Convicções políticas tanto quanto slogans são voláteis. O Brasil captou isso no encontro entre Quércia e Requião: o que um disse do outro, em anos passados, era de lascar. Como, porém, se considera que a verdade nesse campo é circunstancial, a rigor não há motivo de espanto.
Todos se recordam que Requião criou o ‘‘Disque-Quércia’’ no Palácio Iguaçu com o propósito de provocar o governador paulista e que se credenciava a ser candidato presidencial. Isso tudo serviu para que o governador paranaense ficasse exposto na mídia, mesmo depois de haver deixado o governo, com a suposta disposição de disputar as prévias do PMDB para presidente. O desempenho de Requião foi pior do que o de Álvaro Dias, que no pleito anterior postulou igual pretensão na convenção do mesmo partido, e ficou em último lugar, mas assim mesmo obteve votos das delegações de outros estados.
Requião e Álvaro tiveram um comportamento comum: não apoiaram os vencedores das convenções. Um esnobou Quércia, outro não deu a mínima para Ulysses Guimarães. Nenhum deles tinha o pré-requisito que Ney Braga, Bento Munhoz da Rocha e, agora mais recentemente, Lerner desfruta: aceitação não apenas interna, mas em vastos setores da sociedade brasileira e em mais de uma unidade federativa. Lerner, em pesquisas nacionais, ganha de FHC em Curitiba, equilibra no Paraná e em Florianópolis (SC), por exemplo, e aparece com algum destaque no Rio Grande do Sul.
Pior do que o sucedido com Requião e Quércia se deu com o lendário Prestes: Getúlio Vargas entregou a mulher do líder, Olga Benário à Gestapo, que a encaminhou para a morte em campos de concentração e, algum tempo depois, os dois líderes estiveram juntos numa causa que consideravam capaz de remover todas as controvérsias - a da Constituinte. O líder comunista foi prisioneiro de Getúlio. Lacerda, que desencadeou as ações que levaram Getúlio ao suicídio, e Jânio à renúncia, acabou se reconciliando com Jango Goulart e Juscelino na Frente Ampla pela Restauração Democrática.
É uma questão de temporalidade: tanto a Constituinte como a volta da democracia são causas assemelhadas. Basta apenas, num esforço analógico, avaliar se a bandeira da candidatura própria no PMDB tem essa abrangência. Para os dois parece que sim: tanto a um como a outro interessa um nome de peso nacional para orquestrar o partido e irrigar as eventuais candidaturas de ambos nos estados. Mas para a sociedade, como conjunto, isso se justificaria?
No tempo em que Requião acusava Quércia, um dos seus ‘teasers’ era ‘‘Fala, faz e sustenta’’, que hoje parece ligeiramente afetado com essa reconciliação e com tantos outros capítulos da rotina política.
BIZARRICE Pergunta-se sobre essa história de Bocaiúva do Sul (a proibição de venda de anticoncepcionais) quem é mais panaca: o prefeito que faz a proposta ou a mídia que lhe dá cobertura?
O repentista Jota Carlos, ao ouvir a reportagem na CBN, improvisou: ‘‘O prefeito de Bocaiúva / quer que a lei não dê xabu / e decreta: transa que gere filhos / dá bom desconto no IPTU!’’ O coronel Paraguaçu está de volta.
ALBERGUE Que a esquerda está em crise e sem discurso, apostando todas as fichas no malogro do Brasil, é um fato. Agora o PT vem com outra, típica do seu indisfarçável viés populista: prega a moratória dos aluguéis, das contas de luz. É aquela visão do Estado-Albergue. Acredita que com isso faz opção pelos mais pobres, quando apenas repete as hipóteses selvagens do Stédile, aquela de invadir supermercados, ainda que em contexto diferenciado.
Quer a rendição geral, o mergulho na baixa estima, o tratamento genérico de coitados aos brasileiros. Coitado, na origem filológica, significa ‘‘aquele que sofreu o coito, provavelmente sem desejá-lo’’.
SPRAY Matias de Oliveira Andrade, cidadão curitibano, vai para o ‘‘Guinnes Book’’: em dez anos foi assaltado, nesta Capital modelo, 25 vezes. - Como se vê, a cidade da utopia, que Lerner cultiva, esgotou-se, como tenho dito, antes do fim dos anos 70. - ACM não tem ainda os protocolos das montadoras, mas sim a promessa de que o governo irá abrí-los. - Por falar nos empréstimos, o Senado recebeu relatos do Banco Central sobre refinanciamento de dívidas do Ceará (R$ 114.081.352,60) e o encaminhou para um parecer em 15 dias à CAE. Ritmo diferente do caso paranaense. - Luís Cláudio Romanelli, deputado, não ficou no discurso: quer anular na Justiça, com uma ação popular, a concessão a duas empresas, da inspeção veicular ou ‘‘vistoria eletrônica’’. Um maná imenso de centenas de milhões suficientes para cobrir ‘‘furos’’ da Leasing Banestado. - Sobre o banco agora há denúncias a respeito da Reflorestadora quanto à inexistência de florestas constantes de cadastros. - Como diz aquele velho ditado da esquerda: não se deve confundir a árvore com a floresta. - A cada momento há um vazamento e gerentes andam como loucos atrás de devedores incobráveis: dívidas de mais de dez anos de empresas que já nem existem mais. Por isso é que se pretende que tudo fique como está com a carteira mais importante sendo a dos inadimplentes, em muitos casos amigos de quem está de plantão no poder. - Se o ‘‘pacote’’ for para valer, o Banestado não escapa da privatização, pois não há dinheiro para o respectivo saneamento.
FOLCLORE Em Bocaiúva, o Élcio Berti, prefeito, foi além da glória dos 15 minutos de Andi Warhol: obteve 15 horas de exposição na tevê e rádio, provando que segurando anticoncepcionais hoje vende todo estoque de fraldas em menos de 15 meses. Quem não é prestidigitador não é político.

mockup