Luiz Geraldo Mazza

A temática da campanha
O encontro da ADVB da sexta-feira, em Curitiba, teve características de um comício e apenas porque tanto a oratória de Lerner como as perguntas dos empresários vinham impregnadas de conteúdo político. Na realidade, o temário eleitoral, o divisor de águas, e isso se percebe há muito tempo, vai ser o novo perfil econômico do Paraná: os situacionistas mostrando as vantagens e a oposição as perdas.
Não há uma só pessoa de mínimo senso que não seja favorável à chegada desses investimentos. Deve-se, no entanto, compreender que será do maior interesse da população que se identifique o choque anafilático que a inovação produzirá, como as suas sequelas no campo migratório e a pressão por demandas sociais, o risco da concentração industrial no eixo Curitiba-Ponta Grossa e, ainda por cima, as consequências de perda de poder regional e nacional.
Como o governo não tem doutrina articulada do assunto, e a substitui de forma notória pelo ‘marketing’, corre o risco de ir mal na análise de conteúdos, se a oposição souber dominá-los e for capaz de formular alternativas. É claro que a partir disso se tentará sugerir que o bloqueio aos empréstimos é a prova de que a oposição aposta num máximo de adversidade para surgir como salvadora.
De tudo que Lerner falou, alguns conceitos tiveram força como o de que a oposição mata a mãe para provocar a piedade dos outros porque é órfã. Aplicável como metáfora, tanto quanto se lembrasse a figura de Jim Jones para caricaturar os dois senadores do embargo. Já não se pode dizer o mesmo daquela história da ‘‘raiva’’ e da ‘‘saliva’, destituída de força retórica.
O governo, em consequência desse temário, vai contestar também a questão da quebra financeira do Paraná, já que esse assunto voltará como suíte de forma inevitável, pois há divergência quanto à limpidez das razões que levaram o ministro Pedro Malan a dar um ‘‘deixa pra lᒒ nos pareceres da Secretaria do Tesouro Nacional e do Banco Central. O que pode desequilibrar em favor de Lerner será o chamado ‘‘efeito-demonstração’’, o surgimento da malha produtiva e a sua inserção no cotidiano dos paranaenses. Persistindo, porém, a questão do desemprego na Grande Curitiba e o corolário social da crise, a oposição terá também um repertório nada desprezível, desde, é claro, que supere as suas duras e permanentes contradições. Uma delas a de Álvaro Dias, como fernandista de convicção, atacando Lerner justamente por fazer o que o governo federal recomenda, como é o caso da atração das montadoras.
GLOSA Num documentário vídeofotográfico da reunião da ADVB, se comparado com manifestações semelhantes de governos anteriores, como os do PMDB, veríamos que a convicção é uma só, tanto nas pessoas, como na representação que ostentam: oposição jamais, crítica nunca mais. O poder de plantão se sobrepõe a qualquer escrúpulo ou questionamento.
BIZARRICE Números são sempre arriscados: Lerner teria falado em movimentação de R$ 700 milhões no interbancário para o Banestado. Logo após assumir o governo e entrar em choque aberto com seu antecessor, Roberto Requião, Mário Pereira contou aquela história incrível do vendedor de cachorro quente, em nome de cuja conta faziam um movimento diário de US$ 1 milhão na agência de Pedro Juan Cabalero do Banco del Paraná.
SPRAY Sinistrose foi derrotada outra vez: movimento do comércio superou o mau augúrio sobre o Natal.- Houve desova de estoques (com excesso de gordura) no caso dos eletrodomésticos, especialmente tevês, vendidas até por R$ 200.- Segmentação do comércio de artigos de R$ 1,99 teve força nas festas de amigo secreto e também no Natal.- Alertamento do Procon das diferenças brutais de preços da mesma mercadoria também ajudou a conter o corsarismo.- Associação Cultural de Autores Independentes está aceitando adesões pelos fones (041)225-7331, com José Gentil da Silva, e (041)200-1166, com Sebastião Condé.- Atraso de pagamento de faturas de publicidade governamental no caso dos jornais nacionais é, como se tem dito, apenas uma coincidência relativamente aos textos críticos. Outra coincidência é que na Prefeitura de Curitiba nunca houve esse problema, daí o espanto do ‘staff’ de Lerner.- PM vai endurecer na fiscalização dos chamados ciclomotores conduzidos por menores nas praias. Anos anteriores havia confusão quanto ao direito de uso pelos não habilitados, por interesse de uma importadora, beneficiária da falta de clareza regulamentar.- Se o governo levar a sério a coleta de amostras de água do mar no auge da temporada para apurar a concentração de coliformes, ver-se-á obrigado a interditar muito mais do que faz habitualmente com a indicação dos pontos negros.- Sobre as praias do Paraná, há a piada mórbida do ceguinho que é conduzido até Caiobá e quando respira fundo dá o estrilo: ‘‘Você me prometeu levar ao litoral e me traz aqui na foz do rio Belém?’. -
FOLCLORE 1 Bem, o Hermas Brandão já caiu. E o Osvaldinho da Leasing até quando ficará? Afinal, segundo a oposição, perguntar não ofende.
FOLCLORE 2 Se houver a queda do Lechinski, a oposição vai protestar que tiraram o Jaime errado.
CROMO Mimetismo: meu neto, o Luisinho, pensou que havia piscado quando viu uma estrela cair e logo depois ser substituída por um vagalume.
AFORÍSTICO Curioso é a rapidez de conveniência do governo, como se viu no pacote legislativo aprovado a toque de caixa, a antecipação da saída do Hermas Brandão etc. Se houvesse essa velocidade na questão dos empréstimos, o governo já estaria desfrutando há muito dos seus efeitos sociais e eleitorais.
O jornalista Luiz Geraldo Mazza entra em férias a partir de amanhã e só retorna com a coluna diária em 12 de janeiro.

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