O caos sem embalagem
Sacos de lixo e pedaços de madeira flutuando, descendo das partes altas da cidade para o estuário comum dos rios Belém e Ivo, constituiam o cenário da cidade-modelo, capital ecológica, depois de 40 minutos de chuva forte. Como o Pangloss de Voltaire, que vive no melhor dos mundos, o secretário municipal de Obras, Taminato, comemorava eufórico que o sistema de drenagem funcionara de forma excepcional, mostrando a eficácia dos investimentos pesadíssimos na gestão Rafael Greca. Para ele, talvez, fosse verdade; não para a maioria da população.
A declaração do servidor parecia de encomenda para mostrar que a sucessão havida em Curitiba impõe lealdade, apesar das caneladas e ferocidades desencadeadas no andamento da transição até agora não metabolizadas. Foi pelo ralo também aquele sofisma do ex-prefeito de que em Curitiba não há enchentes e sim alagamentos, referindo-se aliás a fundamentos de hidráulica. Quatro pessoas foram levadas pelas águas e corremos o risco novamente, como se deu dois anos atrás, de registrar casos de leptospirose (mais de 300 com algumas vítimas fatais).
A cidade virtual, a cromática dos belos anúncios de televisão, quando checada pela cidade real dá nisso. Aplica-se muito recurso (proporcionalmente um dos mais elevados do país) para vender o ‘‘citymarketing’’, que condiciona as pessoas, induzindo-as ao conformismo, o que é um desserviço à democracia e um feito apropriado ao fascismo, e quando a cidade é despojada da embalagem multicor é que percebemos o mal que se faz a cidadania.
Insisto em dizer que a cidade teórica, a badalada nos institucionais, expirou nos anos 70 quando havia um relativo domínio nas técnicas de intervenção e de monitoramento urbanístico. Uma ideologia repetida, como ensinava Goebbels, tenta nos convencer que essa realidade em preto-e-branco é coisa de gente com mau humor, doentia, sem imaginação e mal amada, que o pior cego é aquele que não quer ver etc.
Lembro de uma advertência da Francisca Rischbieter, zelosa servidora da cidade, quando começou a onda ecológica, ao fazer a observação singela e prática de que os sacos de plástico que acondicionam o lixo se transformariam, em pouco tempo, em fatores de agravamento das cheias por bloquearem boeiros e bocas de lobo. Se a chuva serviu ao menos para mostrar o quanto a cidadania perde com a propaganda manipuladora, aliás proibida constitucionalmente num texto até hoje não regulamentado, prestou enorme contribuição a todos nós. Pena que seus efeitos sejam imediatos e insuficientes para vacinar a cidade contra os exageros do marketing que custam caro, dão resultados muito bons em favor dos políticos beneficiados, mas são insuficentes como respostas a problemas concretos como o das enchentes que mataram e destruíram.
BIZARRICE Depois das chuvas de anteontem o fato mais lembrado era o do enorme cartaz, à época das obras complementares de desafogo do rio Ivo, decretando o fim das enchentes. Um morador sugeriu que faltava ali mais bocas-de-lobo e acabou advertido de que não deveria emitir tal juízo, já que o governo municipal poderia colocar no local uma escultura de Chapeuzinho Vermelho.
SPRAY Quando todas as facções do PMDB do Paraná se acertam, o resultado é sempre negativo. Agora é contra a reeleição, tal qual foi quase unida aquela convenção em que Álvaro Dias ficou em quarto lugar. - Mesmo quando dividido, como se deu quando Requião enfrentou Quércia, o saldo foi bem negativo. - Ontem saiu a segunda reunião da Fundação para o Desenvolvimento do Litoral do Paraná. Fundadores da entidade são os advogados José Maria Correa, Atos Abilhoa e Sérgio Souto, os jornalistas Hélio Teixeira e Gilberto Fontoura, o diretor da revista Panorama, Newton Dalla Bona, empresários Mário Costa e Celso Malucelli. O encontro foi em Matinhos e combate privilégios a Caiobá e o uso de soluções para administrar crises só nos picos das temporadas. - Nem o Memorial da Cidade, aquele que Dalton Trevisan chamou de ‘‘Capela Sistina merdosa e kitch’’, escapou dos alagamentos e funcionários se batiam para enfrentar o problema. - Prefeito de Guaraqueçaba, Ademar Ussui, andou pelo Japão e espera, como outros colegas nisseis como o Cássio Taniguchi, receber apoios externos. Guaraqueçaba já conta com o trabalho da Fundação Boticário. - Cartas anônimas voltam a circular à toda força. Uma delas se refere apenas a irregularidades que ocorrem no Ministério Público e dá em detalhes as razões pelas quais houve fraude, coibida com anulação, da recente prova preambular para ingresso na carreira.
FOLCLORE ‘‘Chuva forte comprova eficiência das obras da Vicente Machado’’. Esse o título do release da prefeitura sobre as inundações de anteontem. O engenheiro Roberto Arruda, diretor do setor de galerias da secretaria de Obras, foi enfático: ‘‘O cruzamento da Vicente Machado com a Visconde de Nacar é um ponto de confluência das águas.’’ E o noticiário oficial bem como as suas versões publicitárias é o ponto de confluência da mentira e do conformismo.
CROMO ‘‘Gestos e palavras ensaiam a dança recomeçada.// Sabores e odores insinuam a fome redescoberta.// No espelho reprimido// olhos atônitos encaram a estrela// refeita// no céu reiventado.//’’ Lourival Perez Baçan assim aparece em ‘‘Recomeço’’ na última edição de ‘‘Nicolau’’.
AFORÍSTICO ‘‘Um metafísico é alguém que, quando você lhe diz que dois vezes dois são quatro, ele quer saber o que você entende por vezes, o que significa dois, e o que quer dizer ‘são’ e por que isso dá ‘quatro’. Por fazerem tais perguntas, os metafísicos desfrutam um luxo oriental nas universidades e são respeitados como homens educados e inteligentes.’’ Henry Louis Mencken.

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