Luiz Geraldo Mazza

O governo da moratória
Na história do Paraná nenhum governo confiou tanto na metabolização dos fatos como o de Lerner. Denúncias contra diretorias do Banestado foram absorvidas no ecossistema burocrático das apurações, a mais forte delas a relativa à Leasing e ao seu dirigente Osvaldo Santos que de acusado pela má gestão acabou promovido à Secretaria que promoveu os Jogos Mundiais da Natureza, cujos custos ainda são desconhecidos, isso sem falar nos beneficiários do evento.
Agora tivemos essa denúncia cabeludíssima contra o Hermas Brandão, candidato a vice do Aníbal Khury: a de que teria desviado dinheiro para a sua conta particular. O governo ficou embasbacado, que aliás é o seu estado de espírito normal, e pôs-se a procurar razões para não agir: se o denunciado fosse demitido, a repercussão favoreceria Requião e atrapalharia a tramitação dos empréstimos. Vejam o absurdo do raciocínio: se o que Requião disse é verdade não se encara a questão por aí e, sim, dando a resposta imediata e nãoprometendo entrevista coletiva, como o acusado anuncia, e que transfere a data a todo o momento.
Moratória para decidir o destino partidário, mais de seis meses; moratória para responder ao bloqueio aos empréstimos (um deles: Paraná 12 Meses, 532 dias); moratória para a usina termelétrica a carvão e para a solução para as estatais, se as privatiza ou as mantém sob tutela; moratória para apurar as denúncias, de forma genérica, contra seus auxiliares, alguns muito próximos; ligeireza, no entanto, para atender pressões políticas como aquelas que fizeram a queda do coronel Bortolini, sob inspiração de Aníbal Khury que ontem conversou com o governador por mais de três horas e que deve ter encontrado a saída para a denúncia de Requião.
Um argumento pesou e é também prova de moratória: Requião teria perdido a credibilidade de tal forma que seria inútil dar importância ao desvio da grana do programa oficial por parte de Hermas Brandão. E citavam como prova o fato de que Requião tem dito que o Banestado ‘‘quebrou’’ e não houve corrida de correntistas. E como está o banco que até oficialmente admite que precisa de quase R$ 2 bilhões para sanear-se? R$ 2 bi é mais ou menos o que o Brasil receberia do FMI agora, se lá fosse para pedir penico. Clientes do banco não têm como entrar em pânico: não só porque já enjoaram de ouvir (entra governo, sai governo) que a vaca foi pro brejo, como também não têm alternativa como ‘‘cativos’’ da organização pública, sejam funcionários, prestadores de serviço, empreiteiros, fornecedores. Ganharam, como se diz em biologia, um mecanismo de defesa, antígenos, contra o alarme e a sinistrose.
E Aníbal Khury sai da entrevista no Palácio, depois de ter chamado Lerner de amador em política, o que é rigorosamente verdadeiro, o apontando como um estadista. E nós somos obrigados a ver e comentar esse ‘‘vaudeville’’ de mau gosto, onde nos sentimos, cada vez mais, piores do que os atores em cena.
BIZARRICE Na conversa entre Lerner e Aníbal, na qual pintou a estória da falta de credibilidade de Requião que por tudo que disse deveria ter provocado uma corrida ao Banestado não se avaliou uma questão: que tal se o Tony Ramos, mais do que o senador ou o governador, é quem tem mesmo a credibilidade?
MORATÓRIA A moratória é inseparável do governo: está aí a relação de credores entre os quais se incluem os de alugueres, prestadores de serviços e empreiteiros. Pois ontem o Hermas Brandão transferiu para hoje uma coletiva em que tudo esclareceria e depois para ‘‘sine die’’, ou saine dai, como dizia aquele brasileiro colonizado.
SPRAY Hoje o Paraná joga cartada decisiva na CAE e agora sob o impacto das denúncias recentes de Requião sobre a pasta da Agricultura (já atingida por Osmar Dias anteriormente na questão da readequação de estradas rurais).- O relator se recusa a dar parecer, no que está certo, se não tiver todos os elementos solicitados junto ao Banco Central e ao Tesouro Nacional.- O que pode ficar esclarecido é a questão dos protocolos, se ainda vale a exigência ou se teria caído com a decisão de não apoiar o requerimento da sessão secreta do Esperidião Amin.- Portanto, haverá delongas e isso só favorece a oposição, ainda que no final, na hora da votação, leve um baile.- Se houver outros casos iguais ao de Faxinal aí será preciso algo mais do que uma faxina em regra.- E anuncia-se uma história fantástica de um Diário Oficial fajuto, produzido na cidade catarinense de Maravilha, em nada assemelhado graficamente ao original e que estaria no bojo de novas denúncias.-
FOLCLORE Segundo governo de Moisés Lupion. Seu irmão, José, preside a Copel e o acionista minoritário, Rubens Requião, denuncia que linhas de transmissão da empresa passariam pela propriedade do presidente. Algo que nada tem de anormal e que foi suficiente para que Moisés afastasse o irmão. Moral inaplicável ao pragmatismo de agora quando chovem casos de corrupção. O fato relatado se insere num episódio de memória histórica, mas que por sua linha comportamental parece distante secularmente das práticas de hoje. E vejam a ironia: Lupion, que era um dos homens mais ricos do Brasil e que morreu quase pobre em função da sua atividade política, foi o símbolo da improbidade para os adversários. Imaginem esse time de hoje julgado por essa ótica. Alcatraz seria pouco, uma espécie de Cancun para os infratores.
CROMO De olho no cintilar das estrelas, as crianças procuram a passagem do trenó de renas. Cuidam-se para não apontá-las porque é verruga na certa nos dedos que tentam contá-las, a mesma hipótese de esvaziar o mar com um balde.
AFORÍSTICO De portador de ‘‘coceira cerebral’’, quando fala em política, desde ontem, Lerner figura no panteão dos estadistas. Políticos se merecem e como!

mockup