federal especialmente, comeu queijo, expressão que se usa para apontar esquecimento.
A audiência pública da Comissão de Agricultura da Câmara Federal diante do Edifício Castelo Branco (a segunda, depois da havida em Goiás, e que se seguirá em novos encontros em Recife, Rio de Janeiro e Belo Horizonte) levou o governador Jaime Lerner a permitir o diferimento do ICMS para o chamado leite longa vida retornando para investimentos no setor, cerca de 6 a 7 milhões por ano. Mecanismo igual ao que privilegiará a Renault.
Incrível nisso tudo é que o leite em pó importado, altamente subsidiado nos países de origem, é aqui reidratado e chega a um preço inalcançável por nossos produtores que se esforçaram muito (cite-se aqui o havido nas bacias existentes em todo o Paraná) em ganhos de tecnologia e qualidade. Além do mais, o pretexto da globalização, que deve ser olhado com cautela e fixadas as bases mínimas de uma salvaguarda (regional e nacional), não pode justificar o que tem as características de um assalto: que competição pode haver numa luta entre Mike Tysson e o Marco Maciel? É o que se depreende quando americanos, que fizeram o seu poder em cima de barreiras alfandegárias (e as aplicam até hoje por exemplo em nossos têxteis, calçados, açúcar, seja pela taxação ou pelo limite de cotas) vomitam doutrina liberal, o que é uma farsa.
Um dos crimes que o governo da União cometeu foi demorar em fixar o Proer das cooperativas. A Batavo poderia ter escapado à absorção pela Parmalate se tivesse sido beneficiada a tempo. Não dá para chorar o leite derramado, embora o talhado possa gerar requeijão e coalhada. O argumento de que a globalização é inevitável é de um realismo de Sancho Pança. Urge que se o encare realisticamente, mas não abrindo as pernas e sem fixar um mínimo de defesa interna.
Caso contrário, a globalização para nós será olhar com orgulho o out-door ou cartaz de propaganda do Nescafé, só porque é feito no Brasil, ainda que pertencente a multinacional. Modus in rebus, como dizia Horácio, o clássico. Moderação nas coisas e cuidado com as simplificações e o mito da exatidão.
GLOSA Marido traído e consciente que tem até a planilha dos passeios da esposa, dia a dia, hora a hora, seria portador de um cornograma?
BIZARRICE Ataques, mais ou menos sistemáticos, dos senadores Requião e Osmar Dias contra Rafael Greca dão a impressão que desejam, por todos os meios e modos, impedir a sua ida à Câmara Alta para enfrentá-los. É o que a equipe de Greca está dizendo ao afirmar que essa é a única forma de manter o equilíbrio naquela casa do Congresso. Requião está sendo processado por Rafael Greca. Osmar Dias, da tribuna do Senado, disse que só entendia a presença de Greca em Brasília (na briga pela liberação dos empréstimos) como interessado no projeto da deputada Marta Suplicy sobre casamento de gays. Como se vê, temática para debate aberto no programa do Ratinho.
SPRAY Impacto retorna com matéria violentíssima numa entrevista com Requião neste fim de semana: repete que o governo Lerner é o mais corrupto de toda história do Paraná. Dá cascudos pesadíssimos em Greca e debulha a questão da Renault e da Chrysler.- Associação Brasileira de Pedestres, presidida pelo engenheiro e economista paranaense Eduardo José Daros (sugeri o seu nome para uma reunião técnica da Câmara Municipal sobre circulação, na qual brilhou com a desenvoltura costumeira), está mostrando a responsabilidade das prefeituras nas condições das calçadas. Curitiba não passa nesse teste.- Trechos urbanos de vias rurais devem ter a previsão de passeio destinado à circulação de pedestres.- Em Curitiba Daros defendeu o que ocorre no primeiro mundo: tarifação de carros de passeio que tenham apenas uma pessoa ao volante nas malhas urbanas com o que se impõe a prática do transporte solidário.- Outra proclamação Abraspe: velocidades de até 30 km/hora raramente matam o pedestre atropelado. A probabilidade de sobrevivência cai com o aumento da velocidade: 95% paRTA 30 km/h: 63% para 45 km/h, 15% para 70 km/h. Após essa velocidade raros são os sobreviventes e quando isso acontece acabam com sequelas para o resto da vida.- TV Bandeirantes estava à procura de um gordo que ama a sua condição: um vendedor de marca-passos, orgulhoso de seus quilos, foi lembrado e também o ator Paulo Fribe, da peça O vampiro e a polaquinha. Normalmente ninguém gosta de gordurinhas e em muitos casos não consegue esconder um problema grave de crise de identidade.-
FOLCLORE Anos passados fiz um texto sobre a Boca Maldita na Panorama e citei todos os pontos semelhantes do interior. O de Antonina referido foi o bar do Coralo, do qual o Guilhobel Camargo, frequentador assíduo, mandou um telegrama de agradecimento e que me foi entregue pelo carteiro no endereço inacreditável: Boca Maldita-Curitiba ( que tinha então quase um milhão de habitantes).
CROMO Ali Chaim, repórter policial, e Carlos Alberto Pessoa, comentarista, deslumbrados percorrem o green do Graciosa Country Club. De repente uma bola arremessada por um golfista bate numa das árvores e o Chaim corre atrás pensando que se tratava de um ovo de passarinho. Antes que pudesse apanhá-la para devolver ao ninho ouve o grito dos esportistas, nômades da grama, para que não o fizesse. O ecossistema do esporte tem menos poesia.
AFORÍSTICO Se a Parmalate, a Batavo mia?





