O desgaste a que foi submetido o governo paranaense no andamento do debate em torno dos empréstimos bloqueados no Senado terá efeitos residuais ainda não contabilizáveis. Para uma figura, normalmente cultuada no Brasil quase na dimensão de mito como Jaime Lerner, ao ponto de aparecer em listagem de empresários como solução moderna para o Brasil, foi terrível: além da farta exposição na TV Senado (ontem deplorável na sessão matinal quando Osmar Dias e Requião davam sinais de derrota e desespero e agravavam o tom das acusações), tivemos os destaques na imprensa nacional, manchete da ‘‘Gazeta Mercantil’’ (jornal de maior credibilidade no mundo dos negócios) e editorial de ‘‘O Estadão’’, tratando-nos como estado ‘‘insolvente’’.
Vale lembrar aqui a passagem clássica da vitória de Pirro contra os romanos em Ásculo no ano 278. Citado por Plutarco e por Lívio, a frase do rei do Epiro é categórica: ‘‘Mais uma vitória dessas sobre os romanos e estaremos arruinados’’. Os dispêndios com o pagamento de mercenários para a luta e as baixas sofridas é que justificavam a irônica observação. ‘‘Si denuo sic vincendi sunt romani, peribimus’’ é o resumo em bom latim.
O pior de tudo é a ausência de determinação, de garra, do governo abismado em reflexões e deixando fluir o tempo em seu cronograma elástico. Além da demora, que é perniciosa ao Paraná e ao País (o interesse no ingresso de moeda forte é estratégico ao Brasil, ainda mais agora com a tremedeira das bolsas), o que vimos foi uma sequência de gestos de imaturidade, infantilismo, bobeira que acabaram dando a dimensão ciclópica a dois senadores. Dá para imaginar um Jaime Lerner enfrentando problemas como as pela construção de Itaipu e outras barragens ou algo mais retaliante do que o Contestado na guerra de limites com Santa Catarina. Se as coisas se dessem como no caso dos empréstimos, seríamos esmagados por tanta falta de inspiração.
BAIXARIA As sessões recentes da CAE vão mostrando na fisionomia de Requião e Osmar Dias que a derrota se avizinhava. Discursos dramáticos que lembram, por exemplo, o de Mussolini quando viu a causa perdida e tentou, como se estivesse a encarnar um Júlio César, o apelo derradeiro à mobilização. Mas o que mais se perdeu, a despeito do bom desempenho que tivera ao se agarrar em razões eminentemente técnicas, foi Osmar Dias. Este, tão perdido e inconformado estava, que sugeriu que o secretário da Casa Civil estava no Congresso para ver o andamento do projeto da deputada Marta Suplicy relativo ao casamento de homossexuais. Agora já se sabe, pois todo o mundo conhece o temperamento de Greca e a sua inegável inteligência e vocação para os epigramas, que teremos ameaça de processo e observações ferinas.
Osmar acusa Greca (que é aqui também apontado como um dos que teve interesse na divulgação do dossiê contra Hermas Brandão) de haver divulgado em release (essa praga precisa ser objeto de reavaliação, ainda mais quando feita sob a forma de contrainformação) uma frase que o senador não disse de que votaria contra o Paraná. Infelizmente, o vício de aceitar como boa a fonte oficial, e que devemos a uma cultura de mais de 40 anos, levou meios de comunicação a legitimá-la. É mais um gol contra na série de vexames.
BIZARRICE O jornalista Fábio Campana lembrava ontem que o Paraná dependia do Francelino Pereira para obter a aprovação dos empréstimos e que o senador era o autor daquela frase célebre ‘‘Que país é este?’. Diante do caso era de perguntar, com maior espanto ainda, ‘‘Que estado é este?’ que tem a sua bancada voltada contra os seus mais legítimos interesses?’
ESTADÃO Ontem, o editorial de ‘‘O Estado de S.Paulo’’ com o título ‘‘A insolvência do Paranᒒ, lido e relido pelos senadores paranaenses, tinha uma ponta de nostalgia dos tempos em que nossos vizinhos imperiais e hegemônicos, de cuja ascendência nos orgulhamos como seu desdobramento econômico-político, se constituiam na Quinta Comarca de São Paulo. Atraso de 144 anos, bem mais, portanto, dos que os apalermados governantes do Paraná, que deixaram a questão dos empréstimos rolando.
Tenho dito que falta, além de iniciativa política (e ela não virá com festivos como os que temos com seu estilo carnavalesco), base doutrinária ao governo. São Paulo não é mais a matriz do nosso processo de desenvolvimento, que encontrou seu ponto máximo na cafeicultura quando tivemos contradições fortes nessa área ao ponto de Munhoz da Rocha (e isso é um exemplo para mostrar o quanto é frágil o governante de hoje), como ministro da Agricultura, haver derrubado o todo poderoso José Maria Withaker, da Fazenda, na questão da reforma cambial, governo Café Filho.
Pois bem: ao romper a condição de economia de complementariedade à de São Paulo, Lerner está realizando uma revolução, um novo ciclo, em função da chegada dos investimentos industriais. Mas o governo não sabe isso, verter em fato político e cultural e insiste apenas em valer-se do ‘‘marketing’’, que em nada o protegeu no constrangimento dos empréstimos.
FOLCLORE Como voltei ao latim ao falar da vitória de Pirro, não resisto em retomar uma história que por várias vezes referi: a do aluno que ao traduzir a campanha de César na Gallia, entendeu que o complemento circunstancial de lugar ‘‘in aperto loco’’, pelo fato de as tropas estarem nas faldas da montanha, não era um ‘‘lugar aberto’’ e sim um ‘‘aperto louco’’.
CROMO De olho na colega Rosa, no colégio, declinando Rosa-Rosae-Rosae-Rosam-Rosa-Rosa. Declinava em forma de verso, a turma repetindo, e eu de olho nela.

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