Luiz Geraldo Mazza
Essa história da abertura dos protocolos das montadoras parece não ter fim: o governo paranaense, suscitando preferência para justificação oral, conseguiu transferir a decisão do Órgão Especial para o próximo mês. Até lá, a Comissão de Assuntos Econômicos, através do grupo que avalia a guerra fiscal, pode determinar que todas as unidades mostrem seus respectivos contratos com os investidores.
Embora o governo tenha boa parte de culpa, ao não responder com um mínimo de eficiência os pedidos de informação do Banco Central, fica visível que o Senado, como instituição, trata desigualmente o Paraná. Basta ver que estados falidos, em situação mil vezes pior do que a nossa, recebem o aval para emissão de letras e operações de crédito (Paraíba, Bahia e Rio Grande do Norte foram os mais recentes) sem qualquer dificuldade.
Seja qual for o conteúdo dos protocolos, o governo se mostrará tranquilo e a oposição excitada, mesmo quando verificado que as concessões do Rio Grande do Sul (à GM, especialmente) foram mais graves, conforme acentuou um parlamentar do PT gaúcho que foi trazido até aqui para ajudar a atarantada bancada e que, por sua honestidade, levou o grupo a mais uma derrota.
Resta saber quem se desgasta mais: se o governo, que poderia há muito tempo ter mostrado os detalhes das operações, ou a oposição, que certamente nada acrescentará ao seu triste repertório. Agora só falta haver mais suspense, quando do julgamento, com algum desembargador pedindo vistas do processo e transferindo o exame para mais distante oportunidade. Que as concessões são indevidas o próprio Ipardes, órgão de planejamento, o admite quando afirma que mesmo que não houvesse renúncia fiscal, as montadoras viriam até nós. Repete, enfim, o que disse o economista norteamericano Lester Thurow. Só que o profeta do capitalismo ignora as especificidades do nosso federalismo e que estimula justamente a guerra fiscal, mais um front dentre tantos de privatização dos recursos públicos.
CAIPIRA Recebo de João Baptista Ribeiro Machado, cartorário em Cambará, o primoroso Dicionário do Dialeto Caipiracicabano de Cecílio Elias Netto e que conta com a ilustração do nosso querido Douglas Mayer. A dedicatória é a FHC, que fez alarde da resistência caipira às reformas: Para Fernando Henrique - que não é caipira - ler em suas viagens a Paris.
Antena parabólica é paranóica; assombrá porco significa não chateia, não aborreça; assentá quer dizer se ajustou, passou a comportar-se.
Barca furada está assim descrito: Tudo o que não dá certo é barca furada, especialmente seguro saúde. Vejam agora como é tratado o jacu que aqui rendeu briga política. Em Piracicaba é matuto, caipirão, que não tem o requinte caipiracicabano: Quando o ex-governador Orestes Quércia aparece na televisão, dizendo-se caipira, piracicabano fala: De caipira, ele num tem nada. Ele é memo um jacu.
NA RUA Como imagina que metade da população está na rua, desempregada, o PT, com o velho hábito da esquerda de curtir a sinistrose, aposta todas as suas cartas nos movimentos de rua. Até aqui, o Reage Paraná, daquela área que coloca o partido a reboque de Requião, tocado por sindicalistas e que visa unir-se aos sem-terra no dia 24, teve resultados pífios, menores ainda do que os inúteis e primários protestos contra a venda da Vale do Rio Doce, para os quais a população não deu importância.
Joga, também, na hipótese das greves de bancários e petroleiros, cada vez com menos expressão como saída. Quando houver crise mesmo, recessão pra valer, a população não vai esperar o PT, com sua exaltação do arcaísmo (defesa de estatais e de corporações de funcionários), para manifestar-se: vai à luta, como fez nas diretas, na derrubada de Collor e em tantos outros episódios. Junto com o PT, mas não por ele induzida.
BIZARRICE Nas manifestações de hostilidade a Clinton, um manifestante pró-cubano acabou perdendo dois dedos ao soltar um rojão. Um rojão naquele jogo Brasil-Chile fez a glória de Rosemary em pleno Maracanã. Neste outro evento ficou demonstrado que a esquerda radical não sabe mais soltar foguete.
SPRAY Intervenção federal em Maringá por causa de precatórios. É a arte de empurrar com a barriga as dívidas.- Discurso forte de Osmar Dias anteontem ao Dia Mundial da Alimentação: Uma vaca, na União Européia, recebe em subsídio o que a maior parte da população brasileira não tem de renda per capita. -
Abertura da Rua do Rosário no setor histórico e agora a da Alencar Guimarães, em Curitiba, passam a ser olhadas como o desmonte dos calçadões que o povo não vai admitir de forma generalizada.- Tese de Algaci Túlio de que a chapa não pode ter um curitibano na cabeça (Lerner) e outro no Senado (Greca) é muito bem craneada e é uma vacina contra a exploração Capital versus Interior, aliás trombeteada no pleito municipal e que pegou, ainda mais com a maior parte dos investimentos industriais se dirigindo à Região Metropolitana. Trata-se de raciocínio cartesiano, incontestável, mesmo que se leve em conta que Rafael poderia ser o guerreiro adequado para enfrentar Requião e Osmar Dias.-
FOLCLORE Se houver intransigência nas negociações com sem-terras, o governo não lhes poderá oferecer o Parque dos Tropeiros, na entrada da cidade, e corre ainda o risco de transformar o Centro Cívico em parque das tropelias.





