Luiz Geraldo Mazza
Quando a perplexidade e a impotência dominam os grupos políticos estes, quase sempre, apelam para a sinistrose. Se no passado, no tempo do regime militar, era legítimo para manter o contraste com o triunfalismo colocar o lado negativo das coisas, hoje isso apenas configura imobilismo despistado. É o que se vê nos oposicionistas que se precipitaram em surfar nas oscilações das bolsas de valores, entendendo que reproduziríamos aqui o México e mercados da Ásia, e também recorrendo a analogias incabíveis como a derrota de Menen.
Aqui, no Paraná, por exemplo, a oposição poderia fazer exercício de sinistrose com o fato, divulgado anteontem, de termos caído do 4º lugar para o 5º no ranking nacional de acúmulo de riquezas. Ora, dependendo de variáveis em modelos adotados, nunca estivemos a rigor nessa colocação, como de outro lado jamais saímos do 5º lugar e isso em indicadores como renda interna e PIB, embora nos de caráter social tenhamos posição menos confortável. Houve, anos atrás, a possibilidade de perdermos, inclusive, posição para a Bahia, mas isso não aconteceu.
O fato é que emparelhamos com o Rio Grande do Sul, que sempre teve tradição política e sobretudo identidade forte, o que não acontece com a gente. Basta lembrar um episódio: o da disputa pelo terceiro pólo petroquímico, que perdemos para os gaúchos, embora tecnicamente a nossa alternativa fosse melhor. Outra evidência foi a da passagem de Tarso Dutra no Ministério da Educação - onde tivemos Flávio Lacerda, Ney Braga e Euro Brandão -, que com uma penada acertou a federalização de toda a estrutura universitária estadual.
Na corrida das montadoras, saímos na frente com menos concessões do que a deles para a GM, como os deputados petistas de lá o confirmaram. Ainda assim, o cenário está equilibrado. Rompemos dependências, ampliamos o raio de autonomia e temos potencial para chegar à frente dos gaúchos. O Paraná não tem um quadro desastroso como o de paulistas, mineiros, gaúchos e cariocas quanto a sua solvência real. Só na cabeça de uma oposição safada estaríamos sem saída.
Só para mostrar como a autofagia funciona: o Senado aprovou, dia 24, como vem fazendo com outras unidades federativas, a transferência à Caixa Econômica Federal da dívida de R$ 353,7 milhões junto a 12 bancos do Mato Grosso do Sul. Votaram contra José Eduardo Dutra, Esperidião Amin, Requião, Osmar Dias, Eduardo Suplicy, Lauro Campos e Ademir Andrade. Mais ou menos o que vai acontecer quando os interesses do Paraná forem votados.
LATITUDE Atribui-se ao ex-deputado Pedro Liberti, de Rolândia, a frase de crítica ao governo quando disse que em seu município de dia predomina a poeira e à noite a latitude dos cães. Liberti reagiu, irado, à piada que o jornalista Sebastião Neri incluiu numa série do folclore político. E que disse, em repique, que aquilo era longitude de imaginação.
Pois a latitude de um vira-lata, chamado Tobi, em Cianorte, levou um médico a matar o animal. O médico é Antonio Verinhitachi e pode se complicar, pois os animais (embora isso incida mais sobre os de caça) justificam o enquadramento em crime inafiançável. Se o tiro fosse num papagaio, numa arara ou numa araponga, a bronca seria ruim para o lado do infrator.
Ademais, não esqueçamos a lição de Antonio Rogério Magri que resumia tudo num pensamento fulgurante: afinal, cachorro também é humano. Isso para justificar a ida do totó em carro oficial ao veterinário.
BIZARRICE Lerner disse que a união PT-PSDB é contra FHC. Álvaro Dias retrucou que ele jamais fará com FHC o que Lerner fez com Brizola. Lerner pula menos de galho em galho do que Álvaro, que se guardasse camisas dos partidos em que esteve, dava para montar uma butique do gênero.
PARANÓIA Militares voltaram a botar lenha na fogueira como se ainda estivesse prevalecendo a doutrina da Escola Superior de Guerra, desmontada por um coronel da terra (parnanguara como eu), Cavagnari, hoje a maior autoridade em logística do País, como mestre da Unicamp. E olham o MST não como uma gincana, mas expressão efetiva de guerra focal, alarmando-se com a hipótese (o que é um esquiar na maionese) da formação de um estado independente que juntaria, como sugere a paranóia, parte do Mato Grosso do Sul, Noroeste do Paraná e o Pontal do Paranapanema. É verdade que em 64, afora a quebra da hierarquia (baderna dos sargentos, estimulada pelo poder central), o fato principal foi decorrente da sindicalização rural e de um decreto ameno de reforma agrária, de Jango, que dava como prioritárias para esse fim, áreas beneficiadas pelo governo como açudes e estradas.
Que está havendo abuso nem se discute. Basta ver os casos de tortura e morte na fazenda Borborema. A tortura, pela Carta Cidadã, é crime irremissível, mas as autoridades (Ministério Público, Judiciário) não se mexem e o governo gosta, como se deu no acampamento do Centro Cívico, de parecer politicamente correto, temendo ser julgado como reacionário (vide a demora de Lerner para entrar no PFL). Houve tortura também em Jundiaí do Sul. Daí a concluir que estaríamos diante de uma Chiapas (inútil, por seu imobilismo), é exagero.
FOLCLORE Álvaro Dias justificava que nada há de mal em estar com o PT e dizia que o Lerner tratasse de trazer o Marco Maciel para o seu palanque. No do tucano, certamente poderiam figurar o Lula, o Zé Dirceu e até o Serjão.
CROMO No meio do vento oscila o galho do pinheiro: na casinha, o João de Barro olha tudo com a fleugma de um inglês. Ninguém conhece ventos como ele. Tanto que jamais se viu a sua casa mal construída como as dos homens.





