De uns tempos para cá - e o ponto culminante foi a entrevista à ‘‘Veja’’, um dos mais densos documentos de ciência política da história recente do País - o presidente Fernando Henrique Cardoso tem insistido na pregação da democracia radical. É algo que renova o liberalismo ao livrá-lo da sua deformação mais radical, o neoliberalismo, uma postura confessional, darwinismo social puro, incapaz de dar uma resposta razoável aos problemas do capitalismo.
A pretexto de remover os resíduos do Estado do Bem-Estar, ‘‘welfare state’’, típico da social democracia européia, o que aliás está em marcha, o neoliberalismo se colocou como a filosofia dominante, totalitária, no que diz respeito ao sistema de valores, e com uma soberba que durante algum tempo marcava o mito da exatidão em torno do determinismo marxista. É um novo determinismo, e pior, porque deturpa a origem limpa do liberalismo.
É impossível discutir esse tema sem lembrar de uma colocação de Norberto Bobbio: ‘‘Direito e poder são duas faces da mesma moeda: o poder cria o direito e este o limita e controla.’ Os jusnaturalistas, pregoeiros do direito natural, têm horror dessa premissa apropriada aos cultores do direito positivo. Falar de um direito fora da concepção de poder é metafísica e nada mais, exercício de abstração, válido apenas quando concebido nessa atmosfera.
Dá para estabelecer a analogia: os pólos da dialética original poderiam ser o capitalismo como construção do poder positivo, real, aquele que dita normas, coisifica e desumaniza numa ordem de valores em que o mercado é um deus regulador, onipotente e onipresente, e a democracia, o quanto mais radical, como seu único e possível regulador.
Não fosse FHC um refém da direita identificada com a doutrina do mercado, que é o PFL, e a sua atuação no plano concreto, a sua praxis, enfim, estaria mais próxima do seu discurso correto e que se ajusta não apenas ao Brasil, mas a todo o mundo, daí a relevância até universal do seu pensamento. Impensável imaginar um Lula, um Brizola, um Antonio Carlos Magalhães, um Sarney, um Itamar Franco, falando essas coisas e com tal propriedade e profundidade.
Uma outra consequência da democracia radical aplicada é estabelecer vários e necessários centros de poder, uma poliarquia. Atribuir-se, apenas no plano declaratório, que o povo é o detentor do poder, como rezam as constituições e a nossa de 1988 o repete, admitindo até a democracia direta (parágrafo único do artigo 1º) e fugindo ao estreitamento da ‘‘representação’’ parlamentar e colocando o povo e as pessoas isoladamente como capazes de intervir na ordem dos acontecimentos, não basta. Esse exercício precisa ser instrumentalizado para que se torne atributivo de direito: o indivíduo e as organizações civis, os chamados grupos intermediários entre o Estado e o cidadão, é que são os sujeitos dessa ação já imaginada, à direita e à esquerda, por liberais e até por anarquistas, defensores, por exemplo, da autogestão generalizada.
BIZARRICE Como se sabe - e a antiga Naturama ensinou - os babuínos são símios que brigam entre sí com as próprias fezes. Há quem veja um pouco disso nas disputas palacianas e que teriam seu coroamento agora com o festejo de alguns pela desdita que está vivendo Hermas Brandão. Como se a lesão não atingisse todo o governo. Se assim for, é uma batalha mais fecal do que focal.
Mais uma prova de falta de liderança e comando do governador, aliás, visível em quase todos os acontecimentos, inclusive o dos empréstimos.
MALHA Volta e meia se fala em malha produtiva quando se busca mostrar efeitos multiplicadores das montadoras. O ‘‘malho’’, irregularidades como a detectada em Faxinal, atinge malha de participantes envolvendo deputados e prefeitos e até gente formalmente inscrita na oposição.
SPRAY A questão dos empréstimos estava no décimo primeiro item da pauta de ontem da CAE e por isso não foi examinada. Fica para a terça-feira e, quem sabe, se o governo continuar bobeando, para o ano que vem. - Desolados, os secretários paranaenses perceberam tardiamente que a realidade não é mudada apenas por noticiário dirigido e triunfalista, como se faz aqui no Paraná. Essa deformação apenas cria ansiedade e frustração diante das expectativas anunciadas e não realizadas. - Calote do PMDB, que foi obrigado a apontar como bem penhorável a sua sede, ainda na Justiça: a Clichepar, na qual Romanelli atuou durante muito tempo, é quem processa por não haver recebido seus haveres da campanha de Requião ao governo. - Calotes dos que estão no poder eram, até outro dia, cobrados no ‘‘Jornal da Imprensa’’ e na ‘‘Gazeta do Paranᒒ. - Lista dos juízes substitutos aprovados no concurso mais duro dos últimos dez anos: Alexandre Gomes Gonçalves, Ruy Henriques Filho, Ronald Sansone Guerra, Joslaine Gurmini, Sigret Heloyna Vianna Faret, Gabriel Souza Quadros, Ana Isabel Mazzotini, Marcelo Teixeira Augusto, Hamilton Schwartz, Cássius Freitas Rodrigues, Renata Baganha, Gláucio Simões, Andréa Fabiane Groth, Guy Wanderley Marcuzzo. - 500 ‘‘sobreviventes’’ do concurso para oficial de Justiça e auxiliar de cartório dos juizados especiais aguardam o resultado das notas que deve sair até o fim do mês. Eram 2.500, um massacre. FOLCLORE O advogado e anarquista Elísio Marques saiu, irritado, do filme ‘‘Navalha na Carne’’. E desabafou: ‘‘Jurei o cubano Jorge Perreguria de morte matada e lenta: não se pode bater, impunemente, daquele jeito, num ‘‘patrimônio nacional carnal’’ como a poderosa Vera Fischer!’ Está com a razão. Desde que a vítima não se enquadre na filosofia de Nelson Rodrigues.
CROMO Mais letal do que aranha marron ou lagarta é o chato curitibano.

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