A maioria dos prefeitos no Brasil, até para sair da perplexidade diante da quebra do setor público em todos os níveis, se vê impelida a divulgar, e com cores dramáticas, o quadro recebido. Mesmo onde a situação venceu, a sucessão está registrando alguma polêmica. É claro, porém, que em casos como os do Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre não haverá chio e menos pelas raízes de solidariedade do que por uma notória conveniência política.
Em Curitiba é apenas de R$ 40 milhões o déficit ou seria muito mais elevado do que possa imaginar nossa vã filosofia? Afinal houve muita obra séria, em maioria, na gestão Greca, embora os paetês, caríssimos, em supostas obras de arte ou iniciativas gongóricas como os faróis do saber, pesassem seriamente em termos de custos. Como Curitiba é acomodada, condicionada pela propaganda farta e exagerada (haja vista para esse absurdo da pesquisa que deu um apoio de mais de 70% da população à eficiência policial), não se vai discutir e muito menos investigar o assunto.
O que há de dívida a pagar na Prefeitura não é brincadeira, conquanto a cidade desfrute de um orçamento proporcionalmente bem melhor do que o do Paraná, isso sem falar em prodigalidades como o contrato da limpeza pública e que foi alvo de sucessivas denúncias sem qualquer apuração em profundidade. Da mesma forma que Lerner não investigou Requião na Prefeitura, como de resto este não hostilizou aquele (apenas Álvaro Dias foi em cima de Richa para quebrar a linha de acomodação e Mário Pereira contra o seu antecessor) nada irá acontecer na Capital até porque o PT daqui está cada vez mais com um jeito de PFL e esse partido é a última esperança para estabelecer contraste e fazer o exercício da crítica. Como diz Aníbal Khury, o Pedro Tonelli sozinho agia mais do que uma bancada de três mosqueteiros e isso se repete com os vereadores da legenda.
BIZARRICE O escritor e humorista Luis Fernando Veríssimo tem uma mais agudas piadas sobre o caráter mutante do presidente FHC em termos de idéias sociais e econômicas: ele exige um exame de DNA para saber se a pessoa que está no Planalto é mesmo aquela em que a maioria votou, preferindo-o ao Lula e tantos mais.
SPRAY O Instituto ‘‘Farol do Saber’’, máquina de proselitismo do Rafael Greca, foi decorado quatro meses antes da muda de governo e em cima do prazo de devolução do prédio à família Ferreira da Costa, a proprietária. - Nega-se a existência de um trabalho de redecoração e sim apenas o de uma demão de tinta, o que seria compreensível como ritual de entrega de locação. - Discute-se ainda sob o ponto de vista ético-jurídico se seria justo o ex-prefeito usar o nome de uma obra, forte sob o ponto de vista publicitário, tal a frequência com que apareceu nos institucionais, para uma fundação de caráter político e pessoal. No mínimo é discutível. - Já o desejo, legítimo, de Rafael Greca em criar a sua própria imagem é irreparável como o é o de Cássio Taniguchi em rever a logomarca da cidade ao pedir ao Manoel Coelho, o dono da folhinha muncipal e estadual, que faça a reengenharia. - Crise financeira do governo estadual é notória, mas se aprofunda pelas trapalhadas dos burocratas do primeiro escalão: o recuo na mensagem de gratificação ao pessoal de nível superior é uma delas bem como a ‘‘descoberta’’, coisa digna de Pedro Bó antes da sorvetada na testa, que a administração deve centenas de milhões em precatórios. - Essa especulação, por exemplo, de tirar o Miguel Salomão da Fazenda é inaceitável: ele e Ficinski tanto quanto Lerner têm expressão que transborda o país. Basta lembrar que Salomão é consultor do FMI (Ficinski o é do Banco Mundial) e estava montando o Banco Central de Angola. - Consta nos bastidores que o grupo lernerista entendeu necessário dividir área, através da Fazenda (via Gionnedis), com Rafael Greca. Administrar pelo conflito, como se insinua nessa especulação, baixaria ainda mais o QI do governo, se é que isso é possível. Isso tudo é de fazer inveja a Renato Aragão. - Horácio Rodrigues entrou para valer no Legislativo e não se dispõe e fazer o papel do mudo e do beija-mão: vai disputar posição na Mesa. - Por falar em Assembléia, como justificar as sessões extraordinárias se as mensagens forem retiradas? É ‘‘non sense’’ demais para um período de dificuldades. -
FOLCLORE Anunciava-se ontem na praça que o secretário de Planejamento, Rafael Greca, iria extrair os dois dentes do sizo. Por estar sempre alegre, ninguém o imagina com dor ou sem um sorriso no rosto redondíssimo que está mais para o deus pagão Baco do que para um anjo barroco. Os que se irritam, com o seu sucesso e a sua alegria contagiante, diziam esperar que com a extração do sizo talvez ganhe mais juízo, conforme a lenda.
GLOSA Uma pesquisa assegura que mais de 75% dos curitibanos consideram eficiente a ação da polícia. 90% acreditam em Papai Noel. Dá para fazer outra pesquisa: quantas famílias no Paraná teriam algum dos seus membros como vítima de violência, roubo, afronta? Há mais disso do que desemprego.
CROMO Fisgou no anzol um cadáver: a mentira de pescador em capa de jornal e xerox, documentada, anima todos os mitos. O morto deixou-se fisgar para que o pescador não mentisse e, traumatizado, contasse a verdade - havia pescado um defunto que desejaria ser pescado por Deus em outra dimensão.
AFORÍSTICO Ao afirmar que em Curitiba não há enchentes, como se viu ontem, mas alagamentos, Rafael Greca lembrava um Noé avisando aos que desejavam entrar na arca mais lotada do que fila da Cohab : ‘‘Não se preocupem, é apenas garoa.’’

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