Políticos, de um modo geral, já que as exceções confirmam a regra, não passam de ‘‘corretores da esperança’’. O pior é que, conforme o nível de maturidade cívica, acabam transformando a população em cativa das suas prestidigitações, normalmente centradas em expectativas que jamais serão cumpridas. Essa cultura é que impede maiores avanços democráticos com os mandatários sugerindo que são favoráveis ao Estado-albergue que mais provê do que prevê, a glória da cesta básica, prioridade um imposta nos acampamentos de sem-terra.
Como pensar o Estado moderno em meio a tantos vícios, alguns deles de raiz ibérica e católica (o lucro como pecado, a riqueza como ostentação, apesar de todo o luxo do Vaticano e do seu banco, o patrimonialismo), impregnando as nossas instituições?
SAÚDE Na tramitação da lei sobre planos de saúde percebeu-se, em primeiro lugar, o exagero de atender tudo o que as seguradoras pretendiam em termos de óbvias vantagens, mas como vivemos na sociedade do espetáculo, o governo interveio para posar de politicamente correto e começaram as correções e agora caímos em outro extremo, o de dar tudo para o usuário. Como é impossível dois corpos ocuparem o mesmo espaço, axioma físico, é inviável fazer partilhas sociais em que todos saiam ganhando ao mesmo tempo.
Outra pulsão nossa é a de acreditar na imanência da lei, isso é a suposta força de transformação que ela teria. Ficou manifesto na Constituição Cidadã de 88 através de muitas bobagens, demagogias, como a dos juros de 12%, que pretendia impor ao mercado minado pela inflação tamanha bobagem e tantas outras que vinham aureoladas como norma auto-aplicável. Ou o disparate da Constituição estadual que impõe, entre disposições transitórias, a ponte sobre a baia de Guaratuba.
DELÍRIO Pois deputados bem intencionados, mas viajando em outra galáxia, em número de 25, querem que 60% do Banestado permaneçam de propriedade intocável e inalienável não em caráter público, porém estatal. O desconhecimento de normas que regulam as sociedades com essa característica é de pasmar: esse projeto de resolução tem meros efeitos declaratórios e não atributivos de direito e é, portanto, como um ato juridicamente inexistente.
Imaginem em São Paulo tentarem algo como isso relativamente ao Banespa. Claro que não ‘‘cola’’, embora gere expectativas e acalente a fantasia de políticos que exploram o banco de todas as maneiras, seja eleitoralmente, seja através de sua contumaz inadimplência nos empréstimos que não honram. O novo modelo, imposto pelas reformas, manda, de forma imperativa, que se privatize todos os bancos estaduais, fábricas indiretas de moeda, incapacitadas à competição pelo torpor burocrático, a pobreza instrumental e os vícios inevitáveis da prática do clientismo mais sórdido, como se viu recentemente na Leasing.
SOLUÇÃO Melhor solução para mantê-lo público é ainda a do governo estadual que dele faria o suporte do Fundo de Pensão do funcionalismo estadual, tirando da folha de pagamento os dispêndios com pensões e aposentadorias, que aliás carecem de ampla revisão pela prevalência dos privilégios. A grana não é da unidade, banco, mas do governo, sua clientela-cativa primeira. Preservados os direitos da Fundep, fundação dos banestadentes, estaria tudo resolvido, desde que se obtivesse da União um afrouxamento, ao menos temporário, da exigência de o governo cobrir metade dos R$ 1,9 bilhão para a operação saneadora.
O resto é delírio, surfar na maionese, criar expectativa falsa apenas para enganar supostos beneficiários e flutuar na mídia como samaritano. Cumprir, enfim, o ritual dos ‘‘corretores da esperança’’, que na ânsia de distribuí-la, tornam o ato de fazer omelete sem quebrar ovos uma rotina.
COPEL-JANUS Ninguém no Paraná falou tanto em Janus, o deus romano que tinha duas faces, como Álvaro Dias. Pois agora descobrimos que a Copel incorpora rigorosamente o sentido daquele simbolismo: recebí uma correspondência datada de 30 de setembro daquela empresa, do seu setor de Promoções e Defesa do Consumidor, reafirmando que ela aguarda o RIMA da Fundação Universidade Federal para decidir se toca ou não a usina a carvão e ao mesmo tempo leio que o Banco KFW, estatal alemã que investe US$ 13 milhões em projetos ambientais no litoral, recebeu, no dia 11 de setembro, a garantia de que não tinha qualquer projeto nesse sentido naquela área do Paraná. Essa da Copel é de eletrocutar, um curto-circuito nas relações até internacionais.
Copel, duas caras como Janus. Aliás esse traço esquizóide já está no seu ajuste rápido às parcerias do novo modelo energético, em que a empresa abre mão daquilo que é patrimônio público, tal qual se vê na concessão que era sua de Salto Caxias.
FOLCLORE Algaci Túlio, prefeito em exercício, cortou o embalo de Rafael Greca que estava de turbinas ligadas para disputar o Senado. Tese: não é crível que, depois do divisor de águas (capital-interior) havido no pleito municipal, se faça esse jogo de montar uma chapa dominantemente metropolitana.
Greca não gostou e disse que estava ‘‘de mal’’ com Túlio, razão pela qual não foi no lançamento de ato, anteontem, ligado ao ‘‘Linhão do Emprego’’.
CROMO Hiberna na foto em sépia, Curitiba de ontem: a tartaruga imensa na porta da petiscaria, anunciada pela manhã como a sopa do fim da tarde; turistas posavam no casco do animal para um clic. Não havia Ibama, e carne de jacaré era um dos pratos mais fortes. Paca tatu, cotia não.

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