Luiz Geraldo Mazza
Se na concentração de ontem dos sem-terra houvesse um minuto de silêncio para os mártires - os de Corumbiara, Eldorado de Carajás, de todos os quadrantes, enfim - haveria, por certo, algum constrangimento porque seria impossível fazer a memorização sem lembrar de Campo Bonito, um saldo de quatro mortos, três das forças policiais e um dos ocupantes, o líder Teixeirinha.
Pela manhã, ao mesmo tempo em que buscava acertar o acampamento dos manifestantes em área do Sintel, perto do Cemitério (como isso faz lembrar a reverberação do poema de João Cabral de Melo Neto, esta é a parte que lhe cabe neste latifúndio, ao se referir ao enterro do retirante na caatinga), o prefeito Cássio Taniguchi, percebendo que o senador Roberto Requião figurava entre os sem-terra, lembrou daquele evento que o PT faz tudo para esconder.
Manifestações de rua estão cada vez mais impotentes para mexer com a apatia da população, fragmentada na sociedade moderna e indisposta a ouvir palavras de ordem. Constituem, no entanto, a forma espetacular, de performance, para marcar posição e o objetivo maior, de certa forma, acabou atendido na pressão sobre o Judiciário. O parecer do Ministério Público pela concessão do habeas- corpus aos cinco líderes presos na Comarca de Loanda é uma prova disso, como de resto uma predisposição do Judiciário para ouvir, com boa vontade, essas razões. Já o pedido do afastamento da juíza é picaresco demais para ser levado a sério, conquanto apropriadíssimo ao assembleísmo dos delirantes que imaginam estar na ante-sala da Bastilha só porque enxergam em figurantes do Palácio Iguaçu sinais da nobreza decadente da França embolorada.
Justiça tenta sugerir que não age sob pressão, mas é visível em casos como o do desaforamento do júri de José Rainha que o clamor funcionou. E operou aqui na questão dos líderes presos, como se percebeu nas mediações do Ministério Público, e que serão levadas em conta no exame hoje do habeas-corpus na 1 ª Câmara Criminal do TJ a cargo do juiz convocado, Campos Marques. É melhor esse peso da opinião pública do que o das armas que impediu em 1955 ao ministro Nelson Hungria, glória da criminalística brasileira, de conceder segurança ao presidente Carlos Luz porque a força do direito só na oratória é maior do que o direito da força, quando este se expressa em sua dimensão totalitária.
Essa circunstância, porém, não deve levar à generalização do conceito que faria a justiça das multidões e esta é irmã do linchamento. Bem como dos tais tribunais populares, que fizeram mais mal do que bem, seja na França, na URSS de Stalin, na Romênia ou em Cuba, na glorificação do paredon, ou nos porões da Argentina, do Chile e do Brasil, também formas alternativas de buscar e fazer justiça ao gosto de quem se acredita o próprio poder.
XEROX Lerner não pretende levar aquela aposentadoria que beneficiou Richa e tantos outros, e que Requião e Álvaro Dias se recusaram a aceitar. Reinhold Stephanes, se for candidato em majoritária, já sabe que enfrentará as xerox da sua aposentadoria no frescor dos 40 anos.
Isso matou em duas eleições o melhor candidato ao governo: Saul Raiz, em 1982, e Richa, em 1994. Xerox ou não xerox, eis a questão.
BONDE Ministério Público aciona a Prefeitura de Curitiba para que explique o sumiço de um bonde doado pela família Slaviero. O jornalista Cândido Gomes Chagas sorri como o Doutor Silvana, pois quem provocou a denúncia foi ele.
BIZARRICE Frases de Rafael Greca, citando Parmênides, provocou corrida às bibliotecas. E descobriu-se no Dicionário Filosófico de José Ferrater Mora a síntese do pensamento do grego referido o ser é esférico. Aí é bom para o Greca, mas também para o Aníbal, o Pessuti, o Lerner e o Serjão.
SPRAY Anuncia-se o repique dos produtores rurais: uma caravana vem a Curitiba, cerca o Palácio Iguaçu e pede o cumprimento da lei. Uma ala da agricultura familiar trará cartaz: Somos os sem-terra de amanhã.- Desde anteontem há o parecer do Ministério Público, no habeas-corpus 61.975-4, a favor da liberação dos sem-terra Delfino Becker, Celso Anghinoni, Pedro Alves Cabral, Arlei Escher e Juscelino Gonçalves. O procurador José Júlio Amaral Cleto acha que as razões que determinaram as prisões estão superadas e estas concorrem agora para o agravamento da tensão.- Delfino e Celso já estão soltos e os demais foragidos, razão pela qual o julgamento pode não sair hoje, na 1ª Câmara Criminal do TJ.- Só 29 dos 155 candidatos remanescentes da primeira fase no concurso de juiz substituto conseguiram aprovação na segunda etapa. Dias 25 e 26, próxima etapa. Desaprovados estão recorrendo. Como sempre.- Porto Amazonas programou para este fim de semana um torneio de pesca: o Iguaçu está um oceano e é mais fácil pegar lixo da Curitiba ecológica do que peixe.-
FOLCLORE Uma dona de casa, Norma de Almeida Paulo, eleitora do senador Requião, foi a responsável pela derrota da família do ex-governador na 177 ª Zonal. Como Requião não se submete a normas, de um modo geral, teve que democraticamente acatar a vitória da Norma substancial e que havia proposto a Maurício Requião uma composição, recusada por aquele, que achava saudável o bate-chapa. Que de fato foi.
CROMO Da rua para a escola é o nome de um programa de governo. E há outro, menos falado, que é do emprego para a rua, muito mais comum.
AFORÍSTICO Seria herético pregar o controle familiar aos sem-terra?





