Luiz Geraldo Mazza
Se os protocolos das montadoras, em certo aspecto, justificam a cautela do sigilo (afinal ainda há possibilidade de atrair pelo menos mais uma, segundo o raciocínio oficial), é de concluir-se que isso não pode ficar assim de forma permanente: num momento, a bolsa de Pandora vai ter que ser aberta e com isso teremos, conforme reza a lenda, as vantagens, mas também os males do mundo.
O esforço para aprofundar a cidadania, mesmo que haja malícia política, afinal no bordel da política não há lugar para virgens, é relevante quanto ao acesso à informação. E o pior é que essa é uma resistência fóssil do poder, aqui, no plano municipal ou no nacional. Vide a história da compra de votos, um escândalo que ficou por isso mesmo como se nada de grave houvesse ocorrido.
Ontem, na Câmara de Curitiba, o PT, na Comissão de Economia e Finanças, deu o voto contrário à aprovação de empréstimo de até R$ 50 milhões junto ao BNDES para o Linhão do Emprego. O partido queria detalhamento sobre a exatidão do valor comprometido, taxas de juros, prazo de carência, fiscalização, enfim aquilo que é essencial para um vereador, cuja missão-chave é o orçamento, desde a sua elaboração até a execução, incluindo, é lógico, acordos como esse que implicam em razoável importância.
Como os legislativos andam, cada vez mais, a reboque dos executivos, e isso nós vamos assistir agora como se as reformas fossem um Siate para atender acidente na estrada (chantagem estratégica e salvacionista), os pragmáticos entendem que os detalhistas do PT são, antes de tudo, uns chatos, murrinhas, baratas de fogão, cri-cris, pois afinal não percebem que o linhão vai dar emprego para milhares dos 150 mil que estão na fila na Grande Curitiba. Em nome desse sacerdócio, que é o governo, afinal a verdade revelada, como ousar contestá-lo? Haja calhordice. É por isso que casos como o da Leasing Banestado dão em nada, aí com o reforço de outra peraltice, apontada como regra básica, do sistema: o sigilo bancário que na maior parte dos casos protege quem não deveria. E no fim, quem se dana é o público que paga a patifaria.
BIZARRICE Um Rififi anedótico ocorreu ontem, em uma empresa de segurança, próxima ao cemitério central de Curitiba: os assaltantes fizeram tudo direitinho, achando que era o dia de pagamento e pensavam limpar a caixa forte. Mas não era: daí passaram a pegar relógios, pulseiras, jaquetas e dinheirinho de funcionários. É o império do crime pé-de-chinelo, aliás o dominante em Curitiba, graças à fragilidade da Segurança. Mas essa de ontem o vexame foi de tal ordem que alguns dos assaltantes chegaram a ouvir o riso debochado de alguns defuntos.
PRESSA Em cima da hora, depois de atropelado o regimento interno, contra o que se manifestaram os vereadores Samek e Fruet, a Prefeitura de Curitiba deu algumas informações sobre o empréstimo para o Linhão do Emprego (na verdade, de R$ 35 milhões): ele foi desdobrado em cinco contratos com prazos variáveis de 30 até 114 meses, taxas de juros também variáveis de 3.5% anuais até 6%, mais o indexador do Banco Central de longo prazo. E só abriram a caixa preta por causa do chio do Samek na Comissão de Economia e Finanças.
A pressa não é amiga da perfeição, ainda quando convémao rei.
SPRAY Ontem houve comemoração dos cinco anos de encenação da peça O Vampiro e a Polaquinha, com um jantar no churrasco da Tadeu. Se Lerner aparecesse, estava combinado para não se repetir aquela cena de O Polacão e a Vampira do Palácio Iguaçu.- Por falar em arte, o médico Pedro Carlos Teixeira da Silva lança hoje o livro A Universidade nasce na curva do Rio, às 20h30, na Acervo Galeria de Arte (Presidente Taunay, 827 esquina Augusto Stelfeld) junto com a mostra do impressionista Botelho, carioca.- O livro é prefaciado pelo Arthur da Távola e trata de memórias poéticas e políticas dos anos 60, do movimento pela reforma universitária e especialmente a trajetória da Universidade de Volta Redonda.- Aliás, um dos movimentos da época foi a briga pela representação do um terço entre corpo docente, discente e servidores nas eleições da Reitoria. O debate entre os candidatos, anteontem, na Reitoria, foi bem a prova de que isso está degradado e levou a universidade, hoje ocupada pelo baixo claro, ao democratismo. - Em 64, fui inquerido por minha participação nesse movimento, do qual hoje à distância não posso recordar sem algum constrangimento. Se a universidade não recuperar um mínimo de respeito acadêmico, agravado por essa paparicação em cima de estudantes e do corpo funcional, é melhor que feche.- Um corporativismo que entusiasmaria a direita integralista tomou conta do pedaço: o reitor ganhou a eleição com os funcionários, depois de perder junto aos alunos e professores, e lançou um sucessor no mesmo esquema. Viva a corporação de ofício da Idade Média! -
FOLCLORE Lerner é um amador em política, diz Aníbal Khury, pretendendo com isso colocar-se como profissional. Não percebe que essa é a melhor das qualidades do governador: não ser um político do estilo dominante.
Diz Aníbal que é a aliança que deve definir os candidatos, todavia ele está impondo o de Hermas Brandão para vice, que aglutina muito pouco em termos eleitorais. Como no Paraná o Aníbal apita em todos os poderes - o Jorge, seu irmão, diz que esse fascínio vem por gravidade - está agora acuando Lerner, que é um homem sem coragem. Peitado pelo Greca, teve que engoli-lo como candidato a prefeito, quando preferia o Taniguchi e agora vai levar outra do Aníbal, que nem sempre é bom profeta.
Cada povo tem o Antonio Carlos Magalhães que merece. E Aníbal nem é sócio da Rede Globo.





