Luiz Geraldo Mazza
Quase toda a imprensa do Paraná transcreveu o tópico de abertura desta coluna de anteontem, sobre a necessidade imperiosa de uma autocrítica do sistema, tese que venho defendendo há mais de trinta anos. O fato de o sindicato patronal ter tomado essa providência, mesmo que não signifique uma posição clara de reversão comportamental, o que não é fácil diante do fato de que há uma cultura sedimentada, tem o sentido de metalinguística: ao haver a reprodução do texto foi dado um passo concreto de autocrítica.
A rigor essa cobrança deveria ser feita pelo público. Tal qual aconteceu quando esta Folha decidiu apoiar Requião diante de dois candidatos do Norte, Richa e José Carlos Martinez, e boa parte dos leitores pleiteou o cancelamento de assinaturas. Foi um recado de que o jornal não pode sobrepor-se ao leitor, embora tenhamos a tradição da seção de cartas, ponte indispensável desse contacto e uma forma de rechaçar o veículo quando este se torna engajado, o que é discutível, mas um direito inegável da soberania da organização.
Estamos amadurecendo para a democracia. Ao longo da história recente predominam os ciclos autoritários e uma ou outra esteada de liberação como a que vivemos no momento. As dores do parto da democracia que todos preferem pela via psico-profilática, isso é sem dor, estão aí: alguns a querem a ferro, fórceps, ou por via cesariana (nos dois sentidos) e outros, que defendem a liberdade com a exclusão do outro, esquecendo a lição de Rosa de Luxemburgo e as reflexões de Anna Arendt, são de tal forma impulsivos, em sua ânsia de suposto amor à democracia, que a sufocam com seus afagos.
Democracia não é apenas um regime político, embora muita vezes colocada na boca dos ímpios. É, como lecionava Munhoz da Rocha, uma concepção de vida, indispensável à dignidade do homem que precede o Estado, criação sua, e que por isso, paradoxalmente, não pode ser dele um cativo como no Leviatã de Hobbes. Essa é uma luta diária, construção rotineira.
Quando o público for educado, essa uma das promessas não cumpridas da democracia na concepção de Norberto Bobbio, os meios de Comunicação Social terão um convívio mais interativo com a sociedade. E haverá menor possibilidade da prática da arrogância, uma das nossas patologias, cacoete profissional, e também de espaço para tiranos verdadeiros ou de opereta.
BIZARRICE Lerner na Ucrânia: ecologistas estão dizendo que ele vai dar um pulo até Chernobyl para precaver-se contra os efeitos da termelétrica do litoral.
A propósito disso, uma observação: pior do que a chuva ácida futura é a tempestade fecal do presente em toda orla. Se seguirmos as normas da OMS e critérios mínimos de balneabilidade das praias, as nossas todas, da Barra do Say até Pontal do Sul, seriam interditadas, se examinada a concentração de coliformes por mililitro.
VELHO CACOETE Uma das deformações da esquerda tem sido a do oportunismo e a da confiança no golpe. Membros do Conselho Municipal de Saúde mandaram aos jornais um fax em que teria sido aprovada resolução condenando o Programa Municipal de Publicização e com o conhecimento do próprio secretário João Carlos Baracho. Tudo empulhação e contrainformação (e que tira a moral dos que honestamente alinham razões contra a terceirização de serviços públicos), já que o assunto sequer foi examinado e a antecipação é desonesta e prova de que os interessados não confiam na força dos seus próprios argumentos.
Tratava-se apenas de uma proposta, mas a forma era para confundir.
SPRAY Banestado, agora uma briga de foice no escuro na Corretora por causa de cobranças políticas. Eis um setor em que as razões técnicas devem prevalecer para não se espalhar a síndrome da Leasing.- A Lapa imitou o Paraná e derrubou o Fundo de Pensão dos funcionários municipais. Agora só falta acertar o terreno para a Casa Blanca (para quem o Banestado recusou empréstimo por falta de cadastro, e depois relaxou) e que pertenceria ao espólio da sogra do prefeito.- No fim dos anos 50, o presidente da Copel, José Lupion, caiu porque haviam denunciado que as linhas de transmissão passariam por áreas de sua propriedade. Parâmetros morais do passado eram menos flexíveis do que os de agora.- Vejam essa: dos 187 municípios do Paraná com menos de cinco mil habitantes na área urbana, quatro não tiveram nenhuma arrecadação do IPTU, três cobraram menos de R$ 1 per capita/ano e só 18 arrecadaram acima de R$ 11,65 per capita/ano. Descoberta do Paranacidade, paradigma de publicização do governo estadual e na qual Cássio Taniguchi parece se espelhar.- O alerta é para mostrar o desprezo por tributos que poderiam desafogar as gestões. Também com o ISS são poucos que alcançam médias razoáveis de arrecadação. É preciso ir além do diagnóstico do óbvio.- O senador Requião teve negado (e sugerido o arquivamento) o seu pedido no STF de abertura do protocolo da Renault pelo ministro Otávio Galloti. Pelo jeito, isso vai dificultar o pedido, tanto do senador quanto do PT, tratando do mesmo assunto, a ser julgado amanhã no Órgão Especial.- Quem falar contra Lerner em Foz do Iguaçu é exorcizado. A cidade teve algo sem o qual não se pode viver: esperança. Os Jogos da Natureza criaram esse clima, embora a taxa de ocupação hoteleira esteja muito baixa.-
FOLCLORE No Palácio Iguaçu há pessoas que até apelam ao portunhol para o seu culto diário ao deus ausente: Para El Ni¤o, tenemos El Lerner.
AFORÍSTICO Aníbal Khury é o sujeito oculto da lógica legislativa: da aprovação ao veto, da inconstitucionalidade ao decreto que revoga a lei.





