Um cacoete da esquerda brasileira, tão resistente quanto o apego ao populismo e ao nacionalismo patrimonialista, é o da sinistrose. Nos anos cinquenta, quando na Universidade, ai de nós, metidos a oradores do pinga-fogo da UPE e da UNE, que não tivéssemos na memória quantas crianças morriam por segundo no Brasil. Era a fórmula, bem ao gosto melodramático, infalível para levar ao público a sensação da catarse, da emoção transformadora, aquela que religiões obtém em meio à liturgia.
Havia os autores preferidos dessa época, entre os quais o indefectível Josué de Castro com a sua geografia e geopolítica da fome. As bandeiras eram as mesmas: reforma agrária ou então revolução, que era uma palavra que estava nos lábios de todos nós e ai dos que não a lembrassem: entrariam em crise como a do padre que abandona a batina e mergulhariam em remorsos shakespeareanos. Tudo isso com o condimento da guerra fria, que dividia o mundo como uma laranja cortada ao meio entre o Ocidente cristão e o Oriente materialista.
Essa discussão em torno da metodologia do desemprego não é apenas local, mas nacional, pois a orientação do IBGE, muito mais credenciado, entra em choque com a do DIEESE, instituição condiconada, o que não está errado, a defender o trabalho, hoje já sem aquela importância do passado como fator da produção. Um digitar em computador transfere hoje massa financeira de um país para outro com uma velocidade jamais alcançada por uma linha de montagem, mesmo que apoiada na informática e na robótica. É o ‘‘capital’’ humano, mas sem a força e a expressão do outro, aquele que coisifica tudo numa ordem regida por esse deus pagão chamado mercado e hoje com as glórias de um confessionalismo tão determinista quanto o pretensioso do passado do marxismo, em que o dado científico era traído por uma pulsão profética: a da marcha batida à sociedade sem classes, conforme previsão tão babaca quanto a dessa praga, menos valiosa em termos de humanização, do neoliberalismo.
Agiu bem o governo em mudar a metodologia por maiores desconfianças que o fato provoque num ano eleitoral e que sirva de ‘‘ceva’’ aos pescadores de águas turvas. A falta de uniformização de critérios impede estudos analógicos, indispensáveis para um enfoque, tanto estrutural quanto conjuntural, da questão. A idéia que permanece nesse exercício de sinistrose - a referência aos 150 ou 165 mil desempregados da Região Metropolitana, que considero formas endêmicas de retração, facilmente ajustável ao impacto das migrações - é o de que o sujeito desempregado não se mexe, não se vira (nem para pedir ou roubar) e enfim se transforma num catatônico, numa estátua. É aí que perdem a noção de que o impulso vital, a necessidade, ativa e impulsiona o desempregado a agir. Há vinte anos não existia, como hoje, a legião de catadores de lixo na Capital e atividades marginais como essa acabam absorvendo esse pessoal bem como outras típicas de biscate, inclusive as patológicas como o tráfico de drogas.
De qualquer forma fica demonstrado que o governo desprezou os impactos, entre os quais o da migração, que se acentuarão com novos investimentos e que cuidou, mais uma vez, da economia e esqueceu do lado social. E isso a mudança de critérios de medição do de sempre não vai solucionar.
BIZARRICE Houve um concurso de oratória na Direito Federal que eu ganhei em disputa entre outros com o hoje desembargador Ney de Mello Almada, o Túlio Vargas e o João Régis, pai da nossa diretora regional, a doce Regina. O Élio Narézi, maior criminalista do Paraná, colega de turma como o Túlio, me deu a dica: provoque emoção, apele ao patético sem ser piegas. Falei sobre um piá que pedia esmolas em Curitiba em troca de canto e assobio. Fiz um refrão: ‘‘há um menino que canta e chora nas ruas de Curitiba’’. Quando terminei, com o que ganhei a parada (e me sairia muito mal na disputa nacional), veio um colega de agito acadêmico, emocionado e me avisou ‘‘enquanto você se empolgava e comovia os outros, morreram de fome no nordeste mais de mil crianças!’’ De noite sonhei com crianças portinarescas, em pele e osso, saindo das tumbas sob o canto das ‘‘Incelências’’. Só faltava um poema do João Cabral e um texto do Graciliano Ramos para completar a sincronia da sinistrose. A esquerda vive muito em função dessas referências, daí pretender, como no espiritismo, sentir a pobreza e o lúmpem, como se os substituísse. Mediunidade pura. Convenhamos, muito pouco autêntica. Como diz Lula, não se deve ter medo de ser feliz.
SPRAY Em Curitiba um adolescente que andar de ‘‘buggy’’ é enquadrado. Na praia pode. Inventaram um meio de burlar a questão da vigência da lei no tempo e no espaço.- Aliás, sugere-se que a confusão sobre a permissão foi criada por importadores, vinculados ao governo, e que obtiveram o ‘‘pode’’ do Detran.- Um aposentado, Marciano Morozowski, do Bigorrilho, teve o seu IPTU com aumento de 40%, enquanto o valor venal da propriedade cresceu apenas 6,85%. Para quem pagou a previdência com 20 salários e recebe dez é um pepino. O problema vai criar resíduos políticos.- Escritura da transação com prédio no Centro Cívico para a Fundacentro será assinada dia 23, cartório da Barreirinha. Caixa Econômica avaliou em 200 mil a menos. Há mais alvaristas do que alvaristas na jogada.- Guaratuba tem coisas incríveis: um prefeito que pagou 50% do 13º em julho de 97, fez uma boa toalete (a dos esgotos no mar não dá para encarar) e um juiz (Negrão) que sem apelar ao direito alternativo resolve pequenas causas com rapidez de ‘‘flash’’ e com retorno comunitário.

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