Pelo que dizem e fazem os dois lados da questão fundiária - seja a Faep, a Rural (e seu braço menos formal, a UDR) ou o MST, incluindo aí a Pastoral da Terra - estariam ambos enquadrados na Lei de Segurança Nacional justamente pela subjetividade daquele diploma, tido como Anti-Lei, mas até citado por deputado do PT como infringido pela campanha das reformas de FHC pela CNI.
Tanto a proclamação da Pastoral da Terra, que superestimou o apoio que o povo daria à marcha dos sem-terra e listou milhares de assassinatos de camponeses, embora jamais admitindo delitos praticados por seus protegidos nas fazendas Borborema, em Tamarana, e Cordilheira, em Jundiaí do Sul, como a Faep em suas proclamações televisivas só mostram o que lhes interessa e por isso mentem.
Mas uma democracia é assim mesmo, ainda quando deformada por aquele aspecto de transformar-se na ‘‘representação dos interesses’’. Maior colher de chá do que a novela ‘‘O Rei do Gado’’ (com impacto equivalente ao da série ‘‘Tempos Rebeldes’’, que ajudou a derrubar Collor muito mais do que o imagina a UNE) ninguém deu aos sem-terra no Brasil, e nem um plá do Papa é mais importante do que isso. Gerou maior empatia, uma carga excepcional de compreensão e aí com um sucesso que a Globo não obteve com a atualização de ‘‘O Pagador de Promessas’’, de Dias Gomes, e que na versão da série, dirigida por Tizuka Yamazaki, incluía os sem-terra, pois a UDR, aquele tempo guiada por Ronaldo Caiado, protestou e impôs a censura, com apoio na Justiça, uma vez que naquele momento a Constituinte Cidadã discutia justamente a reforma agrária e a dramatização era contra os latifundiários.
FÚRIA INÚTILA conferência de um jornalista mexicano em Londrina, que colocou apenas mais radicalismo nos já inseguros ruralistas, ao dizer absurdos como o de que a coroa inglesa estaria por trás do MST, dá bem a medida de como se criam as chamadas atmosferas ‘‘psicossociais’’ em cima de matérias explosivas. Tenta-se criar pelo discurso e a intimidação, devidamente dramatizados, a idéia de que o fato social é uma questão de polícia e só falta invocar a segurança nacional, ainda mais que há dinheiro do exterior no MST, embora não se discuta o caráter da organização a que está ligado o jornalista co-autor de um livro, cujo título dá bem a idéia de sua especialidade ‘‘O Complô para Aniquilar as Forças Armadas e as Nações da Ibero-América’’.
Ao lado da legalidade formal, há a informalidade: do sem-terra que invade e ocupa áreas, mas aureolado pela bandeira da justiça social, que lhe concede a benção da Igreja e o melodramatismo do povo identificado com a pobreza; como também do ‘‘Comando Vermelho’’ ou ‘‘Segundo Comando’’ que operam em cogestão com a malha legal (polícia, autoridades, administrações de presídios) em cima do insumo básico do narcotráfico e respondem pela indústria dos sequestros.
Em ambos os casos, o governo se mostra impotente: no primeiro para mostrar-se sensível à causa dos excluídos até porque o tema é politizado; no segundo porque para igualar-se aos narcotraficantes teria que impor um nível de repressão de tal ordem que se assemelharia à paranóia que se fez no passado com as esquerdas, e que um setor do latifúndio está louco para restabelecer até para não pagar também as suas dívidas nos bancos oficiais sob a capa de que são patriotas indispensáveis e merecem as moratórias, como a que se tem produzido neste País relativamente à questão agrária e, em muitos aspectos, semelhante ao ritmo da abolição da escravatura.
GOVERNO FROUXOO governo Lerner foi faccioso no trato do assunto: ajudou a pressionar o Poder Judiciário para que se protelassem os despejos e se liberassem os presos com o propósito de evitar desgastes, mas também se mostrou pusilânime ao não enquadrar os fazendeiros que, em pura bravata, à qual tentaram dar um sentido de heroísmo, invadiram e destruíram o acampamento da fazenda Saudade. É frouxo novamente ao permitir que técnicas primitivas de sem-terra destruam o que hoje é um patrimônio brasileiro, até porque está sob gestão do Banco Central, a fazenda Mitacoré, detentora dos maiores recordes de produtividade e com mais de metade de sua área entregue aos invasores pela omissão do governo, uma vez que a Justiça concedeu a ordem de imissão de posse e ela não é cumprida.
Está na hora de uma reflexão séria: o governo federal recusa a reforma agrária para áreas invadidas; o Judiciário acerta com o Executivo o cronograma do cumprimento dos despejos; estabelecido o armistício, o governo acelera o programa de assentamentos e neutraliza o lado mais armado, que é o dos fazendeiros.
Neste momento, aliás, a oposição tem arma bem melhor do que essa, a da reforma agrária, para atingir FHC: a globalização da crise nas bolsas a anima e revigora como se tivesse chegado o Juízo Final ao Plano Real. Que pode ser tão provisória quanto as crises anteriores (México, em especial) e como a amarga transição de um acampamento de lonas pretas.
FOLCLOREHorácio Coimbra, presidente da Cacique, foi a Moscou assinar contrato de venda de solúvel para a União Soviética. No Brasil, o embaixador Vitali Borovski desejou conhecer o Norte paranaense e a indústria. Na rádio Paiquerê, o russo deu entrevista para Antonio Belinati; na TV Coroados, a Euclides Sapia e na ‘‘Folha’’ foi recebido pelo Milanez. Até hoje a Cacique detém 23% do mercado russo, mas as reações à visita foram muitas, entre elas as de ‘‘dedos duros’’ que passaram a considerar Horácio como simpatizante do comunismo.
AFORÍSTICOAcalmemo-nos todos diante desse cenário tenso (luta no campo e o tremor das Bolsas) porque depois da tempestade tudo pode ficar pior ainda.

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