Ninguém mais do que São Paulo tem sido beneficiário de mercados cativos, subsídios, estímulos. Na Carta Cidadã, o entulho da não governabilidade, José Serra, que posa de moderno e austero, incluiu um artigo protecionista típico da tradição brasileira, no caso favorecendo o consumidor de energia e punindo os produtores como o Paraná. Esse é um incentivo, mais do que uma ‘‘guerra fiscal’’, para garantir a hegemonia econômica, subsidiando, de forma acintosa, aquele parque industrial. Justamente o inverso que se dá no ICMS que deveria beneficiar o consumidor e que acaba como incentivo ao produtor, embora parte agrícola a Lei Kandir se ocupe de eliminá-lo.
Vejam, pois, que institucionalmente, com força de lei, São Paulo, que há muito deveria dispensar esses instrumentos, é beneficiado. O caso do cancro cítrico é histórico: criou-se uma paranóia no Brasil e para atingir o nosso Estado apontado como área endêmica da patologia. Com isso São Paulo criou e ampliou seu parque produtivo, fundamento para o novo salto que viria com o suco, hoje figurando como uma das peças-chave daquela economia e do país.
O Paraná demorou para perceber a farsa e não teve inspiração para botar a sua retaguarda técnica disponível para enfrentar o lance. Há pouco tempo tivemos o sinal verde com o qual já podemos contar com os pomares do noroeste e com a transformação industrial, ainda em escala insatisfatória, em Paranavaí. Isso se deu lá pelo governo Canet Júnior quando Paulo Carneiro Ribeiro estava à frente da secretaria de Agricultura. Entre a liberação da cultura, a sua expansão e a implantação industrial perdemos mais de duas décadas.
Queriam fazer o mesmo com a indústria automotiva, como tentaram inutilmente fazer com o café, este uma agricultura democrática e popular, reforma agrária de fato, que se desenvolveu como se fosse uma guerrilha contra o baronato e idéias como aquelas de Assis Chateaubriand que desejava o Paraná transformado num Canadá com a exploração florestal, que mal disfarçava oposição ao que aqui acontecia. Chatô tinha razão em algumas coisas: lutar pelos cafés finos (o que não significava impedir que produzíssemos outras variedades) era boa causa como também opor-se que a cultura penetrasse abaixo do paralelo 24.
Lerner está fazendo uma revolução parecida com a de Ney Braga e até com maior alcance, em termos de macro-escala, ao romper com a condicionante que fazia de nós uma economia de complementariedade à paulista. E isso os Covas e Kapaz não querem, como se vê pela linha de argumentos que adotam. A polarização de São Paulo foi rompida pela Fiat em Minas: agora o Rio, o Paraná e o Rio Grande do Sul tiveram a sua hora e vez e a Bahia está na fila. O Brasil está mudando e o Paraná tenta uma emulação legítima, procurando queimar etapas e romper com os bloqueios artificiais e políticos que tentam deter a sua marcha.
LEASING Ela voltou ao cartaz com toda a força. Não é tão popular quanto a dança da garrafa, mas a Leasing Banestado, alvo de mensagens cifradas e que envolvem revendedoras de automóveis, voltou ao cartaz e sua diretoria teve que partir para explicações públicas. Aquelas anteriores, vergonhosas, ninguém fala, embora a polícia estadual e federal tenham se ligado no tema.
BIZARRICE Rubinho Ferreira leu o protocolo da Renault e quer construir um hotel em Guaratuba com os mesmos incentivos. Rubinho arrendou um hotel de Joel Malucelli e está entusiasmado com a atividade. ‘‘Com um empurrãozinho como esse da Renault, decolo mais fácil que Santos Dumont’’- gargalhou, enquanto vencia mais uma partida de pif-paf.
SPRAY Requião ouviu calado na reunião da Executiva nacional do PMDB a cobrança de seu colega Jader Barbalho relativa ao ‘‘Disque, Quércia’’. Jader disse a Quércia ‘‘Você pode ter esquecido dos que o acusaram de ladrão, mas eu não.’’- Apesar de tudo, os que defendem a candidtura própria, entre os quais o senador paranaense, acham que ganham do rolo compressor pró-governo. O delírio é o ato de respirar dos políticos, corretores da esperança.- Prefeito de Pontal do Paraná declarou na Exclusiva (rádio) que não recebeu um centavo do governo Lerner ano passado.- Guaratuba se queixa do fato de contar apenas com um delegado e quatro tiras para mais de cem mil pessoas.- Começou anteontem a corrida dos caranguejos com a lua nova.- Valdir de Córdova Bicudo, ex-juiz de futebol, faz comentários às 6 da tarde na Rádio Capital. Tira notícia fresca da Internet como quem abre um frizer.- Miguel Salomão, do Planejamento, ao saber da crítica do presidente FHC sobre a guerra fiscal disse que ele a internalizou ao defender o produtor nacional na competição com o estrangeiro. Guerra fiscal, todos abominam. Mas ninguém abre mão dela. Reforma tributária é que botaria ordem no caos. Falta decisão política para adotá-la.
FOLCLORE O governador é muito ruim de papo. A não ser quando está entre amigos e em ambientes não formais. Aí toma caipirinha e tira samba de caixa de fósforos, arte que aprendeu com Nireu Teixeira. O ideal, segundo o raciocínio, seria que se criasse esse ‘‘decor’’ para os pronunciamentos oficiais como aquele, desastroso, no ‘‘Opinião Nacional’’ da TV Cultura. Nelson Gonçalves, embora gaguejando, ainda é um grande cantor. A reciclagem é possível.
CROMO E de repente a luz devassa, como um raio xis, um corpo de mulher com mais força do que a arte dos vitrais que dela depende. Voyeurismo acidental.-
AFORÍSTICO Lerner faz jejum de política ou é um jejuno em política?

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