Luiz Geraldo Mazza
O governador voltou, após a necessária despressurização, e já no encontro com os seus secretários o tedioso retorno à rotina: que respostas dar, por exemplo, ao MST em marcha acelerada de Campo Largo a Curitiba? Negociar com a justiça, de forma mais rápida possível, a liberação dos sem-terra presos para que eles acampem no Parque dos Tropeiros e não na Praça das Tropelias - aquela do Centro Cívico, a mesma do embate dos professores diante de Álvaro Dias, a dos comícios tocados por Mário Pereira e Osmar Dias em favor do mandato de Requião, a dos acampamentos de sem-terra, e magistério no governo democrático, o maior de todos, de José Richa.
Uma pauta nada confortável para quem curtiu a amenidade de outras paragens estava colocada: além desse desconfortável problema com os sem-terra, no qual o governo tem parecido privilegiar os fazendeiros, tanto que nada fez contra a Klu-Klux-Klan da Fazenda Saudade (e seria pedagógico, no mínimo, a prisão de alguns daqueles arrogantes personagens que por insistirem numa luta de sinais alegóricos acabaram perdendo o terreno que dominavam, vitória de Pirro porque foi volátil demais para justificar a patriotada de posar na televisão) e que tenta safar sua imagem de riscos maiores.
No caso das invasões, o governo não errou apenas em jogar o fiel da balança a favor dos proprietários na partilha repressiva, mas de praticar o fair play, jogada de risco que no governo Requião deu origem à intervenção federal da fazenda Can-Can, e a tragédia de Campo Bonito, enquanto as ocupações se sucediam em escalada afrontante e as ordens judiciais, em número superior a 40, não eram cumpridas. Criou, portanto, um caldo de cultura para os abusos, que, com a acumulação de tensões psicossociais e políticas, se tornam cada vez mais difíceis de contornar.
Obriga-se, pois, a uma reavaliação de todo o processo, embora tenha mostrado disposição em buscar soluções negociadas. É uma ingenuidade, falta de firmeza nas decisões, quando a preocupação de saídas politicamente corretas se sobrepõe ao império da lei. Obviamente há um fato social na questão da terra, mas sua politização mostra que a oposição joga todas as suas cartas num incidente e na criação de vítimas e mártires. Tanto que essa mobilização., inteiramente postiça, para uma convergência de oposicionistas, dos sindicatos e do basismo em frente única, não passa de demonstração de impotência endêmica para revelar alternativa a FHC (e no Paraná, a Lerner), ainda aureolado com elevadas taxas de credibilidade. Não têm propostas a não ser cacoetes nacionaleiros e patrimonialistas, inajustáveis ao mundo moderno, e, o que é pior, com os mesmos atores, indissimuláveis na filosofia do atraso.
IRONIA Roberto Requião é inquestionavelmente, depois de Lerner (já que reveza em segundo lugar nas pesquisas com Álvaro Dias), a maior força eleitoral. As duas chapas que concorreram ao diretório municipal do PMDB levavam seu nome como homenagem sincera até porque inexiste esperança fora dele. No frigir dos ovos, tanto ele como o irmão Maurício não pegaram sequer a condição de delegados da 177ª zonal.
Aborrecido com o revés, declarou-se afastado do partido em Curitiba que várias vezes historicamente o contrariou, inclusive quando desejou impor um dos irmãos como candidato a prefeito (Eduardo) e perdeu não sabendo sequer se apoiava ou não o pastor Elias, que levaria a pior para Max Rosenman.
Não existe em política o domínio incondicional. Em passado distante, desejou Stênio Jacob para vice e perdeu para Zé Maria Corrêa, agora também eleito e talvez contra a vontade dos Requião.
BIZARRICE Se a chapa oficial sair com Lerner para governador e Greca para o Senado, os deputados que precisam votos no interior não terão alternativa que não a de levar o jingle da primeira campanha do coração curitibano. Já dá para imaginar o sujeito de Peabiru, de Formosa do Oeste, de Tamarana, cantando o coração curitibano é... é o nosso coração. Essa dá enfarte na certa.
SPRAY Tentativa de negociação com sem-terra ontem à noite na Prefeitura de Curitiba buscou operar como pára-choque.- Governo tem pouco espaço para negociar com a justiça a liberação dos presos, já que há delimitação de prerrogativas.- Estudo da Universidade Federal mostra que a poluição atmosférica em Curitiba é muito mais grave do que possamos imaginar. Inclusive alinha efeitos patológicos no organismo.- Pontos agudos de poluição em Curitiba: terminais do Pinheirinho, Portão e Novo Mundo, Cidade Industrial.- De 27 a 31 deste mês, cursos no Senac: Como encantar o cliente, Marketing pessoal e etiqueta empresarial, Cozinha regional espanhola e Técnica na variedade de massas, das 19 às 22 horas.- Para o turismo, um curso aos taxistas também, de 27 deste mês a 21 de novembro, pela manhã, das 9 às 11 horas.- O vereador Jorge Samek é agora do Conselho Editorial da publicação Teoria e Debate, do PT. Credenciou-se com o seu livro sobre o desenvolvimento urbano de Curitiba.- Petistas que agem a reboque de Requião estão inconformados com uma tendência crescente no partido em buscar a candidatura própria. Cheida é o nome mais forte e reclama o mínimo: uma proposta à imagem petista para o governo. Isso não é difícil, desde que se renuncie a toda utopia regressiva. O povo não a tolera.-
FOLCLORE No jornal do deputado Romanelli, ele destaca uma frase de Requião a seu favor. Ocorre que, depois da eleição do diretório municipal, o senador deu um piche naquele que elogiou e que montou a chapa com Pedro Longo. Como alerta o jornalista Caco Lacerda, amizade, especialmente em política, é como bula de remédio: tem prazo rígido de validade.





