Nelson Rodrigues costumava dizer que o pior do tapa na cara não é a dor, mas o estalo, a sonoplastia. Uma forma suave de desafio era o de tocar com a luva o rosto do adversário: em seguida escolhidos os padrinhos e marcado o duelo. Atrás da Catedral seria impossível: o cheiro de urina achincalhava o cenário.
Quando o furúnculo do golpe ainda não lançara seu carnegão e o pus nas instituições em 1964, mas latejava, tivemos uma situação difícil: o jornal ‘‘Última Hora’’, dizia, em manchete, que o deputado estadual Leon Peres era contrabandista de café. Este, indignado com a calúnia, perdeu a linha, como era próprio dos udenistas, e pretendeu que as credenciais de repórteres legislativos daquele jornal fossem cassadas pelo presidente da Casa, Agostinho Rodrigues. Houve um debate no Canal 12, mediado por Rafael Iatauro, entre o deputado e eu, como representante dos jornalistas. Levei a pior porque me empolguei, mas antes do debate Leon Peres ofereceu a mão para cumprimentar o jornalista Adherbal Fortes na sala, antes da entrada no estúdio, e o coleguinha a recusou, recebendo um empurrão do parlamentar que foi respondido, no ato, com um tapa sonoro que quase levou o homem a nocaute.
Mais tarde, em 1971, como governador, Leon Perez viajou a Londrina e resolveu demitir o reitor da recém-fundada Universidade, Ascêncio Garcia Lopes, e ao visitar o prefeito, Dalton Paranaguá, lhe comunicou da decisão.
á- ‘‘Prefeito, estou lhe comunicando que vou demitir o reitor da Universidade e para isso exijo o seu apoio’’.
- ‘‘Governador: não demita só o reitor, aproveite o seu poder e me afaste da Prefeitura de Londrina. Ou melhor, demita o reitor e designe alguém para assumir a Prefeitura de Londrina, pois renunciarei imediatamente’’.
Hélio Duque, que me conta a história, conclui: ‘‘Leon Peres retirou-se acabrunhado. Dalton continuou prefeito, Ascêncio continou reitor. Meses depois, todos sabem o destino de Leon Peres’’.
Esse, um tapa de luva de pelica, outro, um da pesada, dos momentos tensos que prenunciavam o golpe e com aquele detalhe da sonoplastia. Verdade seja dita: Leon não perseguiu Adherbal, mas toda a organização em que trabalhava, o Canal 4, da TV Iguaçu, de Paulo Pimentel, que encarou esse lado da ditadura.
BIZARRICEDe tapas há uma estória incrível da boemia curitibana: um sujeito, metido a bolinador de sessão de cinema, ficou ao lado de uma garota e mal a luz apagou foi lentamente passando a mão nas coxas da vizinha e levou uma bolachada que todos os presentes ouviram. Em seguida ao silêncio, o bolinador nem se tocou e disse em voz alta: ‘‘Isso é por ora. Lá em casa tem mais’’. E se mandou antes que a luz acendesse e o guarda aparecesse. Dá para imaginar o drama da mulher que também se arrancou na cumplicidade da escuridão para não enfrentar o pior: o deboche dos curitibanos.
SPRAYGoverno estadual acompanha, sessão por sessão, a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado e mostra o comportamento da nossa bancada relativamente a empréstimos.- Um deles em favor do Rio Grande do Norte, nesta semana, foi aprovado com Osmar Dias na presidência da CAE, presente igualmente Requião.- Outro da Bahia teve o voto favorável de Requião, e Osmar ausentou-se da sessão. Detalhe: o Banco Central havia dado parecer contrário.- Também no dia 14 foi aprovado um da Paraíba (voto favorável de Requião) e outro do Mato Grosso do Sul (neste Osmar e Requião estavam ausentes).- Por essas e por outras é que foi tomada a decisão de que senadores de Estados interessados não sejam mais relatores.- Mas Osmar Dias marcou sua presença com o discurso forte sobre a miséria e alimentação: ‘‘Se tomarmos 1,2% das propriedades agrícolas do Brasil, elas detém 44% de toda a área explorável do nosso País’’. Mais adiante: ‘‘1% dos brasileiros detém uma renda per capita de US$ 52 mil por ano, enquanto que 50% dos brasileiros têm uma renda per capita menor, de US$ 700 por ano; e, pior ainda, aqueles miseráveis que não comem têm uma renda per capita inferior a US$ 365 por ano’’.- Um dos pontos agudos da oratória foi a questão da viabilidade das pequenas propriedades, que são hoje 5 milhões, das quais 3,2 milhões praticamente inviabilizadas.- De pouco adianta, diz Osmar, assentar 60 mil famílias, quando o número das que abandonam o campo é muito maior.- Desde ontem, no calçadão em Londrina, o semanário ‘‘Impacto’’, que mostra na capa em charge, como mosqueteiros, políticos da cidade. Em Curitiba, a matéria de maior repercussão foi a dos cheques sem fundos do Ricardo Gomyde. Já tivemos até senadores nessa especialiade, afinal um risco maior em tempos não inflacionários.- É correto um corretor, Rodrigo, irmão do deputado Albanor Gomes, ir para a Corretora Banestado? Desde que se afaste da corretora particular, tudo bem. Aí passa a ser solução técnica e política.-
FOLCLOREEm plena guerra, 1944, era delegado de polícia em Londrina o advogado José Luciano Andrade, médico legista Justiniano Clímaco da Silva, o primeiro mineiro, o segundo baiano, ambos negros. Num dia, um crioulinho invade o quintal de um nipônico (o Japão estava no ‘‘Eixo’’ com Alemanha e Itália) para confiscar três tomates e é perseguido e ferido por um cão de guarda. Atendido por Clímaco no hospital, o médico avisa o delegado que por sua vez manda prender o japonês. O advogado do réu diz não ver razão para a prisão do cliente. Resposta do delegado: Engano, doutor. A vítima é negra, o médico é negro e o delegado sou eu, negro também. Seu cliente entrou numa fria.

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