Fernando Henrique Cardoso, embora tenha restrições a metodologias que investigam o mercado de trabalho, identifica no desemprego o máximo problema do Brasil e não o encara como acidente de percurso do Plano Real. Deseja, o quanto antes, reunir-se com as centrais sindicais para estudar formas de, se não neutralizar, pelo menos minorar os efeitos da recessão decorrentes da redução da atividade econômica.
Hoje quase um refém da direita e abandonado pela esquerda, que em seu setor mais radical aposta na doutrina do ‘‘quanto pior, melhor’’ e só olha a crise como nutriente do seu projeto, não tendo proposta alternativa, minimamente racional, para contorná-la. No devido tempo, o filósofo José Arthur Gianotti percebeu que isso ocorreria e captou igualmente o beco sem saída em que se atolaria, como de fato aconteceu, a esquerda.
A precarização do trabalho é um traço da sociedade moderna: quando a Volks fez a proposta da redução da jornada de trabalho e dos salários para evitar a demissão pura e simples de 7 mil metalúrgicos, ela mostrou a diferença dos níveis de tecnologia entre a fábrica do ABCD e a de Taubaté. A relação por unidade produzida em número de trabalhadores era de 9 para 5 em favor da unidade de sintonia fina em níveis de automação.
Se a montadora tem dificuldades dá para imaginar o efeito nas satélites com menor escora capitalista. Em breve iremos viver esse problema no Paraná e com uma diferença fundamental no fato de que as daqui usarão tecnologia e capital intensivo e menos, muito menos, força de trabalho. Examinado o problema a fundo, chega-se à conclusão de que está na hora de fazer o que a Espanha fez, há algum tempo, com o Pacto de Moncloa. A dificuldade está na desconfiança das oposições, cuja esperança única reside no fracasso do Plano Real.
Insista-se aqui num detalhe primário: não há plano de estabilização que não cobre da sociedade uma cota de recessão ou um mínimo de austeridade (o oba-oba dos tigres asiáticos, tão decantados pelo Roberto Campos, posto que realizado em ordens policialescas) e os efeitos indesejados são inevitáveis, apesar do esforço de prestidigitação dos políticos de fazer omelete sem quebrar ovos. Eis a razão pela qual o diálogo do presidente com lideranças sindicais é uma imposição do momento, já que não está fácil segurar o descarte do trabalho.
ETNIA Sugere-se um concurso para ver a etnia ou grupo cultural dominante no governo Lerner. Na reforma do secretariado esse predomínio voltaria a tornar-se nítido. De um modo geral as pessoas acham, por causa do ‘marketing’, que Lerner nesse aspecto é politicamente correto pela diversidade da equipe. Será?
BIZARRICE A capa da revista ‘‘Paraná & Cia’’ mostra uma charge com Jaime Lerner à moda do Hamellin e sua flauta atraindo as montadoras e satélites. Orlando Carlini viu a revista exposta e tascou: ‘‘Hamellin atraía ratos, como se sabe. E essas empresas, antes de serem implantadas, comeram todo o queijo do erário sob a forma de incentivos. Requião promete ratoeira ou Fubarin’’.
SPRAY Banestado encaminhou ao Banco Central uma proposta em que a instituição continua pública, mas sob administração privada. Esquizofrenia pura. - Banco estadual é incompatível com o momento: foram pro saco o Banerj, o Banespa e vai agora o de Minas Gerais. Enxugamento no Banestado é lento demais: continua com mais de 10 mil funcionários e gasta mais de 70% com servidores. - Injeção de R$ 1,3 bi pode ser insuficiente. Gerentes matam cachorro a grito tentando acertar dívidas antigas de clientes e estão autorizados a deságios elevados. - Com a privatização (via leilão) do Meridional, os resistentes ficaram agora convencidos de que mais cedo ou mais tarde o indesejado acontece. - Curitiba entrou na fase dos números negativos e sinistrosos com seus 16% de desempregados e a cesta básica mais alta do País. - Interesses econômicos dirigem as regras urbanas de Curitiba: vide a questão da localização dos supermercados, dos colégios (absurdas concessões de alvarás e quebra de regras do trânsito nesses locais) e postos de combustíveis. - Franquias de Correios estão chiando por causa de assaltos de menores. - Pergunta do jornalista Cândido Gomes Chagas: se um padre pode ir ao Congresso Nacional expor uma criança e a mãe como resultado de um estupro e como forma de combater o aborto é também legítimo levar meninos que cheiram cola na rua para que o Arcebispo os atenda. - Araucária tem o segundo maior ICMS do Paraná, mas em compensação é uma das cidades mais poluídas. Isso foi lembrado na festa do ovo e pêssego. Inclusive no que diz respeito ao nascimento de anaencefálicos (sem cérebro). - Um rapaz de 18 esmurrou um professor em sala de aula em Curitiba e a turma do deixa disso já alertou que não é politicamente correto punir o jovem. Eles já estão matando nas escolas e agem em gangues. A pederastia social criou a imunidade do aluno e o mestre cúmplice. Nós merecemos. - E quando o governo estadual vai perceber que não pode ajudar a agiotagem permitindo a consignação em folha de pagamento? Aliás, há aliados no negócio de empréstimos leoninos.
FOLCLORE Depois da história do desvio de recursos em programas da Secretaria de Agricultura, há duas áreas do Paraná com nome parecido. Faxinal do Céu, programa educativo premiado nacionalmente, e Faxinal do Inferno para nominar a cidade-alvo das irregularidades que envolveram Hermas Brandão.
CROMO O remoto lambari do rabo vermelho dos contos de Dalton Trevisan no Rio Belém lembra a promessa não cumprida de Lerner de devolvê-los ao curso d’água.
AFORÍSTICO Qual a diferença entre Medida Provisória e um Édito Real?

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