Luiz Geraldo Mazza
Quando o papa João Paulo 2º pediu que se reduzisse o cerco bélico feito a pretexto de protegê-lo, certamente exagerado até para inibir qualquer iniciativa de desestabilizar as festas que marcam a sua presença entre nós, percebeu-se a extensão do estado de anomia (falta de referenciais legais para regular a ordem pública) em que vivemos. O Rio é uma guerra civil permanente não declarada, onde a informalidade prospera muitas vezes com suas malhas se sobrepondo às de ordem legal, dada a vinculação entre o narcotráfico e certas organizações, que usam até o linguajar e táticas de guerrilheiros como o Comando Vermelho e o Segundo Comando.
A população favelada é uma expressão concreta desse processo, bem como a transformação dos traficantes em agentes sociais em lugar dos do governo que simplesmente não existem. Esse pacto, essa cogestão, traduz a anomia. Mas aqui no Paraná temos um exemplo claro disso na questão da terra: uma tolerância, que se escuda numa discutível consciência social (a purgação de culpa da nossa burguesia ante a resistência doentia, expressa na demora do escravismo no país, contra a reforma agrária), impede referenciais em torno do que se pode ou não se pode fazer. A morte do líder sem-terra Teixeirinha, com processo reaberto na comarca de Guaraniaçu, até agora sem qualquer punição, dá bem a medida do absurdo.
Em tal clima viceja o absurdo: os fazendeiros, que destruíram o acampamento da fazenda Saudade, estão sem qualquer punição e tínhamos nada menos de 24 sem-terra presos. Pois agora foram relaxadas várias prisões em função das pressões do momento em que se dá a marcha dos trabalhadores em direção a Curitiba. Tanto para prender como para soltar há a exigência prévia de algum fundamento jurídico. Dezesseis dos 24 presos foram soltos e essa contabilidade dá a entender que há níveis de responsabilidade criminal diferenciados e que puderam permitir o relaxamento das prisões. E se esse era o status, por que isso não ocorreu antes?
Quando da invasão da Ferrovila em Curitiba um juiz de instância inferior negou a ligação de água e energia (empresas do Estado, cujo governo dava notória cobertura, inclusive pela omissão da Polícia Militar) nos barracos, mas a pressão do basismo, ameaçando um cerco do Tribunal de Justiça pelos invasores, levou a cúpula daquele órgão a pleitear a mudança do despacho para baixar a tensão.
Percebe-se que há um pouco de semelhança nesses acontecimentos de agora e com isso - essa ausência de parâmetros claros do que se pode ou não se pode fazer - abre-se o espaço para as ações alternativas, não do direito alternativo, uma concepção que alguns juristas admitem, mas de um rumo à autogestão, o que acaba sendo um risco exatamente para os aparentes beneficiários de agora, os sem-terra, pois na hora do confronto levarão a pior, já que os ruralistas têm melhores condições logísticas e operacionais para atuar, sabendo-se também que se houver intervenção, a balança não penderá para os excluídos ou tidos como tal, como é da tradição brasileira. Vide Corumbiara e Eldorado de Carajás.
ECOLOGIAAmbientalistas preparam um documento para mostrar as agressões cometidas no andamento dos Jogos Mundiais da Natureza. Esperam ganhar meios externos de comunicação, incluindo a Internet, para a denúncia. Nada difícil catalogá-los.
BIZARRICECarlos Nasser, um dos escudeiros de Álvaro Dias, escreveu artigo na imprensa reportando-se à morte daquele japonês que ficou nas selvas de Guam 27 anos sem se render como uma referência de heroísmo no momento em que a bancada do PSDB esvazia. O herói ficou 27 anos ignorando a derrota. Álvaro já está há sete anos sem mandato e não se dispõe certamente a fazer o papel do Jacó bíblico, que serviu a Labão para levar Raquel durante esse prazo e muito menos o do nipônico. Heróis de hoje, reais ou imaginários, têm pressa.
UM POR CINCOPara cada agente sério do Palácio Iguaçu há pelo menos cinco dedicados à louvação e ao aulicismo. Um dos sérios é Gerson Guelmann que mandou, sem qualquer comentário, páginas do Diário do Senado Federal para mostrar a obviedade de que deu a Sergipe, Rio Grande do Sul, Santa Catarina (com todo o pepino dos precatórios, ganhou o direito de emitir letras financeiras do Tesouro) e mais recentemente a Prefeitura de São Paulo, o que negaram no pleito paranaense.
A intenção do Gerson é compreensível: mostrar o tratamento desigual, mas aí é que falta competência ao governo, pois sabendo que tem a barragem dos dois senadores contrários, deveria contar com agentes seus na Câmara Alta e no Banco Central para acompanhar esses expedientes e fazer as justificações, tanto as de ordem técnica quanto as de natureza política. E responder as solicitações do Banco Central, o que não fez, e dentro do prazo compatível.
Outra coisa: os planos de governo de ajuste são bons, porém inaceitáveis. A solução pública para o Banestado é impossível, pois exige que o governo responda por quase R$ 1 bilhão de recursos próprios para adotá-la. E isso mata igualmente a outra ponta da questão: o Fundo de Previdência que garantiria o desafogo do caixa com o pagamento das aposentadorias e pensões. É que este depende, para viabilizar-se, de alguma fonte financeira que não se obteria do imobilizado em prédios e edificações ou de respectivas vendas.
FOLCLOREFalando sobre a descriminação da maconha em debate acadêmico, Requião disse que a famosa sandália de cânhamo do deputado Fernando Gabeira era um tipo de erva meia boca e que a única infração que o parlamentar poderia praticar seria a de queimar e cheirar a sandália.





