Luiz Geraldo Mazza
Um dos delírios de nossa esquerda primitiva, que não consegue se libertar da herança populista (getulista, janguista) é o de acreditar na batalha das ruas, como se fosse possível algo como o revival de 68 na França, que De Gaulle, depois de acossado por tanto tempo, detonou com o recurso primário do discurso anticomunista. Em 64 ela se acreditava no poder, que tomara de forma mansa e pacífica tal qual se dá com as ocupações de terras: achávamos que nada nos deteria em nossa ânsia pelas reformas estruturais (absolutamente diversas das que estão hoje colocadas) até que a direita, obviamente beneficiada pela lavagem cerebral contra as esquerdas, fez aquelas marchas de religiosos animadas por pregadores norteamericanos (lembram do padre Peyton?) e pela hierarquia católica (hoje ironicamente fazendo a opção basista) e com isso mobilizou os militares já irritados com o movimento dos sargentos.
Deram um baile: para as 200 ou 300 mil pessoas do Comício da Central respondiam com um milhão no mínimo no Rio, São Paulo, Belô e em Curitiba chegou bem perto disso. Mas os que se acreditam portadores da verdade e que o povo os acompanha não há raciocínio dissuasório porque engolfados na doutrina, que opera com a força da fé, simplesmente não enxergam a realidade. Com todas as grandes marchas, como a dos sem-terra sobre Brasília, o Ibope de FHC caiu muito pouco, embora as evidências de que o Plano Real está fazendo água, a celeridade do desemprego e retração nas compras, o que indica um quadro pré-recessivo. Resumo: FHC mantém altas taxas de credibilidade.
CONVERGÊNCIA Essa marcha dos sem-terra a Curitiba e a outra, ontem iniciada pela CUT para pregar no interior contra Lerner e FHC e depois afluir para a Capital a fim de unir-se à coluna dos companheiros rurícolas, vai ter menos impacto do que a fala de Requião na TV, conquanto a oposição torça para que a síndrome de Álvaro Dias na questão dos professores se repita. O discurso sindical é ainda mais pobre do que o dos sem-terra: não sabem como mobilizar, não mudam o tom da pregação do peleguismo, atracam-se na defesa de privilégios de setores corporativos, não sabem como romper a inércia do imobilismo com a paranóia de perder o emprego e que por isso fogem de assembléias como o diabo da cruz.
Já tentaram, nesse mesmo alinhamento, transformar o desfile de 7 de Setembro, com as brigadas de destituídos, numa espécie de alegoria da pobreza e muito pouco obtiveram. Ignoram que a escassez, ao invés de levar a revolta das massas famélicas, como pretende o Stédile, acaba as conduzindo para as filas de concurso em busca de emprego estável: na de agente do Tesouro Nacional havia pelo menos 50 candidatos para cada vaga.
NA ROLETA O Sérgio Butka, metalúrgico, para aquecer as assembléias da categoria, tomou uma decisão dramática: fazer concurso entre os presentes, obviamente sócios do sindicato, com sorteio de um automóvel. No país da jogatina, onde o batoteiro mor é o governo com loteria, loto, loteca, bingo, o 900 da TV, nada mais acertado para tentar superar o torpor da classe operária que não vai ao paraíso.
Cito sempre um exemplo do risco desse frisson das ruas: o de 1961, quando o prefeito de Curitiba, Iberê Mattos, populista (articulado das cabeça), regeu a resistência ao golpe contra Jango, chegando a abrir voluntariado para que o povão pegasse em armas. Muito discurso, passeatas, emoção, a catarse à flor da pele, e meses depois, candidato a deputado estadual, a despeito do calor revolucionário como uma espécie de clone de Brizola, o autêntico líder da batalha, acabou figurando como oitavo suplente pelo PTB, a despeito de sua boa administração. E três anos depois, as marchadeiras, com rosários à mão, saíram aos milhões na rua convocando os milicos para o golpe.
Antes de pretendermos substituir o povo como representação, que tal ouví-lo? Agora não tentem tirá-la de uma plenária de uma dezena de delirantes.
BIZARRICE Deputados padre Roque, Nedson Michelleti e Paulo Bernardo condenam qualquer chapão que inclua o PSDB. A facção dominante do PT, pretensiosíssima, pois se acha em condições de esnobar no cenário partidário a tucanada, apoiando Álvaro por extremo oportunismo, descobriu fotos do padre Roque e de Michelleti na campanha eleitoral de Luis Carlos Hauly em Londrina com o ex-governador sorridente entre eles. Patrulheirismo tem seu lado pedagógico.
SPRAY Amanhã, 25 anos da Escola Polivalente do Boqueirão, modelo nacional de integração entre escola e comunidade. Eleição em escola só teria sentido em casos assim com efetivo envolvimento dos pais.- Por falar nessa demagogia, que apenas consolida no caso da Universidade Federal do Paraná, o império do baixo clero, uma pesquisa aponta Carlos Antunes, Motorzinho, na frente com 16,84%, seguido de Maria Amélia Zainko, com 10%. Sondagem, de 23 a 30 de setembro, revela 27% de indecisos, na disputa que se abre para reitor.- Depósitos no Banestado subiram, o que revela estar vacinado contra a boataria que tentou quebrá-lo.- Crítico e ensaista Wilson Martins, aqui da terra, recebeu ontem o prêmio José Ermírio de Moraes da Academia Brasileira de Letras. É o homem-enciclopédia premiado.-
FOLCLORE Lerner deve voltar dia 19 em tempo de receber os sem-terra e de trazer fábrica de aviões agrícolas (que pode ajudá-los também) da Polônia. Dizem os áulicos que pode trazer também a Krupp. Agora só falta a oposição sugerir que ele vai trazer um surto de crupe, difteria.





