Luiz Geraldo Mazza
Viajar é preciso, governar não é preciso. Eis algo derivado da advertência de Pompeu, aquele do triunvirato romano composto com Caio e Crasso, aos navegantes que temiam as ondas fortes do oceano. No ato de navegar haveria mais precisão do que no de viver sempre sob forte risco.
Pois Lerner, criativo como é, optou entre o ato de enfrentar crises (os sem-terra se aproximam em penosa marcha desde o Noroeste e na outra semana estarão aí os membros da subcomissão da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado para tratar da guerra fiscal e favores às montadoras) e o de viajar a prioridade à curtição, ao desfrute, à busca do voluptuário é óbvia. Ainda mais depois da glória virtual dos Jogos da Natureza, um repouso promocional assenta bem, notadamente numa crise sem precedentes na vida financeira do Paraná.
A viagem é para a Polônia e Ucrânia. A primeira, terra de origem dos pais do governador; na segunda pesa a circunstância de o Paraná deter a maior comunidade da etnia, superando de longe o Canadá, que perde em termos numéricos. O abacaxi das duas missões - a de enfrentar o circo dos sem-terra com aquela encenação primitiva de ocupar a grama do Centro Cívico (alguns gozadores sugerem que eles o façam, só por espírito de provocação, nos campos de golfe do Graciosa Country Club ou, então, na gleba efetivamente ociosa do estádio do Pinheirão) e a da comissão do Senado - ficam para dona Emília (que já disse que não dá ordem de desocupações) e os secretários Giovanni Gionédis e Miguel Salomão, mais o da Segurança, candidamente, como sempre, com a cabeça a prêmio para qualquer eventualidade e conveniência política.
Esse escapismo, que mostra antes de tudo o amor ao luxo e sua relevância sobre essa condenação bíblica, que é o trabalho, algo apropriado ao não fazer da antiga nobreza, é parte de um estilo, de um jeito de ser. Afinal, seria insuportável ficar por aqui ouvindo resmungos de fazendeiros e sem-terra e bravatas de mau gosto de lado a lado, a choradeira de professores e barnabés, de um modo geral, e também os credores caloteados, quando se pode optar pelas amenidades e doçuras, o enlevo de ser recebido com flores quando aqui, neste recanto dos trópicos, corre-se o risco das pedradas e dos ovos podres.
UM HÍBRIDOOra um estadista como o da entrevista à revista Veja, ora um explorador das emoções populares como um Getúlio Vargas, o presidente FHC é um híbrido: esteve na concentração de 750 mil evangélicos transformada num comício da reeleição e só faltou ter ido ao show da Xuxa, também em São Paulo, com 250 mil pessoas.
Fernando Henrique de hoje jamais dirá que não acredita em Deus (insolência de vaidade intelectual que o levou à derrota para Jânio em São Paulo) e é bem possível que recepcione o papa João Paulo II com o mesmo calor com que compareceu ao evento mundial da Assembléia de Deus.
O mais intelectual dos presidentes que tivemos lembra, às vezes, O Bem Amado, o coronel Paraguaçu, da ficção televisiva em Sucupira. Esse o lado efetivo que o aproxima do PFL.
ESPERANÇAPor que esvaziaram o PSDB? Simples: os deputados haviam perdido as esperanças naquele espaço. Lerner, quando saiu do PDT, disse mais ou menos o mesmo: ali não havia esperança e não há mesmo. Agora chegou a vez do Antonio Anibelli, oposicionista, e que opta pelo PMDB, pois no outro a chance de uma eleição é quase nenhuma.
As declarações sucessivas de Álvaro Dias de que é candidato e que conta com o apoio de FHC são uma forma tortuosa de dar alento aos poucos que ficam. Ele tem a Telepar, os outros nada, a não ser o apoio dos devotos sem-votos. BIZARRICESe o Bigorrilho, nome histórico de um bairro de Curitiba, pode se transformar em Champagnat que homenageia mais um empreendimento imobiliário do que uma instituição religiosa dá, também, para mudar o da capital paranaense para Lernerlândia. Critério mercantil ou de marketing não é o mais justo.
SPRAYUma pesquisa mandrake, anunciada pela Federação dos Bancários, sugere que mais de 75% dos clientes são contra a privatização do Banestado. Nada mais falso: o que há de mais negativo decorre da condição pública, a de produzir moeda e a de atender a clientela política, como se vê no episódio da Leasing e no dos eternos inadimplentes entre os quais deputados.- Deputado que deve dinheiro ao banco deveria ter o pudor de não manifestar-se. Pega mal.- E por falar nisso, quando se inicia o processo na Polícia Federal contra o ex-dirigente da Leasing, Osvaldo Santos? - A promessa de processar fazendeiros, lá do Noroeste, vai ficar para as calendas. Eles estão prometendo represálias muito pesadas, se isso acontecer. São fora da lei como os invasores, embora esses possam, em alguns casos, alegar desespero famélico. O pior é que muitos deles (fazendeiros) estão entre os devedores máximos dos bancos públicos (Banco do Brasil, Badep e Banestado) e ficam por aí posando de samaritanos e defensores da lei.-
FOLCLOREEvangélicos ergueram quatro dedos, simbolizando a reeleição de FHC, em seu encontro mundial em São Paulo: a liturgia a serviço da política. Dos cinco dedos da campanha de FHC quantos foram mutilados?
CROMOA mãe etíope, o filho agarrado ao seio murcho, é a Madona global, ali ou no Zaire, no cenário da fome. No seu pulso um objeto de adorno, em meio a tanta miséria, o que prova que a fantasia se sobrepõe à escassez.
AFORÍSTICOO adultério é a democracia aplicada ao amor. H.L. Mencken.





