Luiz Geraldo Mazza
Houve quem se irritasse profundamente com as cenas de ontem na CAE do Senado pela circunstância de o Paraná depender de parlamentares de outros estados para obter o direito de consumar projetos que conquistou por sua competência e tradição junto a organismos internacionais e que foram notoriamente brecados por motivações políticas, ainda que parte das colocações oposicionistas tivesse algum fundamento técnico. Mas democracia é isso aí: ter bancada majoritária do Senado em oposição é um desses riscos, como de resto nos Estados Unidos da América do Norte, ocorre que o parlamento em suas duas câmaras é dominado pelos republicanos num governo democrata. E dentre as experiências parlamentaristas, temos a da França com Jospin, primeiro ministro de coalisão oposicionista, com o presidente gaullista Chirac. O convívio é possível e útil.
Percebeu-se durante toda a longa sessão que o senador Requião, além das suas habilidades verbais, ganhou uma aura muito forte por sua atuação na CPI dos Precatórios, na qual, à certa altura, não hesitou em responsabilizar o próprio Senado por alguns vícios na aprovação de emissão de títulos e até mesmo o maior banco privado brasileiro, o Bradesco, como envolvido direta e indiretamente na questão. Essa verdade é inquestionável, tanto que a despeito de uma mobilização maior do que a havida na CAE contra o seu relatório da CPI, acabou por conseguir a aprovação depois da intervenção de Josaphá Marinho, uma expressão da cultura brasileira em favor desse procedimento.
Assim, pois, já se sabia que não seria fácil a tramitação apesar da explanação segura, técnica, de Miguel Salomão. Houve arregimentação também de outro lado, especialmente do senador Espiridião Amin, que já agira em apoio a Requião na CPI dos Precatórios. Sabia-se, portanto, que o embate concreto seria político e aí, então, é que faltou à representação do Paraná, no caso o seu secretário da Fazenda, Giovani Gionédis, habilidade e domínio do assunto, para vertê-lo em verbalização política. O discurso mais forte era o da oposição e para quem viu pela TV Senado, a impressão era a de que ganharia.
BIZARRICE No meio da sessão da CAE, Miguel Salomão quase deu uma de Guevara em Cuba, ao chamar José Serra de eminente comunista quando queria referir-se à profissão comum de ambos, a de economista. Há um folclore sobre os primórdios da revolução cubana, quando Fidel teria perguntado se havia algum economista entre seus companheiros de luta e o Chê Guevara teria se apresentado. Fidel perguntou: Mas você não é médico?. Ai veio, logo, a explicação de Guevara: Desculpe, eu entendi comunista.
SPRAY Tudo muda: antes intelectuais eram as líderes feministas do PMDB, agora quem cuida da área é a Rosemary Kredens.- No Rio, a inspeção veicular foi também cancelada por Marcelo Alencar. Uma das ganhadoras era uma das que havia levado a melhor por aqui.- As melhores figuras do governo Lerner são de perfil técnico: Salomão foi brilhante na CAE e Cássio Taniguchi, hoje prefeito, dava uma aula no BNDES sobre o linhão do emprego como paradigma a ser imitado.- Há ainda o Lubomir Ficinski e Rafael Dely, este com um trabalho sério na área habitacional com Vilas Rurais e o programa de desfavelamento. Outro destaque, hoje apagado por estilo, é o Alex Beltrão, deflagrador das reformas de Ney Braga e criador da Codepar, mais tarde Badep, ainda ontem colhendo o feito do Tecpar, que vai produzir em 1998 a vacina tríplice, cuja planta de produção foi avaliada pelo diretor do Centro Nacional de Epidemiologia do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa da Silva.- Tecpar é o sucessor do IBPT, Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas, criado por Manoel Ribas, vanguarda científica do Paraná e que nos anos 50, depois de isolado o vírus em Manguinhos, produziu vacina contra a gripe asiática. Isso sem falar que esteve atuante na área de combustíveis (foi quem provou que a usina de xisto no Paraná e não em Tremembé, SP), na do aproveitamento da madeira, produção de vacina contra a peste suína e também da anti-rábica.- Voltando ao governo Lerner, a sua fragilidade maior é política.- Paraná tímido politicamente, sem expressão, é compensado pelos feitos empresariais como o da Inepar, em consórcio, levando a Copel de Mato Grosso, a CEMAT, quando se dizia, à boca pequena, que estava de olho na daqui.
FOLCLORE Ontem, por um desses lapsos mnemônicos (memória) chamei a Daniela Mercury de Gabriela. Menos grave do que a do Miguel Salomão tratando José Serra como eminente comunista ou Chirac vendo FHC como presidente do México e assim mesmo sem sombrero. Uma boa dessas, fora as múltiplas de Ulysses Guimarães, ou as de Franco Montoro, foi a de um presidente da Câmara Municipal de Curitiba, que ao ler um discurso chamava os presentes de exmos e ilmos, lendo as abreviaturas por extenso como estava no script. Outra excelente do governo Lupion foi a do Cerimonial mandar carta ao Excelentíssimo Reverendíssimo Arcebispo Metropolitano e Excelentíssima Reverendíssima Senhora.
CROMO Para os que não têm olhos à poesia e ao pitoresco, os Quero-Quero, protegendo os filhotes no estádio Olímpico, em meio ao jogo entre Juventude e Flamengo, deram anteontem um show e operaram como talismã para a vitória dos gaúchos. Ontem, na CAE, havia mais papagaios do que Quero-Quero e gralhas.
AFORÍSTICO Autofagia. Foi no que mais se falou por causa do breque na CAE. Mas no Paraná, numa certa medida, a autofagia é até construtiva ao conter o poder concentrado e hegemônico, ainda mais quando apoiado na mídia confessional.





