Surgiu, enfim, o cataclisma que pode mudar o rumo, a um só tempo, da era confessional - o mercado ungido como novo bezerro de ouro com o poder da onisciência, onipresença e onipotência - e gerar uma esperança à atarantada oposição brasileira e aos agrupamentos à esquerda: um novo estouro como o da da bolsa de Nova York em 1929 que acabou atingindo por tabela o Brasil. Como ficou na moda um setor da esquerda recuperar o Lord Keynes, artífice da intervenção reguladora e indutora, os alquimistas, a essa altura, já imaginam o Brasil chamuscado como o México ou a Tailândia, ainda que os efeitos em onda do ciclone de Hong Kong não tenham se manifestado em sua intensidade.
No passado, os economistas soviéticos, então com a bola cheia, falavam nas curvas cíclicas da crise do capitalismo e essa doutrina explicava o caso clássico de 68 anos atrás, quando os capitalistas se atiravam do alto dos edifícios nos Estados Unidos da América do Norte. Naquele ocasião o capital financeiro se mostrou fungível, volátil.
O primeiro lado positivo do estouro, ainda que transitório, é a derrubada do mito da exatidão que cerca aqueles que acreditam na ordem estabelecida como a verdade revelada, o confessionalismo. Globalização é isso também: a derrubada de mitos como o dos ‘‘tigres asiáticos’’ apontados como uma saída para economias de capitalismo tardio como o Brasil.
Para os que apostam no dilúvio como solução política - e isso dará para perceber em setores da esquerda primitiva (que é a dominante) - dá para lembrar que depois do efeito ‘‘Tequila’’, o PRI - Partido Revolucionário Institucional - perdeu batalhas importantes como a da capital do México. Mas na Argentina, os avanços foram até mais rápidos: a conquista da prefeitura de Buenos Ayres e mais recentemente a vitória parlamentar do bloco unitário de oposição devem preocupar mais FHC do que o abalo da bolsa. Da mesma forma que os delirantes atribuem importância incomum no México ao zapatismo de Chiapas. Há áreas, em que a autoridade não chega, bem maiores no quadrilátero da maconha e outros pontos sob domínio do narcotráfico no Brasil.
A lição a extrair disso tudo está na derrubada do mito do exato, na queda do determinismo (aquele equivocado na profecia de Marx, e o de agora com o dado fatalista do mercado regendo a totalidade das ações humanas, o que é de uma boçalidade sem tamanho) e na lição de que só as oposições unificadas e sempre comprometidas com a democracia é que podem fazer o revezamento no poder. A democracia é a única esperança contra os transbordamentos do capitalismo.
ADVOGADOS A eleição da OAB só falta ter um ‘‘Ferreirinha’’ para ficar igual às deturpadas práticas da política. O jornal da OAB, subseção de Foz do Iguaçu, fez de sua primeira página um exemplo de proselitismo dos mais sórdidos.
Está lá, escancarada, propaganda da chapa XI de Agosto. O curioso é que a OAB fez, outro dia, a defesa da isonomia. É claro: na eleição dos outros. Se um exemplo desses vem de um órgão de defesa do Estado de Direito Democrático, imagine-se o que se dá com os demais.
BIZARRICE ‘‘Antigamente ser funcionário público era padecer no paraíso. Hoje o barnabé (estadual, federal ou municipal) sente-se tão confortável quanto o ‘‘porco no rolete’’: pururuca por fora e enfarofado por dentro.’
A frase é do advogado e anarquista Elísio Marques.
SPRAY ‘‘Perplexidade ética: novos desafios’’ - esse o tema central do 1º Congresso Nacional de Direito, Justiça e Fé, da Igreja Presbiteriana, que vai de hoje até amanhã no Hotel Rayon, coordenado por Caleb Soares.- Frente Anti-Lerner azeda com a aproximação Cheida-Álvaro Dias: para a ala xiita do PT, isso dá algo pior do que vermes para constituir-se em salmonelose.- Expedito Rocha (único artista paranaense na mostra de 500 anos de arte latinoamericana) deixa por algum tempo a presidência do PCB do Paraná. Assume o secretário geral Adilson Nunes, presidente da Juventude Comunista.- Associação dos Magistrados mandou seis delegados ao congresso da categoria em Olinda, mas vai com 20 representantes ao 2º Congresso dos Magistrados do Mercosul, de 5 a 9 de novembro, em Buenos Aires.- Porto de Paranaguá é o alvo do PPB para fechar acerto com o governo. Está na hora de tirar o caráter político do porto.-
FOLCLORE Dona Niva, mulher do Aníbal Khury, vai ser homenageada hoje com os mais justos motivos. Entre outros o de, no âmbito familiar, ser a instância máxima em amor e sensibilidade, o que se diferencia da ação quase hegemônica do marido junto aos chamados poderes institucionais. É exagero, porém, como corre por aí, a lenda de que o Rafael de Lala, experiente assessor de Aníbal, teria conseguido na Rússia dar o nome de Niva a um dos modelos da Lada só para agradar a família.
CROMO Nas matas do Capivari é mais fácil o martelo bater na bigorna, no canto da araponga, do que se ouvir o ruído de uma ferraria.
AFORÍSTICO Se os fraudadores do ICMS do Paraná forem anistiados, como se propala por aí, é o caso de eleger o Naji Nahas para presidente da República.
AXIOMA Se ‘‘tigre asiático’’ é modelo para os sulamericanos, como os ianques não cansam de sugerir, é o caso de considerarmos que a Coréia do Sul, para evitar a quebra da Kia e da Ásia Motors, estatizou-as. Aqui, ao contrário, o governo dá tudo (renúncia fiscal, 40% do investimento, infraestrutura em estradas, água e energia) e fica apenas com o direito de cortar a fita no dia da inauguração. O que os malandros chamavam de ‘‘loque embandeirado’’.

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