Luiz Geraldo Mazza
O único lado bom da perversidade que foi a novela dos empréstimos está no fato de que se revelou inútil a cooptação institucional dos meios de comunicação (locais, é claro) e que urge rever toda a cultura acumulada de pregar o triunfalismo, a pretexto de levantar a autoestima do paranaense, até porque cria o efeito secundário, o choque anafilático, do conformismo.
Será melhor o governo paranaense investir na liberdade e no cidadão e isso significa romper com nossos hábitos, estimulando a crítica, a visão de processo, o contraditório e não o engajamento chapa-branca. É que a praga oficialista leva as pessoas, pelo tédio e a saturação, ao apoio à crítica, mesmo que insensata e que parta de pessoas com propósitos desagregadores.
Já se prevê que o uso do cachimbo que deixa a boca torta vai prevalecer: o governo tentará, por todos os meios e modos, mostrar de novo que somos quase um paraíso. Entrevistas na TV, mostrando empresários - esses alegres engajados de todos os governos, não importando se ditatoriais ou não - a alegar que tudo está no melhor dos mundos serão uma constante. Políticos normalmente omissos farão pegajosas declarações de amor ao Paraná, o que levará, pelo menos no meu caso, a uma compra de estoques de Engov para defender-me na hipótese de ouví-los ou de saber o que disseram.
Que haja democracia, que o governador assuma suas prerrogativas, pois não existe liderança quando não se transmite esse sentimento aos aliados, que saiba enfrentar pressões, já que as maiores partem dos coligados, e que saiba punir os que infringem regras, como os casos da Leasing, da Corretora e mais o da Secretaria da Agricultura, o indicaram. É o mínimo que se pode exigir, pois seria um exagero dizer que suas adversidades são maiores do que as vividas pelos seus antecessores. Não teria Lerner tutano de enfrentar uma parada como a de Álvaro Dias no caso da hidrelétrica de Segredo porque lhe faltaria peito para encarar um Cecílio Rego Almeida. É pelo menos a desalentadora sensação que transmite nas mínimas situações que enfrenta.
AXIOMA Para provar que o Paraná não está na fossa, como deu a entender a matéria da Veja, não é preciso carregar na dosagem: de quase impotente, transformá-lo em priápico. Como sempre os massagistas do marketing com seus exageros.
BADERNA Raramente Aníbal Khury merece elogios: ontem mandou a conta dos estragos feitos no palácio legislativo pela turma da APP-CUT & Cia no dia anterior. Só que tem uma culpa em cartório: numa das mobilizações dos mestres, ele e o deputado Anibelli, então presidente da Casa, cortejando o movimento, permitiram que ocupassem a Assembléia e a deixassem irrespirável.
Se em cada baderna, as coisas fossem cobradas, o Brasil melhorava: por exemplo, o quebra-quebra de ônibus em greves curitibanas deveria ser pago pelo sindicato promotor (qualquer juiz decide tal matéria) e isso os educaria a agir dentro de parâmetros democráticos. Vale o mesmo para o MST, folgadíssimo, nas invasões, batendo e torturando, matando até.
ATITUDE Dizem que culpo o Aníbal até por causa do El Ni¤o, o que é um exagero do Carlos Nasser. Pois bem: vou elogiar o Lerner por ter decidido ir ao olho do furacão, fonte da campanha sobre a situação do Paraná, que é São Paulo, para mostrar aos meios de comunicação, aos políticos e empresários, que o material da Veja não é verdadeiro, mas baseado em versão equivocada.
É intolerável ver um Mário Covas estranhar a aprovação dos empréstimos quando acertou o pepino de R$ 50 bilhões, passando o mico para a loba romana de tetas túrgidas, que é a União e, no fundo, somos todos nós.
Ainda bem que o Lerner levou o secretário Miguel Salomão, aquele que não faz o papagaio de pirata e tem o que dizer, mais do que qualquer outro, sobre o assunto. Não é hora de carnavália e de oba-oba.
BIZARRICE Dois gols ontem do Brasil lembraram o overlaping e ponto futuro do Cláudio Coutinho: os de Denilson e Júnior Baiano. O Elba de Pádua Lima, Tim, quando no Atlético, insistia em ensinar o ponta direita Gaivota a explorar o ponto futuro pelo uso da sua velocidade. Um dia, para ser didático, ele disse para o jogador que fosse buscar a bola na altura da placa da Coca-Cola, que margeava o Joaquim Américo. Aí Gaivota entendeu, e com as suas jogadas e gols o Atlético meteu quatro no Ferroviário.
FOLCLORE Um Atlas Eleitoral Brasileiro, segundo um dos seus autores, cientista político César Romero Jacob, sugere que o Brasil moderno votou em Lula e o arcaico em Collor e FHC. Como se vê, a prestidigitação é algo que pode afetar até a ciência. Aplicado um silogismo no raciocínio, o certo seria Lula apoiar FHC e este ficar com os sem-terra. Imaginem que para os autores, esses seriam uma forma de modernidade. A ideologia sataniza mais do que emburrece.
CROMO Se estivesse em Curitiba a esta época do ano, de uma coisa Goethe ao morrer, não poderia reclamar: da falta de luz.
AFORÍSTICO A oposição nacional vai apostar em movimentos de rua, invasões, passeatas como força de presença. Deu para percebê-lo anteontem na votação do Paranaeducação: selvageria é a sutileza dos primatas; seu argumento, o tacape.
ACALANTO Olho o quadro de formatura: mais um retrato nele se torna névoa, o do juiz eleitoral, colega de turma e Procuradoria, Ivan Jorge Curi. São retratos na parede, como dizia Drummond, e como doem.





