Luiz Geraldo Mazza
Já não se pode dizer, como afirmava Dalton Trevisan, sem qualquer espírito de maldade, que na Legendária basta encostar a cabeça no chão que se ouve a grama crescer. A Lapa viveu ontem um dia inusitado: acomodada como Curitiba às conveniências do poder, viu-se diante de uma denúncia em cima da modernidade, induzida por Lerner, a de facilitar terreno para a Casa Blanca Forest, e que pertenceria aos familiares do prefeito. Isso apareceu no debate em torno da extinção do Fundo de Previdência dos Servidores Municipais que daria a grana para a aquisição do terreno da sogra do burgomestre.
Como esta Folha publicou o tema, um vereador da banda chapa branca, de nome Alfredo Klen Júnior, teria saído pela cidade a angariar os exemplares do jornal para evitar que a população dele tivesse conhecimento. Isso não deve encabular ninguém porque cansei de ver situações bem parecidas em Curitiba nos tempos da Última Hora.
Como a elite normalmente era poupada em situações de escândalo ou qualquer constrangimento, UH se divertia a valer: lembro, por exemplo de um caso, aliás requentado, da descoberta, cheia de espanto e perplexidade, de que mocinhas da classe média davam e que participavam de bacanais com o prefeito da cidade, gerentes de banco, figurões e que havia ainda uma suspeita de vinculação com o lenocínio. Isso se deu nos anos 50, imaginem o atraso!
Os clubes de desquitadas apareceram em Curitiba 40 anos depois de habituais no Rio e São Paulo, o existencialismo de Sartre chegou junto com a marchinha de carnaval Chiquita Bacana, porém só levou interesse ao debate público lá pelos anos 60, quando Jean Paul andou fissurado com Fidel Castro e a Semana de Arte Moderna está ainda restrita a circuitos fechados. Nada demais, pois, que o aggiornamento comportamental surpreendesse. Botaram o Alcidino Pereira, de forma preconceituosa no noticiário, porque um galã de plantão, e foi o suficiente para que o jovem saísse com uma kombi adquirindo em cada banca todos os exemplares do jornal. Só que os satânicos da UH o tapearam e pediram um reforço em mais uma tiragem, aquele tempo transportada de avião.
A Lapa se modernizou, e tanto que o Sérgio Leone, que não é aquele diretor italiano, mandou um recado para os que o traíram na última eleição com o rigor de um aforisma romano através de um outdoor, como se tivesse incorporado o espírito de Sêneca e Suetônio. Não tem por que mostrar-se introvertida quando Curitiba lhe ganha a palma e facilmente. E exerce, com exuberância, algo que aqui não se pratica: a democracia e em cima da denúncia.
O que fazemos com extrema dificuldade no caso das montadoras.
A ESTÉTICA DO FEIO Parece uma contradição, em termos, falar-se de uma estética do feio. Mas ela existe e parece que os sem-terra são seus maiores cultores. Os preconceitos do Stédile contra a Débora, ao ponto de, por vê-la aparecer em telenovela e no Sílvio Santos divulgar, com a compulsão de um alcoviteiro, que ela está se prostituindo. No duro é o horror ao belo, tão magnificamente expresso na bela mulher que não abriu mão de suas convicções e nem traiu o movimento ao sentir-se descoberta pela mídia.
O MST é em tudo a celebração do feio: o caótico dos acampamentos, a lona preta, afinal expressão do provisório, outra imagem indesligável até para manter o culto melodramático bem ao gosto da nacionalidade. É claro que para eles, as vilas rurais do governo Lerner, com aquele ar de presépio, o tom de foto de calendário, são a expressão do conformismo burguês e que talvez dê o prêmio ao governo paranaense na promoção das fundações Getúlio Vargas/Ford.
Qual o segmento popular, da marginalidade, a que se dirige o projeto do Rafael Dely: o bóia-fria, que não está obviamente organizado como o MST, que em muitos aspectos é o maior movimento social da América Latina. Ora, o bóia- fria, antes chamado volante do café , conforme a taxonomia de Lebret, é, no caso paranaense, um drama humano pesadíssimo. O governo Lerner vai assentar nessa perspectiva burguesa, bonita, ajeitadinha, nas 360 vilas rurais nada menos de 15 mil famílias, 6 mil a mais do que as dos sem-terra que brigam no Paraná por um espaço.
Combate à penúria e à feiúra pode ser sincrônico porque nela não há duas coisas: nem ideologia, nem demagogia. E há muito tempo os bóias-frias também marcham por nossas estradas, em cima de caminhões de exploradores, açulados pelo gato que gigoloteia a sua mão-de-obra e em escala familiar.
Doutrina Joãozinho Trinta, o carnavalesco, que conhece a favela e portanto a miséria, que quem gosta dela é intelectual, o povo é do luxo e por isso está com a Débora e não abre.
BIZARRICE Falar difícil era com aquele parnanguara: tentava subir na escala social pelas expressões pernósticas e refinadas. Numa reunião com oficiais da Marinha, não teve dúvidas em declarar que as nádegas das filhas eram as mais rosadas do mundo. Queria referir-se às maçãs do rosto.
FOLCLORE Se houver uma chapa curitibana - governador e mais um senador - haverá quebra séria da correlação de forças e oferta de um argumento de primeira à oposição atarantada. Rafael Greca é o intelectual, mas nessa o Algaci Túlio tem sobra de razão. O raciocínio é áspero, verdadeiro, incontestável.
CROMO Está aí El Ni¤o, mas o sabiá e o joão-de-barro não param de cantar.
AFORÍSTICO Requião se declarou ligado ao MDB: não pertenceu aos seus quadros e, ao afirmá-lo, apenas revelou um desejo não realizado.





