Basta estar no poder para que funcione uma espécie de vacina contra o senso do ridículo: a tentativa de dar uma dimensão triunfal ao retorno de Lerner, semana passada, de sua missão internacional teve o condão de mostrar apenas que voltamos aos tempos da Arena, o maior partido do Ocidente. Até os personagens, embora alguns mais moços, pareciam os mesmos das celebrações da fase militar na qual o governador figurava como ‘‘garoto propaganda’’ do regime em seus aspectos mais técnicos do que ideológicos.
As férias me pouparam do constrangimento de ver a cena, aliás parecida com aquela do café com as estrelas da ADVB. Felizmente estava em Santa Catarina e me livrei, portanto, de ver o espetáculo no jornal regional. É que essas situações são aflitivas, semelhantes às vividas por todos nós quando vemos o craque pisando na bola ou o ator dando mancada em cena no teatro e até em filme não corrigida pelo diretor. Quantas vezes deslizei, envergonhado, da poltrona numa sala de espetáculos diante de uma situação dessas!
O ridículo é um risco da vida. O mocinho, que sempre leva a melhor, em faroeste que se preze, não tem como reparar a insolência de um ponta pé na sambiquira como aquele do Garrincha na Copa do Chile. Chute no traseiro é de arrepiar. Pois essas solenidades são piores. Como foi aquela ida desastrada a Brasília para liberar os empréstimos. Os lúcidos, os honestos e até os bem intencionados se perdem nessas situações.
Fosse mais ágil e determinado o governo e a obstrução dos senadores teria sido demolida. Com o ritmo lerneriano de ‘‘fazer acontecer’’ politicamente acabamos nos impondo um padecimento desnecessário. Exemplo do ritmo é o tal exercício de reflexão para ver se saía do PDT enquanto era esnobado pelo PSDB sem votos e se obrigava a aninhar-se no PFL, o neo-arenismo.
O governador está perdendo credibilidade quando tem tudo para deslanchar como se vê na óbvia declaração da Secretaria do Tesouro Nacional (aquela mesma da desastrada nota que apenas encheu a bola de Requião e Osmar Dias centrada em sofisma prospectivo) de que o Paraná é o segundo Estado brasileiro em termos de administração da sua dívida. Além da liberação dos empréstimos (antes tarde do que nunca, tal como lecionava o conselheiro Acácio), dos R$ 14 bilhões em investimentos, que mudam radicalmente o perfil de nossa economia, das obras que podem ser inauguradas em convênio no interior, há a obrigação imperiosa de uma corrida contra o relógio para acertar as licitações (do ParanáSan, Paraná Doze Meses, Proem) antes que avancem em prazo proibido pela Lei Eleitoral.
Ninguém de maior corpo fechado do que um áulico, especialista em quebrar termômetros quando a febre do governo aumenta, capaz também de sugerir que a escala não é Celsius para dissimular, enfim um acrobata do espírito, ligeiríssimo e apto a transformar um Ibope negativo em positivo. Esses por certo vão argumentar que Lerner pode viajar, outra vez, agora para a França, embora Álvaro Dias esteja empatado com ele e Requião apareça, fungando, em terceiro.
Se viajar, a não ser que o faça para o interior, ‘‘dança’’. Sua imagem está muito ruim fora da Capital e aqui também não é lá essas coisas, Se for a Paris esquece a lição daquele estribilho do anúncio da Rider: ‘‘Paris, Paris, je t’ aime//mas eu prefiro o Leme’’. Leva porém a vantagem de usar o francês para a dança da ‘quadrilha’ (isso nada tem a ver com aquele outro sentido), cujo animador poderia ser o chefe da Casa Civil que lembra o que há de mais aristocrático, apropriado ao cenário do período que antecede as luzes e a Queda da Bastilha.
BIZARRICE Como foi extremado o aumento do IPTU, todos se lembram que um tributo com essas características determinou a queda da Dama de Ferro, a Margareth Tatcher, na Inglaterra. Há casos em Curitiba de aumento em mais de 100%, segundo alguns proprietários inconformados. Cássio olha tudo com sua habitual frieza e mostrando-se disposto ao diálogo e até a revisão em casos efetivamente abusivos.
Enfim, não quer, depois do seu feito no DataFolha, como o segundo burgomestre do Brasil, ser chamado de Cássio Tatcher, o que poderia vir dos xiitas do PT, se é que aqui eles existem, tal o conformismo da moda.
SPRAY Um negócio imobiliário, estranhíssimo, estaria para acontecer junto ao Ministério do Trabalho no Paraná, beneficiando um ex-secretário de Estado. Há uma avaliação da Caixa Econômica bem mais abaixo do valor que se pretende ajustar. É gasolina na fogueira em ano de campanha eleitoral.- Nunca os serviços bancários estiveram tão ruins quanto agora e justamente quando mais se despede trabalhadores. - Moradores da avenida Beira-Mar da praia de Guaratuba não suportaram abusos e reclamaram ao juiz da comarca: a lei do silêncio não é observada e os órgãos estaduais, a pretexto de animação cultural, são os maiores infratores com altos falantes operando a todo vapor desde cedo. Ironia maior: entre os promotores aparece a logomarca do governo e a expressão Paraná Ambiental. E isso cabe perfeitamente: ouvidos estourados e corpos sob risco nas praias transformadas em cloacas são o contraponto.-
FOLCLORE Câmara Municipal e o Ministério Público da Comarca de Faxinal ferraram os envolvidos no desvio de verbas federais, entre os quais o ex-secretário Hermas Brandão. O ritmo municipal de apurar as coisas é rápido e o da União mais lento ainda do que o do Estado. Aqui, os deputados em maioria desagravaram Brandão, antes de qualquer apuração. Ritmo de ‘‘Flash’’.

mockup