É de um ridículo atroz a palavra de ordem do PMDB regional, como se algum dia tivesse (à exceção de Richa) um programa para mudar a nossa realidade para melhor, no sentido de que se pretende ‘‘salvar o Paranᒒ. Na verdade, os proponentes querem é se salvar do purgatório a que se condenaram por sua incompetência e o afloramento de expectativas jamais cumpridas. Ao PMDB, mais uma vez excluído Richa, que pelo menos tentou algo, devemos o desmantelamento do sistema de planejamento entre outras coisas.
O partido se perdeu nacionalmente com os pecados graves do Plano Real e seu estelionato em que se transformou para eleger a quase totalidade dos governos locais. Perdeu no poder o pique de oposição: lá se foi o carisma do qual Leonardo Boff tanto se queixava relativamente à Igreja transformada em instituição e ‘‘protegida’’ demais por hierarquia.
O PMDB e o PSDB são a mesma coisa: este é aquele encabulado que não ousa dizer o próprio nome quanto mais a secreta intenção. E gradativamente ficam, cada vez mais, parecidos com o PFL, que tem ao menos a virtude do pragmatismo.
Numa coisa o grupo que luta para recuperar o carisma tem razão: guindado ao governo federal e como estepe, o PMDB entra em agonia. Sua única saída é a candidatura própria, fato aliás comprovado nas eleições anteriores, nas quais a despeito das baixas votações de Ulysses Guimarães e de Quércia percebeu-se que sua votação proporcional e a majoritária para o Senado dependeram desse sinal de autonomia.
Dos pré-candidatos do PMDB, o mais contundente e o que traria a ruptura seria Requião. Isso esbarraria em dificuldades, mas ‘‘aqueceria’’ as possibilidades do senador, por ele ficar exposto na mídia, tal qual se deu com os precatórios, para a postulação regional, tese desesperada dos deputados estaduais que sabem que mesmo com esse respaldo estão com dificuldades para reeleger-se. Se desse para convencer Álvaro Dias a disputar o Senado, a operação seria perfeita. Além disso, o presidente da Telepar corre o risco, a qualquer momento, de ser aconselhado por Brasília a compor-se com Lerner, ainda que de forma discreta.
Tudo o que está acontecendo é jogo de cena como essa integração do PPB à frente oposicionista, já que a maioria dos seus parlamentares estaduais e federais é contrária. E o vigor com que o governo retomou iniciativas de campanha, como os anúncios do PFL, um milhão de vezes melhores do que os do sistema oficial, mostra que não vai brincar em serviço e que levou a sério a pesquisa do DataFolha. Se vencer a preguiça e o tédio, aquela compulsão para viagens cosmopolitas, terá dado o primeiro passo à reversão do quadro.
BIZARRICEPelo jeito, Lerner é ameaça maior do que FHC. É que até aliados se compuseram na tal chapa de oposição, e ainda por cima assumida na sede do PSDB regional. Se numa ceia de apóstolos com o Filho de Deus havia ao menos um traidor, dá para imaginar o que há de sério e de princípios nesse evento.
METÁFORA Atribuem a Aníbal Khury, num momento de irritação diante da lerdeza de Lerner, a frase terrível: ‘‘É o bonzo que vai incendiar-se diante do Palácio!’’.
Se isso acontecesse, haveria mais de um no abraçadinho de brasa.
SPRAYO galerista Jorge Sade tem uma pendência com o Exército há 43 anos. De lá para cá milicos que mataram gente e conspiraram tiveram anistia e direitos, ele não. - Um anúncio classificado seu em que faz analogia com o drama do capitão Dreifys, defendido por Zola, foi censurado, e em repique Sade mandou xerox para todos os meios de comunicação do País. Vai ser ouvido na marra. - Ele vem tentando, desde 1954, a revisão de sanções sofridas, e enfrenta um jogo solerte de espelhos, como se num processo kafkiano, sem qualquer atenção. - Aníbal Khury vai tentar convencer Álvaro Dias a compor-se com Lerner. Dialogar é preciso, decidir não é preciso. A expressão aí tem a força do original de Pompeu ao animar as tropas embarcadas que no ato de navegar há precisão, certeza e no viver, não. - Estudo do DIEESE, de agosto do ano passado, mostra que o peso dos encargos sociais na folha das empresas não passa de 25,1%. - Revela ainda que os encargos representam 30,89% do salário contratual, ou 27,8% da folha média mensal da empresa, ou 25,1% da remuneração total recebida pelo trabalhador, ou, ainda, 20,07% do custo total do trabalho na empresa. - Esses indicadores, mais os relativos ao custo horário da mão-de-obra podem desmistificar tudo o que o empresariado afirma relativamente ao peso do fator trabalho no custo geral da produção. Custo no setor siderúrgico coloca o País apenas à frente do México (US$ 8,5 dólares contra US$ 10,4 numa ponta de US$ 40,2 na Alemanha e US$ 38 no Japão). Com a privatização, a relação deve ficar mais afrontosa ainda, embora a redução do emprego possa ser compensada. - Analistas do Bird provaram que a redução de encargos sociais nas folhas de pagamento, o que aliás se buscou na ‘‘flexibilização’’, implicaria uma queda de apenas 2 a 5% no custo total das empresas. Mas farsa está aí.
FOLCLOREAntes quem vazava informações sobre investimentos era o secretário da Indústria e Comércio, Nelson Justus. Depois do episódio Suzuki verificou-se que Lerner é mais ligeiro e açodado. No que não deve é rápido. Naquilo que é imperioso fazer é lerdo.
CROMOQue deve fazer o poeta: comover-se com o menino de rua ou erigir-lhe um soneto? Que tal um pãoema, arte comestível?
AFORÍSTICOO último lugar que um filósofo escolheria para reflexão seria o tal do Chapéu Pensador. Até numa masmorra é possível pensar, como aconteceu com Tomas Morus e Campanella. Naquela suíte da Copel, Sartre abreviaria seus dias. E nela jamais se encontraria com Simone de Beauvoir.

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