Luiz Geraldo Mazza
Quem olhar objetivamente a posse dos novos secretários de Planejamento, Rafael Greca, e de Obras, Augusto Canto Neto, poderá ter a impressão de estar diante de um caso extremo de simetria política entre Lerner e o ex-prefeito, hoje notório postulante à sua sucessão. Ocorre que Canto Neto exerceu o mesmo papel nas gestões municipais de Lerner e Greca e, portanto, a sua ascensão ao primeiro escalão estadual junto com o ex-prefeito pode ser olhada como prova de harmonia interna.
Mas não é bem assim: houve algo mais do que beliscões e caneladas na disputa por espaços, tanto no âmbito estadual como no municipal. Rafaelistas foram aproveitados em detrimento de lernistas de primeira hora e Cássio Taniguchi, sem condições de administrar as pressões continuístas, não soube, e nem teve como, contorná-las.
Rafael é bem mais determinado que Lerner nessas disputas. Já o havia demonstrado quando peitou o líder maior na sucessão municipal anterior, impondo-se como candidato quando aquele preferia abertamente Cássio Taniguchi. Se esses atritos não forem metabolizados dentro em pouco teremos mais incendiários do que bombeiros nas escaramuças. Entre os atritos se lista a mudança da sede da Fundação de Ação Social do Centro Cívico para a Fazendinha, claramente desmentido pelos burocratas de plantão como decisão anterior e de natureza técnica em favor do Instituto Farol do Saber (a usina política de Greca e que é montada com vistas ao proselitismo político-cultural),
Uma regra de física elementar ensina que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, ainda mais quando robustos de conteúdo e forma. Da mesma forma que podem lutar juntos, como se deu tantas vezes, também, de repente, por um desses caprichos dos trilhos tortuosos da política, acabam no tatame se enfrentando numa batalha de sumô. Em jogos florais e discurso, Greca leva a melhor; em consistência de prestígio real e abrangente, Lerner ganha fácil.
DEPOIS DO FRANGO, A PRAIAO presidente FHC pode incluir um saque na defesa do Plano Real: além do frango e do iogurte que chegaram à mesa do pobre, tivemos agora, e isso dá para ver no Brasil inteiro no seu imenso litoral, o acesso à praia. Mudou consideravelmente o perfil do frequentador dos balneários, tanto do Paraná como de Santa Catarina: não apenas as pessoas, mas a frota antiga de carros evidencia essa chegada da classe pobre ao paraíso.
Esse segmento das classes D e E ocupa, às vezes, com duas ou mais famílias uma casa alugada, quase numa reprodução dos filmes do pós-guerra na Itália, quando a pobreza se deslocava aos balneários em camionetas improvisadas sobre motocas.
Difícil vai ser o presidente cumprir a promessa de fazer dessa etapa do Plano Real a do emprego, embora seu grau de confiança nos efeitos multiplicadores da proteção à microempresa do chamado projeto Simples.
BIZARRICEUm agnóstico foi convidado para fazer um debate-palestra numa dessas instituições que atuam em cima do binômio política e fé. Quando ia começar a sua fala viu um registro na mesa numa folha de papel: A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável. A frase é do cínico-cético militante Henry Louis Mencken, uma das maiores figuras do jornalismo e da crítica literária dos Estados Unidos.
Houve um tempo em que essa postura, a da dúvida, se ajustaria à esquerda, que era basicamente anticlerical. Hoje isso não acontece e a religião é muito mais combativa do que os autoproclamados marxistas, ainda tontos com a queda do Muro. Prova disso é o MST, o mais sério dos nossos movimentos sociais.
SPRAYO episódio Maluf, face à vasta exploração na mídia e a exposição dos cuidados com a próstata, levou, ontem, muita gente ao proctologista. - No passado era comum ocultar não apenas a doença como evitar enunciar-lhe o nome. Em jornais a notícia dizia faleceu ontem de moléstia incurável (ou insidiosa) fulano de tal. Havia o receio de que o efeito mágico da palavra contaminasse os que a ouvissem. - Na cultura polinésica há o conceito de nôa, o oposto ao tabu e que visa justamente tirar força do interdito: substitui-se a expressão por outra de baixos teores. Por exemplo: em lugar de Satanás diz-se coisa ruim, capeta, diacho. - Os políticos, especialmente, costumam encobrir a doença como vimos no Brasil com Tancredo Neves e na França com Miterrand e, antes, com Pompidou. No Paraná há um exemplo em sentido contrário: o teaser do governo do professor Parigot de Souza, minado pelo câncer, era justamente O Paraná é um dever. Vamos cumprí-lo. - Há uma obra de autor paranaense, o saudoso Rosário Farani Mansur Guérios, filólogo de alto nível, chamada Tabus Linguísticos, que mostra como vários povos, de diferentes níveis de civilização, enfrentam a questão das palavras interditas. Alguns deles não enunciam o nome do morto. - Na Grécia a expressão originária correspondente a pão tinha conotação sagrada e por isso passou a ter outro significado semântico, já que se confundia o pão alimento à hóstia. - Em estruturas rígidas, machistas, a mulher, esposa, não enuncia o nome do marido e se refere, quando fala com outras pessoas, a ele. - Num encontro de biblioteconomistas, ao participar de um painel sobre censura, no qual estava presente o mestre Wilson Martins, desenvolvi o tema como evidência dos múltiplos bloqueios que atuam sobre a mente humana. Que não deixa de ser uma forma orgânica de censura.





