Curitiba detém a maior concentração de ‘‘xaropes’’ por metro quadrado. Eles têm o dom da ubiquidade, estão em todas as partes ao mesmo tempo. Mil vezes mais perigosos do que os delinquentes (estes, afinal, podem assaltar, matar, furtar e agredir e aqueles são de ações inesperadas que podem ir de um beijo na boca, o que entre homens ainda é um desconforto, um chute na sambiquira ou capazes de nos arrancar os dois olhos). São cada vez mais frequentes.
Quando estive, ano passado, em Buenos Aires, fiquei surpreso exatamente com isso: a inexistência de ‘‘xaropes’’, principalmente em lugares de concentração turística. Na ‘‘Ricoleta’’, por exemplo, que alguns comparam aos Campos Elíseos de Paris, onde dezenas de milhares de pessoas se distribuem pelo complexo gastronômico, bares, bistrôs, estúdios de arte, não se detecta um só deles. Em Curitiba, é impossível ir a qualquer ponto cosmopolita sem que não se encontre um deles, seja no Setor Histórico, no Batel, na Pedreira, shoppings e agora já invadem o maior centro de lazer, o Station Plaza Show.
Há os casos clínicos dos perturbados psíquicos, psicóticos, mas como hoje é ‘‘politicamente correto’’ opor-se à internação em manicômio, acabam em companhia dos ‘‘xaropes’’ com quem disputam os espaços nas calçadas. Curitiba é, cada vez mais, estuário de migrações, de marginalidade e, consequentemente, a sua fauna vai se diversificando.
O ‘‘xarope’’ pode ser de qualquer classe social e os mais exóticos são os decadentes oriundos da riqueza, que ganham uma tonalidade operística, tal qual a dos personagens de Felini. Há os da área cultural e da política, estes em maior número, bem como os do campo empresarial. Fecham o cerco para tornar-se maioria antes dos ‘‘gays’’ e outras supostas minorias.
Não podemos ser intolerantes com eles porque, como no caso dos chatos, tão abominados por Dalton Trevisan, que escreveu uma oração para afastá-los, corremos o risco de ser assim olhados pelos outros. Tanto o chato como o xarope é como o cara de mau hálito, especialista em confidências ao pé do ouvido, e que não se identifica, não se enxerga, como aquilo que abomina.
Sartre dizia ‘‘o inferno são os outros’’. Aplica-se bem à autoxaropice, da qual não escapam a minha e a sua, ainda quando atenuada.
PONTES Não faz muito tempo, a ponte Rio-Niterói estremeceu. Essa de Guaíra nasce torta como as pernas de Garrincha com um desnível enorme, um tobogã, do lado do Mato Grosso do Sul. Como é que isso aconteceu e qual o testemunho da área técnica? Agora o Requião vai dizer que a culpa é do Lerner e este dirá que é daquele. Obra tão demorada, embora sem projeto definitivo e muito menos sem RIMA e sem previsão para a navegação, o que se deu sob Requião, em nada justifica essa estranheza estética e funcional.
O prédio sede da Telepar, o totem, apresentou defeito de construção e teve que ser ‘‘cinturado’’. O mesmo se deu com a residência do governador que estava acoplada ao Palácio Iguaçu e que foi removida do projeto. Outra obra do Centenário com defeito foi a do Grupo Escolar Tiradentes.
DUPLA Há um afinamento na dupla Jaimão e Nelsinho (Lerner e Justus): o primeiro anuncia a Suzuki, depois se arrepende e desmente para não confirmar, ainda que sorrindo na visita dos empresários da montadora; o segundo, desde o início das especulações, afirma que a fábrica não vem mais pra cá. Afinadinhos no sim e no não. Um canto pendular como o governo.
SPRAY Leptospirose no litoral: na praia há tantas ou mais pré-condições em função das enchentes.- Com nova coleta de água do mar para identificar a concentração de coliformes, haverá interdição de mais pontos do que os 17 já apontados.- Gustavo Fruet mostra que, se houver o mesmo número de infrações no trânsito em Curitiba, com as novas sanções do Código, só em multas haverá a arrecadação pela Prefeitura de R$ 40 milhões, justamente o crédito adicional aprovado em 97 na mensagem que institui a diretoria de trânsito junto à URBS. Será a terceira fonte de recursos depois do IPTU (bronqueadíssimo) e do ISS.- Fruet prevê ainda muito conflito no Judiciário em função da novidade.- Chio da área teatral contra crítica da ‘‘Gazeta do Povo’’ e que tenta desqualificá-la sob o fundamento imbecil de que é de Londrina. É bem uma evidência da arrogância metropolitana e do desconhecimento de que a maior figura teatral do Paraná é de Londrina, Nits Jacon, que estudou na Capital e que aqui fez a sua brilhante iniciação na área.- Quando Joana Lopes, das maiores jornalistas que passou por esta Folha, editora cultural, fez duas páginas de crítica contra o espetáculo que reabriu o Teatro Guaíra, houve a mesma chiadeira.-
FOLCLORE Será que a polícia se mostraria tão tolerante com o cidadão infrator do trânsito se as câmeras de TV não estivessem por perto? Na hipótese de uma reação, vista por uma câmera oculta, ainda assim o povo a aprovaria, pois até para provocação há limite.
CROMO O ascensorista se imagina no seu posto, e com todo direito, astronauta. E o catador de papel na boléia da carroça é o Ben-Hur dominando a biga na arena.
AFORÍSTICO O tempo é o senhor da razão, já dizia Collor: Álvaro Dias, de alvo dos professores furiosos por causa do massacre de dez anos atrás, se transformou em benfeitor dos universitários e por isso vai ser homenageado ainda neste mês em Cascavel porque implantou o ensino gratuito no terceiro grau, por sinal um ônus tremendo e indevido que aprofunda a crise da educação e que seu líder, FHC, tenta remover.

mockup