Luiz Geraldo Mazza
Aos políticos para efeito de efabulação educativa cabe melhor a anedota do que o salmo. E como os erros acumulados, ao longo dessa novela chatíssima dos empréstimos bloqueados, já passaram dos limites, é sempre oportuno buscar a mais clara pedagogia para enunciá-los e nada melhor do que uma anedota e do máximo lugar comum, a de papagaio.
Num transatlântico de luxo, um desses do padrão Dórea o número de prestidigitação - e essa é uma arte essencial dos políticos que fazem sumir e aparecer documentos verdadeiros ou falsos, daí a analogia - era entregue a um mágico de segunda classe, de circo mambembe. A cada feito a que se propunha, um maldito papagaio, do alto do seu poleiro dominante, como se fosse algo como um púlpito, entregava os locais onde se encontravam cartas, lenços coloridos, coelhos e pombos. Com sua voz estridente berrava: A cartola tem fundo falso, currupaco ou ainda vejam o bolsinho do paletó, é lá que está o lenço! e assim por diante.
O mágico não desanimava e, apesar de toda a desmistificação, prosseguia em seu ritual de amargas frustrações. De repente, à moda do Titanic o transatlântico é duramente abalroado por um iceberg: rapidamente afunda e o mágico, então desesperado, se agarra num tronco que bóia, quando vê o louro quase se afogando num pedaço de acrílico que flutuava. Trocaram olhares duros: o mago querendo, com toda a razão, matar o papagaio e este, como se houvesse subitamente passado a respeitar o artista, faz a pergunta: Deixando as questões pessoais de lado, me explique, por favor, como fez sumir o navio?
Exatamente aplicável ao caso dos empréstimos, depois daquela sessão de ontem, tida como técnica e que não deixou de ser política: se não der para convencer os senadores, tanto um lado como o outro, poderiam ter a compensação de fazê-lo com o papagaio. Não deixa de ser um feito e que rompe toda inércia. Afinal, o curioso e provocador acabou acreditando naquele de quem desdenhava.
SINISTROSE A grande arma da esquerda e da direita no Brasil é a sinistrose, a primeira para reivindicar em nome de algo genérico, o conjunto da população, e a outra para pressionar a opinião pública (e tentar, por exemplo, revogar o pacote e a alta de juros).
Da mesma forma que o presidente FHC tromba com o DIEESE por causa de métodos empregados para as pesquisas de desemprego aberto ou friccional, os dirigentes do Sinduscom (Sindicato da Construção Civil) não chegavam a um acordo quanto ao número de trabalhadores no mercado imobiliário. Gustavo Berman, o presidente, falava em 15 mil e um dos seus diretores retrucava afirmando que o número passava de 25 mil. Tudo se deu ontem no almoço do Sinduscom aos jornalistas. É que ele anunciava dramaticamente 7.000 desempregados para já.
Empresário quando faz ênfase na tragédia fica generoso: redescobre problemas sociais, mas nada o impede de buscar tecnologias de baixo custo e que poupem mão-de-obra, quando isso for possível, no que, aliás, está certo. É muito comum, por exemplo, o pessoal da FAEP (muitos inadimplentes dos bancos oficiais), lembrar, quando defende uma determinada cultura, os 400 mil bóias-frias do Paraná, que afinal teriam trabalho na hora da colheita.
Como diz John Keneth Galbraith, liberal de verdade - um esquerdista para os padrões brasileiros -, em Anatomia do Poder, quando se refere a um investimento, o empresário não diz que visa lucros, mas que quer dar empregos.
Gustavo Berman não deve ter agido com malícia ao dramatizar. É que várias empresas da área, entre construtoras, incorporadoras e comissárias, estão na pior, mas isso precede o pacote. E é verdade, também, que se trata de um dos setores que gera mais emprego, o único em condições de escala para atender, ao menos, parte do boom migratório que os governantes festivos subestimam.
A síndrome da Encol ainda perturba o mercado na questão da confiança e isso se agrava obviamente com a recessão que está aí por instalar-se.
BIZARRICE Segundo Elísio Marques, o anarquista, o único estádio livre e desembaraçado de Curitiba é o Parque Antárctica da Sociedade Morgenau, e explica: O Pinheirão está penhorado, o Durival de Brito, sub-judice, o Joaquim Américo em obras com término previsto para 2.025, e o Couto Pereira, praguejado pela filha de Belfort Duarte, na dúvida entre ser cedido em comodato para a Parmalat, transformar-se no maior shopping center da América Latina, ou, seguindo a esteira do Cruzeiro de Porto Alegre, virar Campus II do Cemitério da Colônia Luterana com direito a mil jazigos.
FOLCLORE O verbo haver mata empresários e políticos. Quando não é o Reinhold Stephanes, o ministro, é o Gionédis, no Senado, dizendo houveram. Dá para imaginar o clássico Cícero cometendo esses solecismos em latim na hora de fazer a condenação do Catilina que já naquele tempo defendia os camponeses. Erro gramatical na hora de morrer, de matar, de agredir e de amar é dose.
GLOSA Quem é o cara de branco a conversar com o Carvalhinho? Pergunta de um italiano (o registro fica melhor na língua de Dante) na visita do paranaense ao Vaticano.
AFORÍSTICO Banestado em 94 tinha despesa com provisão de crédito de liquidação duvidosa da ordem de 3,6% do total e em 96 passava para 13,5%. De cada real despendido com pessoal, R$ 0,50 foi gasto com inadimplência. E ainda a classe política, que mais se serve do banco, ainda o deseja com caráter público.





