Luiz Geraldo Mazza
Um dos males que o marketing causou à política foi o de substituir o pensamento pelo teaser, pelo slogan, o que sacrificou de saída a filosofia, a reflexão e a doutrina. Parece incrível que o maior beneficiário desse processo, o governador Jaime Lerner, não tenha percebido que na arrancada de sua carreira como prefeito jamais havia se descurado da questão. Como vender, de fato, uma proposta urbanística, supostamente renovadora, sem uma densa teoria para respaldar a práxis.
Desenhar o mapa do Paraná e referir-se à palavra mágica estratégia, sem mostrar com clareza em que canto se esconde a logística, não significa que o governador tenha domínio do assunto. Aliás, o que se faz aqui é espontaneísmo e o processo se traduz por uma via empírica: os fatos se dão por gravidade e se eventualmente favorecem o governador não indicam que os tenha previsto.
Instituições envelhecem e isso se deu com o IPPUC, hoje mais arrogante do que inspirado, e também com a Secretaria de Planejamento do Paraná (nos governos de Álvaro e Requião foi apenas declaratória, formal e amarrada o suficiente para não merecer a sua nominação) e Ipardes.
Ao longo da desgastante batalha sobre os empréstimos percebeu-se que estamos mal, muito mal, de doutrina e que há, até pela excepcionalidade do momento, condições excelentes para uma doutrina que não se desvie daquilo que faz parte do nosso ideário de desenvolvimento e no qual ganha força a tonalidade bem específica do padre Lebret. Parece incrível que numa administração que conta com um Alex Beltrão, desencadeador como empresário privado do planejamento e de organização, do programa de Ney Braga e as iniciativas que drenariam para o Plano Trienal já sob Jango Goulart, não saiba valorizar-se para a retomada, hoje num cenário mutante, mas em tudo afirmativo, com a chegada dos investimentos da ordem de R$ 14 bilhões, de um discurso articulado como fundamento de tudo que está por vir.
A incapacidade de reunir esses fatores e mostrar que estamos nos libertando da velha condicionante paulista acaba revelando o que há de mais deplorável no governo atual - uma espécie de preguiça pegajosa, um tentáculo de água viva, a medusa dos mares. Incrível que o triunfalismo despendido em tanta bobagem não induza o governo a ter essa percepção: a de que estamos numa segunda onda, não no critério de Alvin Toffler, mas em relação à primeira, que teria sido o referencial de Ney Braga. Ali o aparelho de Estado era o indutor do processo, tanto que a grana do Fundo de Desenvolvimento Econômico ia primeiramente para a infra-estrutura em estradas, energia e telecomunicações. Hoje o Estado sai de campo e dá lugar ao investimento privado e à parceria, mas em compensação parece não ter idéia do que está ocorrendo e do que o gestor pretende.
BIZARRICE Parece incrível, mas a guerra de dossiês da pesada se dá entre grupos do próprio governo Lerner. Coisas escabrosas vão rolar, inclusive o retorno de uma fita que se julgava apagada e que deu margem à chantagem numa eleição para prefeito de Curitiba. Consequências da democracia: no governo Richa, secretários de Estado foram acusados, a um só tempo, de serem comunistas e ligados também em pubs de homossexuais com narrativas com referência a uso de calcinhas e sutiã. Um lixo prolixo.
SPRAY Ontem não foi apenas dia do jantar da Boca Maldita, mas também da 4ª Carangfest, festa do caranguejo, no Ginásio de Esportes João Paulo II na Vila Fany com mais de 700 pessoas. - Poucas, no entanto, serão as que comparecerão amanhã, às 18h30, no plenarinho da Assembléia (a turma de esquerda, inclusive o Lula) para ouvir lugares comuns sobre um assunto que mal dominam, o execrado neoliberalismo. - Quando houve aquele acampamento de sem-terra em Curitiba, dois violeiros do MST foram até a Rádio CBN dar uma entrevista e falar do proselitismo. Depois de explicarem que não tinham o primário completo, deitaram falação contra o governo neoliberal de FHC. É por isso que se ouvirá mais ou menos o que eles disseram sobre o assunto: clichês, slogans, a velha tática fascista de manipular. - Por trás dos movimentos contra qualquer flexibilização do serviço público ou fim da elefantíase das estatais há essa mendicância cultural. - Com um detalhe: o neoliberalismo é uma perversidade, um confessionalismo idiota e um determinismo que se supõe próximo de um fundamentalismo. Brigar contra ele defendendo o ideário de Vargas e Brizola, do social-populismo, não dá. Aí é encher a bola daquilo que se pretende combater. - Os parvos - e muitos do neoliberalismo como outros tantos na esquerda - não percebem que liberalismo e socialismo não são antinômicos e muito menos que o socialismo realmente existente era bastante próximo da onda neoliberal por seu traço darwinista. Uma sociedade teocrática, tal qual a dos muçulmanos, é o que essa nova ideologia propõe. - Outro delírio é o de achar que o zapatismo do MST é guerra focal e não uma gincana, por ora tolerada e ao primeiro confronto para valer acaba como todo voluntarismo messiânico, do Monge da Lapa ao Antonio Conselheiro, o que é bonito, mas trágico.
FOLCLORE Anos de chumbo. Anfrísio Siqueira, presidente da Boca Maldita, dá uma comenda ao Gamaliel Bueno Galvão, que depois se elegeria deputado federal. O Gamaliel se empolga no jantar da Boca e faz um duro combate aos milicos. Na mesa o coronel do Exército, Tasso, que comandava a PM e depois iria governar um dos territórios, se recusava a ficar no recinto ouvindo ataque à revolução. O pessoal do SNI ficava por lá ouvindo coisas parecidas de todos nós, que fazíamos discurso, e se limitava a trocar toques de pernas por baixo da mesa.





