Luiz Geraldo Mazza
Um dos melhores documentários do Globo Rural mostrou um grupo de seringueiros na Amazônia, após a travessia do rio Madeira, dirigir-se a alguns peões, que derrubavam as matas da sobrevivência daquela gente para substituí-las por exploração pecuária, e declarar o empate. Segue-se um ritual em que há todos os condimentos de um auto popular com o chefe dos peões dizendo que também é um trabalhador e que nada tem de pessoal contra os irmãos devotados à exploração do seringal.
Lembro de um empate desses que tentamos contra a Polícia Militar em 63, durante a greve dos jornalistas, em que o Edésio Passos se dirigia para aquelas pessoas com cassetete na mão, lembrando que elas eram povo como os grevistas. Nada mais falso, porém válido diante da nossa pretensão de sermos naquele instante o vetor da história, na qual em nosso imaginário até forças da opressão reconheceriam a justeza da nossa causa.
Pois ontem estiveram em Curitiba alguns dirigentes do PT, incluindo o Lula, mais o presidente José Dirceu e essa figura extraordinária, Plínio de Arruda Sampaio, aquele que punha o PDC de Ney Braga à esquerda, para declarar uma espécie de empate nas questões fundiárias. Lerner prometeu ver se consegue acertar com a justiça, já que o assunto é de sua soberana alçada, mas pediu que aqueles embaixadores da paz recomendassem a paralisação da marcha dos sem-terra. Como tanto o PT como o MST sempre declaram em situações como essa que não podem mexer na autonomia dos trabalhadores, ao governador só resta o papel de não invadir as prerrogativas do Judiciário. Logo um empate, no rigor mais semântico e filológico, da palavra.
Houve o diálogo. E se um pessimista achar que não leva à nada não custa lembrar Sísifo que sobe a montanha carregando a rocha às costas e ao chegar no cume ela rola a ladeira abaixo, obrigando o trágico a repetir o seu gesto de aparência inútil. Albert Camus, que sabia de existência e tragédia como poucos, diz que ao insistir na subida e descida, o fardo às costas, Sísifo se mostrava acima do seu fardo, da sua situação-limite.
Não importa se esses agentes da cena política representam. Houve, antes de tudo, boa vontade. A reforma agrária - que perdeu o bonde da história porque deveria ter sido feita no início do século e se torna a expressão do arcaico em sociedade industrial e de massas - é hoje um imperativo social, inajustável à utilidade econômica em termos de competição capitalista. É a inversão daquilo que Alvim Tofler tratou: é o choque do passado, das raízes coloniais das nossas instituições, supervivência do feudalismo.
O lado trágico não é a inutilidade do diálogo, mas o descompasso entre o fervor das massas organizadas do MST e a lentidão da burocracia para absorver e metabolizar o problema. Também o empate da pesca, aquele fator que impede ao peixe de arrebentar a linha no momento em que é fisgado e luta para livrar-se, aí se aplica. Tirar o feudalismo do Brasil é simples como uma lobotomia, como se isso para um neurocirurgião fosse fácil como espremer um furúnculo. Basta ver a pujança do coronelato, ainda deitando e rolando como modernidade.
BIZARRICE Bastou Cássio Taniguchi, prefeito, dizer a singela verdade de que não se deve permitir acampamento no Centro Cívico para que o chamassem de Fujimori. Ir e vir pode, é claro. Botem o Rafael Greca declamando aquela poesia que foi lida nos Jogos da Natureza pela Denise Stocklos e está resolvido o problema. Nem latifundiário aguenta, quanto mais sem-terra.
SPRAY Café-da-manhã de Aníbal Khury foi com Luís Antonio Medeiros da chamada Força Sindical. De resultados, ninguém entende mais do que o Buda.- Lerner rola a dívida de R$ 400 milhões de Álvaro e Requião e que ironicamente bloqueiam as aspirações do Paraná, um direta e outro indiretamente.- Rubens Bueno no PTB. Está aí o Tony Blair possível.- 11 e 12 de outubro saem provas escritas dos 155 candidatos que sobreviveram para juiz substituto.- Carlos Tortato no PSB rosa choque de Lerner. Está aí Paranaguá com chance de emplacar um deputado.- Uma pergunta que não ofende: por que não há público nos Jogos da Natureza? Já entendi a mensagem: quem testemunha é o meio ambiente. É o que importa quando apenas a imagem é que se exporta.- Governo irresponsável é o que sabendo do drama financeiro de barnabés institucionaliza, via consignações no pagamento, a agiotagem desenfreada a quase 9 por cento ao mês. Herodes era bonzinho. No passado o IPE, antes de ser detonado pelo PMDB, fazia isso sem explorar.-
Rangers da UDR e equivalentes apelam para o terrorismo contra aqueles que acham injusto prender 24 sem-terra e nenhum fazendeiro. É a Ku-Klux-Klan: qualquer dia passam piche no corpo de alguém, enchem-no de penas de galinha e queimam uma cruz. Tudo com a passividade da área de segurança.- Mais quilombo, igual àquele em disputa na área da Colônia de Entre Rios, agora em Castro, perto do Apabã. É outro front, mais secular, da luta dos sem-terra.-
FOLCLORE Mais uma do anarquista Elísio Marques: Torço pelo Atlético contra a Lusa, pelo Coritiba contra o Galo, pelo Paraná contra o Mengo, pelo Londrina contra o Náutico. Nos Jogos da Natureza torço pelo puma. Poderia acrescentar o cachorro vinagre que a Itaipu protege em área especial.
CROMO Nem o Curupira muito menos o negrinho do pastoreio aguentaram a badalação dos Jogos da Natureza. O Boi Tatá, então, ficou com os sem-terra.
AFORÍSTICOSerá que é preciso libertar FHC de ACM ou eles seriam siameses?





