De um modo geral, o basismo tem se revelado no Brasil como alavanca eleitoral da maior fragilidade, mesmo quando articulado, como se vê no caso dos sem-terras ou em frações menos organizadas como os sem-teto urbanos. Havia um setor do PMDB que apostava todas as fichas nos ganhos eleitorais com invasões urbanas, a maior delas ocorrida com o apoio explícito do governo Requião e para criar dificuldades a um projeto imobiliário do Bamerindus em parceria com a Prefeitura da Capital, na chamada Ferrovila. O líder da operação, Doático Santos, que novamente perdeu indicação como delegado do PMDB, foi candidato a vereador e também não se elegeu.
Não se trata de um exemplo isolado, mas de algo que se repete com todo aquele que tenta operar eleitoralmente com o lúmpem, seja urbano ou rural, como os mais recentes pleitos, nacionais e regionais, o tem demonstrado. O pior é o grau de desinformação doutrinária dessa gente, que absorve um marxismo em compota, aquele voltado para as ações imediatas, ignorando o que o Karl Marx disse da dificuldade extrema de gerar consciência nessa área marginal.
Tentou-se tirar efeitos multiplicadores da presença de sem-terra: a CUT, que não tem remédio para a crise que a atormenta (o diagnóstico é mais impreciso que a terapia, e percebe-se que ela tem sua maior força no setor público, o mais desgastado, aos olhos da maioria da população), veio com o Vicentinho ganhar alguns créditos, tentados também por senadores e especialmente o PT, que anda se agarrando em fio descapado num oportunismo larvar em que admite até uma aliança com Álvaro Dias, como se esse fosse trouxa de conflitar com FHC.
O curitibano, ainda quando empobrecido, raciocina como classe média: vota em Afif Domingos, prefere Collor a Lula e entre FHC e o barbudo, não hesita. Diz-se que a composição das classes em Curitiba mudou, mas não se deve desprezar a lição das eleições presidenciais de 1955, ganhas aqui e em Ponta Grossa pelo chefe ‘‘galinha verde’’ Plínio Salgado. Agora o prefeito Jocelito Canto, de Ponta Grossa, não deu qualquer acolhida aos sem-terra e ele, que era olhado com desconfiança pela elite, ganha aquilo que os cristãos chamam de ‘‘indulgências plenárias’’, por essa expressiva omissão, dos adversários.
Lerner, nessa tensão, pelo seu comportamento, não tem a confiança nem dos sem-terra e muito menos dos fazendeiros porque não cumpre ordens judiciais. Tem, no entanto, o apoio e a compreensão das classes médias que aceitam a reforma agrária e repudiam a violência nas invasões. Aliás, o exagero das denúncias quanto às palavras de ordem revolucionárias (apelo às armas) mina ainda mais esses setores contra o basismo, apesar do seu significado relativo e exagerado por essa nova indústria do anticomunismo, outra velharia, ainda em moda.
ÉDITO Qual a diferença entre um decreto legislativo da Assembléia e um édito real? Nenhuma. Da mesma forma que se obstina em não cumprir decisões até do STF, Aníbal Khury se acha com poderes para obstruir ação do Judiciário contra deputados. Procedimentos contra Emerson Nerone e Edno Guimarães, motivados por crimes eleitorais, foram sustados e a comunicação enviada ao Judiciário.
E ainda o professor João Féder fica fazendo ensaios sobre Montesquieu e o sistema tripartite de poderes. Se as medidas judiciais podem ser anistiadas com essa singeleza, nada mais compreensível que a marcha dos sem-terra libere os que estavam presos. Qual, afinal, a referência da lei e da justiça, se a sua consumação passa por filtros tão subjetivos?
BIZARRICE Ociosos por hábito e ‘‘profissão’’ estavam irritados com o comício dos sem-terra, criticando-os porque levam a vida só no agito. Mais uma vez o roto ri do remendado e não se flagra.
ALEGORIAS Da mesma forma que invasão de terra, como é feita no Brasil, está mais próxima de gincana do que de revolução, as declarações dos líderes Calegari e Cezimbra pregando a luta armada, que apareceram em vídeo, devem ser olhadas no seu contexto: foram em cima da morte de dois companheiros em Pinhal Ralo e obviamente um movimento que é tocado à paixão exige esse tipo de discurso para manter o moral. Daí o pavor deles das decisões judiciais cumpridas, que levam a base a questionar a direção e a detoná-la, como já aconteceu em muitas dessas batalhas focais.
Lembro dos meus tempos universitários em que falávamos de revolução como se ela estivesse em andamento ou fosse estourar em minutos. Havia uma cantiga contra os nossos adversários da direita e que usava a música do Jingle bells: ‘‘sabãozinho, sabãozinho// de burguês gordinho// toda vil reação// vai virar sabão!’ E nós, que a cantávamos até por estarmos na universidade como minoria privilegiada, éramos burgueses e, no caso de muitos, gordinhos.
Depois dos episódios da fazenda Borborema (massacre de vigias e assassinato do Django pelos sem-terra) e de Jundiaí do Sul, com a tortura de fazendeiros, e mais a operação contra o acampamento da fazenda Saudade pelos ruralistas, ficou difícil estabelecer a fronteira do tolerável nessas questões e o pior é que o governo, o Incra e o Judiciário são lentos demais para demandas velozes.
FOLCLORE Anteontem, no bar do Maneco, perto da Boca Maldita de Curitiba, descem de um Vectra 97 duas pessoas paramentadas como sem-terra. Foi um auê: quase apanharam dos frequentadores. Estes, ‘turbinados’, eram os ‘‘sem paciência’’.
CROMO Ao lado da concentração de sem-terra, no Centro Cívico, o pássaro João de Barro mostra como fazer a sua casa, sem curso de engenharia, e ainda ser plagiado pelo renovador da arquitetura, o Le Corbusier.

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