Incidente de ontem em Curitiba funciona como fábula para mostrar como o mundo moderno fragmenta relações sociais, referência visível, mas não captada pela militância política no que acredita ser a luta de classes. O vereador Natálio Stica (PT), que crê na linearidade desse relacionamento e na solidariedade obreira, foi intervir em favor de empregados dos Correios que reclamavam da remoção de lombada, e como os trabalhadores envolvidos na tarefa não atendiam seus apelos, resolveu ir à luta no melhor estilo do socialismo primitivo: desligou os equipamentos, paralisando as máquinas. Resultado: foi preso e processado por dano ao patrimônio público.
Petista, em maioria, mormente quando basista, acha sempre que as razões da história estão a seu lado, que ele é um vetor desse processo e que depende de sua participação, ainda mais quando a causa é de trabalhadores. O ecologista se gruda na árvore que desejam abater, o sem-terra (como aquele caso de Porto Alegre) se acha ungido em usar a foice para degolar um brigadiano, olhado por ele não como um homem, mas a expressão da ordem.
No início, as relações sociais não eram complexas e a doutrinação de Marx sobre a luta de classes, simplificada para efeito ideológico no maniqueísmo entre patrão e empregado, traz muito desse tempo em que o trabalhador visualizava o dono da fábrica. Hoje vários mediadores foram colocados, tal qual as lombadas, entre os pólos supostamente em tensão permanente. Quem não estudar ciência das organizações estará por fora das novas formas de interação: além dos departamentos de recursos humanos, onde há psicólogos treinados para a lavagem cerebral dos trabalhadores, há gerentes de outras especialidades, não menos relevantes, para esse processo de integração, por bem (muito papo em torno de que a empresa é uma extensão da família nos chamados programas de relações públicas) ou na marra, isso sem falar nos decálogos da organização, como se fosse uma palavra de ordem para escoteiros.
Se há greve no transporte, o sindicalista acha que o usuário, por sua condição de trabalhador, deve ser solidário ao grevista quando ambos têm interesses conflitantes: um quer trabalhar e precisa fazê-lo, e o outro deseja uma greve que pune centenas de outras categorias.
Não há como acomodar essa tensão, principalmente numa democracia e a saída, normalmente, é fascista, pelo império da violência, a imposição da minoria e a transformação de todo o povo em refém de um grupo mobilizado.
Stica praticou o seu gesto por generosidade, aquela que configurava o estilo dos socialistas românticos, menos pretensiosos do que os herdeiros da fase mais aguda e já no poder (primeiro na União Soviética, depois no Leste Europeu), autoproclamada de ‘‘científica’’, ainda que calcada numa profecia. Menegheli, o homem da CUT, numa das greves metalúrgicas, foi acusado de adotar a operação ‘‘cambalacho’’, que era a de colocar no mercado carros saídos da linha de montagem com defeitos. Ambas as atitudes levam ao luddismo, aquela fase de quebrar teares do início do Século XIX, atribuída ao lendário Nedd Lud. Essas lutas geraram mártires como dos 64 réus acusados do assalto à fábrica de Cartwright, em Rawfols, York, abril de 1812, dos quais 13 condenados à morte e dois deportados. Também o 1º de Maio, como sabemos, criou mártires em Chicago, pela diminuição da jornada de trabalho. Natálio Stica está longe de ser um mártir, mas deve ter percebido que contava com a solidariedade dos postalistas e não a dos trabalhadores encarregados de remover o quebra-molas. E deveria valer-se da experiência para perceber as lombadas que impedem a progressão da tão mal explicada, embora altamente explorada, luta de classes. Melhor de discurso e de doutrina do que de prática.O pior é que muitos acham que quando quebram um orelhão estão fazendo algo como a Queda da Bastilha. O que fortalece a elite no poder. Sempre.
BIZARRICE Em plena batalha das mulheres, o Ricardo Prefeito, vulgo Eduardo Schneider, escreve esta ao criticar a cota de 20% a candidatas: ‘‘Como das outras vezes, além das poucas candidatas reais, a cota será preenchida com secretárias, amantes e amigas coloridas dos políticos.’
SPRAY Vereador Gustavo Fruet (PMDB) descobriu, vendo as planilhas do orçamento para 98, que já estava prevista no mínimo de R$ 0,74, a tarifa de ônibus antecipada para este mês, mais por estratégia política do que por mistificação técnica.- Está embutido nisso aí subsídio à integração metropolitana que deveria ser feito às claras, causa da bronca em Fazenda Rio Grande.- Observação de Fruet: maior diminuição de valores se deu em Educação, com redução de 21,95%. Para compensar, diminuiu o lado ‘‘espetáculo’’ que predominava com Greca e que deixou uma herança dura de contornar, causa da queda das dotações fixadas.-
FOLCLORE O presidente do Banco Central, diante do furor nas bolsas, deve pautar-se pela postura do guarda do Palácio de Buckingham, que teve um esquilo, que penetrou em seu uniforme, a farejar partes baixas à procura de castanhas e fica firme, sem impacientar-se sequer com cócegas ou pensar nos riscos.
CROMO Fé e ciência: o crente bebe a água benta, o cientista ao examiná-la, suspeita que tem coliformes. Para um, a cruz, para o outro, o microscópio.
AFORÍSTICO E essa agora, hein: a Inglaterra, que ameaça desintegrar-se, estaria por trás da ‘‘guerrilha’’ dos sem-terra. Imaginem se militares souberem que a primeira Carta Magna foi baixada no século XIII pelo rei João Sem Terra.

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