O chinês comunista - assim autoproclamado, apesar da evidência do capitalismo focal (em menor intensidade do que acampamentos de sem-terra no Brasil) - entra, sorrindo, no templo máximo da livre iniciativa, a Bolsa de Valores de Nova York. O Papa beija o chão de algum país ignoto. O Bibi promete construir mais casas em territórios ocupados por Israel. Lerner desenha o mapa do Paraná, pela milionésima vez, num ritual de significados tão fortes, pelo menos para a sua equipe, do que o de uma ‘‘Verônica’’ feita por Dominguinna corrida de touros. E, é claro, Vera Fisher, mostra-se vitaminada no Maracanã a dar um beijo no Júnior. Esse mural de semiologia aplicada detalha que um gesto é mais do que um discurso, às vezes uma história.
Batida de polícia contra prostitutas ou gays, rotina redescoberta pelo governo Lerner, e que todo o mundo sabe que não leva a lugar nenhum, também está na moda. Agora temos ainda, como se viu ontem, a blitz contra essa nova ‘‘preocupação do governo’’, os desmanches de automóveis. Se houvesse aposta em torno dos resultados dessa cruzada haveria um empate: daria, como deu, em nada e outro não poderia ser, embora o sigilo que cercou a operação mais vulnerável do que aquele de ferro que garante a parceria com as montadoras.
Somos uma sociedade domesticada pelo faz de conta: os roubos de carros serão reduzidos apenas no dia em que a polícia funcionar, pois já houve caso de flagrante dentro da própria Delegacia de Furtos de Automóveis neste governo, com o funcionamento de uma loja tão ou mais operativa do que muitas dedicadas ao ramo. Havia até o hábito, para agradar jornalistas, quando sofressem roubo de automóveis, do ‘‘empréstimo’’ de veículos afanados e recuperados à espera do dono verdadeiro. Rotina. Como tem sido também a de usar carro roubado para diligências policiais, pelo menos no passado, embora o festival que volta e meia o governo promove com infindáveis frotas de veículos que posam para fotos na frente do Palácio Iguaçu.
Devolvam, em primeiro lugar, a Secretaria de Segurança ao Executivo, pois é notório o predomínio que sobre ela exerce o Legislativo. Delegado protegido é de corpo fechado, quem decide tudo é o poder político, o que mostra que não temos democracia. Se a polícia é empregada para fins políticos, estamos todos perdidos. O crime não é minimamente controlado porque a polícia está fora de controle. Exibições como as de ontem e as anteriores, com fechamento de quadras da Cruz Machado e Riachuelo, no epicentro do ‘trotoir’, não devolvem o perdido sentimento de segurança da população. A propósito, o atentado ao secretário de Segurança é mais antigo do que a tramitação dos empréstimos do Paraná no Senado e isso não deixa de ser altamente paradigmático.
RESERVA No Paraná, Reserva desempenha papel idêntico ao de Benedito Valadares em Minas, como área de exportação de brasileiros para os States. O ganho é na volta quando, de posse das economias, o ‘‘turista’’ retorna e acaba montando o seu negócio. É melhor ganhar fama assim do que o caso de Bocaiúva. Eis um tipo de ‘‘desenvolvimento’’ que jamais poderá ser creditado ao governo.
VEXAME Pesquisa do PPB reafirmou o erro de Lerner em buscar a cúpula do partido e especialmente Maluf para sustentar uma aliança: mais de 60% são a favor da candidatura própria e dentre as postulações colocadas o governador aparece em último lugar. Falta QI ao governo.
BIZARRICE Sobre a operação de ontem em cima dos desmanches, Orlando Carlini, na Boca Maldita, tascou ‘‘É a crônica de uma frustração anunciada.’ Muitos frequentadores lembraram das ‘‘canoas’’ contra bicheiros, cuidadosamente planejadas e que acabavam ‘‘vazando’’.
SPRAY Amanhã em Cascavel o Movimento dos Atingidos pela Barragem de Salto Caxias tem encontro com a direção da Copel: quer assentamento ou indenização de 1.200 famílias.- Anteontem, no canteiro de obras da usina, em Boa Vista da Aparecida, houve manifestação. Cada hora pipoca num lugar.- Setores da Força Sindical estão abertamente trabalhando para o PPB e acreditam na hipótese da candidatura própria de Ricardo Barros. PPB é, como tantas outras, uma criação pirandelliana: uma legenda em busca de um conteúdo impossível.- O bonde, doado pela família Slaviero à Prefeitura de Curitiba, vai dar novela: o pessoal da Fan, que guarda a relíquia, não tem o ‘‘pode’’ do IPPUC para a troca das rodas e pelo jeito esse bonde vai dar bode.- A reforma do bonde (ontem fotografado pela ‘‘Folha’’) demora mais de três anos. Rápida para fazer coisas, que depois pode pagar, como ‘‘Farol do Saber’’, a gestão municipal é lenta para as coisas que dão menos propaganda.- Relatório do Tribunal de Contas contesta a afirmação de Requião, na qual todos embarcamos porque não houvea resposta imediata, de que o governo teria gasto, ano passado, R$ 106 milhões com propaganda.- Dos R$ 28 milhões autorizados para administração direta despendeu R$ 21; dos R$ 41 milhões das indiretas, gastou R$ 32,8 milhões e nas mistas e estatais tinha autorização para R$ 30 milhões. Se gastasse tudo, seriam R$ 84 milhões, que não é pouco, mas que estariam distanciados dos alegados cento e tantos milhões.-
FOLCLORE O ministro Pedro Malan vai aos senadores explicar o pacote e ouve uma crítica pesada dos seus efeitos na agricultura, pelo senador Osmar Dias. Que é quem está, de certa forma, segurando parte significativa de empréstimos do Paraná voltados justamente para essa área. No Brasil a regra ‘‘façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço’’ se aplica a todos.

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