Os sem-terra vão ocupar o Centro Cívico outra vez. Houve até um informe no sentido de que precipitariam a ocorrência, para este sábado, o que a rigor poderia até ser feito com relativa facilidade pelo fato de haver ali naquela praça a barraca dos barnabés, os sem reajuste. Na gestão Richa, a mais democrática que tivemos da abertura para cá, eles permaneceram durante meses acampados ao lado, aliás, dos professores, estes com barracas modernas e de griffe. Prova evidente de que os próprios atores, como na tragédia grega, se incumbem de reprisar os fatos diante da imponência dos fados.
Em ‘‘Os Dezoito Brumário’’, de Karl Marx, há a referência ao axioma de que a história se dá originalmente como tragédia e se repete como farsa. Seria inimaginável no regime militar a liberdade de movimentos dos sem-terra com as suas alegorias focais que no filtro da Lei de Segurança, ainda mais com o fato notório de que recebem dinheiro do exterior, seria enquadrada como guerrilha, o que está longe de ser, embora assim seja entendida, por motivos óbvios, pela UDR, a Federação da Agricultura e demais entidades do patronato.
BANALIZAÇÃO Como lembrei ontem, a entropia é fatal e a degradação do significado desses atos de rua se mostra muito mais rápida do que se imagina. É aquela fábula dos monges vietnamitas se deixando imolar pelo fogo nas ruas e que no início provocam horror e depois saem das primeiras páginas para os ‘‘potins’’ das colunas de curiosidades. Vira uma insuportável chatice. A própria violência, traço cultural hoje globalizado, banalizada ao extremo tanto na realidade como no universo virtual da televisão e do cinema, nos desumaniza, nos transforma em cumplices reacumuladores do processo.
Admitamos que a questão da terra é uma violência endêmica nesta sociedade com sinais ainda do feudalismo, a despeito da urbanização e dos sinais fortes de fatores pós-industriais. A reforma agrária deveria ter sido pré-requisito do capitalismo, como numa certa medida ocorreu no Norte paranaense, onde a pequena propriedade no café era rentável, como fator que ia bem além da subsistência, e permitia mobilidade social, visível na transformação do meeiro, do agregado, do percenteiro em proprietário. Hoje é imposição mais social do que econômica e isso também por algumas décadas, de vez que será imperioso, aqui também (e a China já começa a mostrar sinais nessa direção) a redução drástica da população no campo.
O REPETECO Apesar da repetição, casos como o de Corumbiara, Eldorado de Carajás e o nosso de Campo Bonito (este mais significativo do que os episódios recentes do Noroeste, conquanto menos do que os de Porecatu de 1951 ou do Sudoeste, em 57) têm a marca da tragédia. Apenas a banalização é que os torna degradáveis no tempo: quem se lembra do seringueiro Chico Mendes e que também, apesar do mito, não se elegeu vereador em Xapuri?
O governo tem pouca flexibilidade para impedir o acampamento. Nem dona Emília Belinati o faria, como aliás se recusou a fazer os despejos, e Lerner também não tem perfil repressor. O acampamento pode não dar os frutos esperados pela oposição no empenho em desgastar o governo e até o transformar em vítima, o que é outro cacoete da alma nacional, desde que não passe por agressor.
Batalha de ruas, ainda mais com a UDR ameaçando carreata até o Palácio Iguaçu para também colocar suas demandas, é um caminho de risco para os dois lados porque, a despeito de todo o fair-play da moda, de repente a casca de ovo desse sistema que aí está é rompida, e o passo da alegoria e do blefe para o conflito sangrento é curtíssimo.
BIZARRICE O governo não tem recursos efetivos para concluir em tempo hábil o Fórum (que aliás desfigurou arquitetonicamente o Centro Cívico que pelo jeito está com seu Plano Diretor à deriva) e, como se não bastasse, a OAB está com posicionamento diverso ao do TJ para aquelas instalações. Se de toda discussão nascesse a luz, o papo sobre a termelétrica do litoral seria suficiente para dar excesso de energia.
SPRAY Ecologistas desmascararam a Copel: ao banco germânico, KSW, que investiu milhões de dólares na proteção do litoral, ela garantiu que não haverá mais a termelétrica a carvão, mas as providências nessa direção continuam, inclusive com indicação de área para o aterro sanitário das 300 toneladas diárias de resíduos.- Imagem de Lerner como ecologista vai para o beleléu se for mantida a idéia da termelétrica, mesmo que equipada de toda a tecnologia protetora do meio ambiente.- Luiz Alberto de Araújo, ex-prefeito de Toledo, encaminhou ao ministro Raul Jungmann Pinto proposta de apoio à reforma agrária na condição de implantador pioneiro do sistema de proteção de microbacias. Alinha-se entre os que defendem a municipalização do processo.- Dia 14 há eleição para a direção da Associação Brasileira de Mulheres de Carreira Jurídica, secção do Paraná. Há duas chapas, o que é saudável, uma presidida Margareth Zanardini e outra por Cleusa da Anunciação Gonçalves.- As mulheres nessa área já ganharam posições importantes (recentemente, Any Mary Kuss Serrano assumiu o Tribunal de Alçada), mas não estão incluídas no TJ bem como também no Conselho da OAB, o que é um absurdo.- Lorena Utrabo Pereira levou a melhor no concurso para a secretaria do Conselho de Supervisão dos Juizados Especiais com nota 8, batendo 60 candidatos.
FOLCLORE É mais do que legítimo defender o caráter público do Banestado, mas não custa nada desprivatizá-lo, isso é, tirá-lo das mãos de políticos, inclusive deputados que o exploram e figuram entre inadimplentes, e também de empresários mal intencionados, como se viu no episódio da Leasing.

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