O MST achou por bem vetar a Débora Rodrigues, aquela que posou nua para a ‘‘Playboy’’, proibindo-a de usar insígnias dessa utopia regressiva (logomarca, boné, enfim a simbologia que caracteriza e abastece de mística o maior movimento social da América Latina, superior mesmo em mobilidade a Chiapas) e que a sua concessão à modernidade põe em risco a unidade da cruzada. Quando a modernidade favorece o MST, como se deu com a novela ‘‘O rei do gado’’, ainda que trocando os emblemas reais por outros mais próximos dos símbolos nacionais, não há contestação.
Segundo Gilmar Mauro, dirigente desse basismo agrário, um ‘‘coletivo’’, (eta linguagem desmoralizada pela história) decidiu essa questão mais no plano político do que no moral, embora haja um tom de puritanismo indisfarçável na questão. Afinal, a resistência ao consumismo pela imposição da imagem do que é frugal e franciscano (ninguém mostrou o lado moderno da SA do MST com suas unidades verticalizadas que inclusive exportam produtos) é algo que serve a uma velha deformação nossa: a compulsão pelo melodramático, daí tentar-se ganhar o apoio à causa dos pobres embaixo das lonas pretas, projeção visível desse processo. Se esse discurso fosse honesto, pelo tempo em que é pregado, não haveria mais miséria no mundo. Ocorre que só é discurso e que se torna adiposo no papo da canalha, rica e egoísta, mas que a ajuda a manter-se no poder.
A Deolinda, corajosa mulher do Rainha, foi ao exterior na defesa do MST e estava vestida com griffe. Não deve ter infringido nenhuma regra e muito menos perdido aquele ar de personagem de Brecht ao aparecer na coluna da Joyce Pascowitch falando sobre perfumes e subjetividades da mulher no consumo. Não deixa de ser uma guerreira e muito menos pode ser olhada como ‘‘alienada’’, como a esquerda dos anos 60 pregava, por estar de bem com a vida e não abrir mão da feminilidade.
Uma das dimensões da mulher é a sensualidade, inseparável de sua unidade e tentar castrá-la, como fazem certas religiões, é uma violência. Obviamente é um tanto quanto vulgar, para os mais duros, aceitar que a mulher, como Débora, exponha o corpo e ganhe algum dinheiro com isso. Proibi-la de usar símbolos do MST é um exagero, pois pior é admitir que os sem-terra, devidamente paramentados e com a bandeira das brigadas, invadam, torturem e matem, como se deu na fazenda Borborema. A não ser que tentem sugerir que essa gincana, de que participam, é uma revolução, uma guerrilha focal. Aí, então, devem encarar as consequências de optarem pela violência com o que perderão também o apoio que hoje desfrutam junto à população.
Passagem mítica de Roma fala em Frinéia (tema de quadros clássicos e poemas como um alexandrino do nosso Emílio de Menezes), a mulher que ia ser condenada por um tribunal quando o seu advogado despiu-a diante dos juízes que, estupefatos em face de tanta beleza, a absolveram. Era a convergência clássica entre ‘‘beleza’’ e ‘‘virtude’’, que ainda aflora no inconsciente coletivo, tanto que não temos santos feios e tendemos a repudiar os heróis que assim se apresentem. Isso explica o sucesso dos bonitinhos na política (FHC, Álvaro Dias, Requião, Collor, Ciro Gomes) e uma das fragilidades dos que não têm cara de ‘‘mocinho’’ como o Lula, que por ter expressão rude de trabalhador, embora não mais o seja, perdem junto aos humildes e ganham com os intelectualizados. Apesar de o Jean Paul Belmondo entronizar o ‘‘feio’’ no cinema, a resistência persiste. Viva a Débora Cristina Rodrigues que pelo menos superou de longe a timidez forçada da Luana, interpretada por Patrícia Pilar na novela global que tanto ajudou a causa.
VITIMALISMOUma das armas que favorece o Requião é o vitimalismo: sua carreira se consolidou em torno disso (vide o desastrado ‘‘impeachment’’ proposto por juízes, a cassação no caso ‘‘Ferreirinha’’ e o mais recente da impugnação do Hélio Duque) e, pelo jeito, as medidas anunciadas pelo governo de processá-lo lhe fornecerão nutrientes.
Pior horror de Requião é com a liberdade do ‘‘outro’’, que Rosa de Luxemburgo defendia como essencial para a democracia no socialismo. Ele abusou do monólogo, da fala do trono, graças às concessões de todos os meios de comunicação no intento de agradá-lo como cliente maior. Não será correto que agora os veículos dos empresários citados (Cunha Pereira e Pimentel) adotem qualquer represália, mas sim que entendam que a questão do jornalismo crítico não pode ser sazonal, circunstancial, mas permanente.
Sem isso não há moral alguma para pleitear a derrubada da Lei de Imprensa, na qual Requião já botou o seu dedo. Pegaria mal fazer sumir o Requião do mapa como o Marcos Formighieri fez com a foto do Lerner lá em Foz do Iguaçu.
Totalitários como Requião olham a liberdade dos ‘‘outros’’ como o Drácula vê a luz ou uma cruz e a cobra pressente o alho. E quando ele esteve no governo, muito poucos exerceram o mínimo de crítica diante dos seus transbordamentos. Mesmo tais deputados, irados com a fala de Requião, entre eles Aníbal Khury, pouco fizeram para detê-lo ou contê-lo quando estava no Palácio Iguaçu.
FOLCLOREQuando Lupion voltou ao governo, o industrial Ivo Leão, titular da Fazenda, anunciou numa reunião do secretariado, em voz baixa, que o Banestado estava ‘‘quebrado’’. Quando soube que havia jornalistas no recinto (eu e o Carlos Alberto Marques, o Gauchinho), pediu reserva. Às vezes a reserva da imprensa é mais importante do que a reserva em dinheiro. Governos, de um modo geral, insistem nessa, o que não é saudável. O que não significa que casos como o da Leasing não devam ser apurados com o máximo rigor.

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