Luiz Geraldo Mazza
A essa altura dos acontecimentos, quando já estamos às vésperas da terceira eleição presidencial direta, depois da experiência acumulada com as vitórias oposicionistas nos governos estaduais (três seguidas, no caso paranaense, e a retomada do comando pelas forças anteriores, com Lerner), dá para fazer o balanço dos ganhos e perdas em termos cívicos. E a constatação dura, e, de certa maneira, melancólica é a de que houve avanços, mas os recuos se deram numa escalada assustadora.
Com Richa tivemos o momento maior de democracia nos anos recentes. Ocorre que o PMDB era uma frente que amparava em seu elástico espectro de forças que iam do ultravioleta ao infravermelho: fascistas, cautelosamente calados, em tédio diante da algaravia esquerdeira de maoístas; liberais em concubinato com frações socialistas e do MR-8; os PCs - o B e o do B - nas mesas discutindo as diretrizes de governo. Ninguém abriu tanto o poder à participação e a palavra de ordem era exercer o máximo de criatividade nesse ajuste. Um episódio, como o da venda das ações da Copel ou o da associação para explorar Salto Caxias, teria resposta imediata. O da termelétrica no litoral ninguém ousaria, por um mínimo de respeito, colocar em pauta.
De lá para cá pioramos, ainda mais com o autoritarismo dos dois governos que vieram a seguir. Com Lerner não houve melhora substancial: a participação desapareceu, como já se dera anteriormente, e temas ricos como o da defesa sistemática da ecologia e das tecnologias alternativas jamais foram postos. A mística mínima de planejamento, que ainda existia sob Richa, desapareceu.
O marketing se sobrepôs - e isso desde Álvaro Dias - à doutrina e essa é ainda uma das carências essenciais da gestão Lerner.
Não há estratégia, embora Lerner abuse da expressão e inexiste igualmente uma fundamentação filosófica de como o governo vê a sociedade e sua transformação. As dimensões da mudança, que deve ser operada, são ciclópicas: o Paraná deixa de ser uma economia de complementariedade à paulista, transforma-se em pólo múltiplo sem desligar-se da sua vocação agroindustrial e não há um mínimo de previsão quanto aos impactos sociais. Afinal sabe-se que mais uma vez a economia vai se fortalecer, provavelmente, porém, com sacrifício do social e em escalada provavelmente pior do que a havida nos anos 60, com Ney Braga.
O pior é que ironicamente se dá o nome de Chapéu Pensador ao local em que Lerner faz encontros de brain e reflexões políticas. Talvez seja porque se transferiu ao chapéu uma função indesligável da cabeça.
BIZARRICE Sexta-feira passada, 19, peões esperaram das quatro da tarde às oito da noite a chegada de Onaireves Rolim de Moura à Federação de Futebol. Obviamente não estavam ali para saudá-lo, mas para receber atrasados. Às nove aparece a comitiva com Onaireves à frente para um jantar no salão de festas da cúpula regional do PSD, Partido Social Democrático, pelo qual deve lançar-se a deputado estadual.
Água cortada, salários atrasados desde julho, centenas de execuções e de títulos protestados e tudo se esquece com festas como aquela grandiloquente que trouxe a cúpula da FIFA e CBF no Clube Curitibano e essa mais modesta.
RANKING Mais referências em qualidade para o governo estadual com projetos seus como finalistas em gestão pública e cidadania da Fundação Getúlio Vargas e Fundação Ford em 1997: a Universidade do Professor e a Vila Rural. Um de âmbito municipal, finalista, é de Iguaraçu denominado Terra Solidária, em que o fazendeiro cede áreas aos bóias-frias para que as cultivem.
Agora os técnicos vão visitar os 20 projetos finalistas, entre os quais os do Paraná. Paraná e Minas foram mais destacados emplacando três projetos cada um.
PRESSÃO Não apenas os sem-terra mostram que o exercício da pressão se torna indispensável para a democracia, ainda mais quando os legislativos, como é o caso típico do Paraná, não cumprem o seu papel. Os ecologistas, que às vezes até exageram e se tornam impertinentes, dão mostras de como trazer ao meio social um absurdo como o da termelétrica do litoral. Ao encampar essa luta, a Universidade Federal deu mostras de que, pelo menos neste caso, ela não foge às responsabilidades sociais.
No painel sobre poder e política, de que participei, impressionou a análise do professor Denisson de Oliveira, que está se transformando num especialista na devassa das relações nem sempre claras entre gestores públicos e empresários. Sua radiografia é abrangente e atinge todos os grupos. Aliás, essas relações hoje são mais visíveis do que no passado, mas se facilitam a denúncia, tornam difícil a correção. Vide caso Collor.
GLOSA O basismo agrário é uma forma de utopia regressiva como a de Canudos e Antonio Conselheiro, cujo centenário de morte comemoramos.
FOLCLORE Entre os compromissos não alcançados pela democracia, segundo Norberto Bobbio, estão a falta de educação do cidadão comum, o poder invisível que na Itália pode ser representado pela máfia. Aqui no Brasil o chamado poder invisível usa crachá como espião português: todo o mundo sabe quem é o malandro, embora normalmente o trate bem.
CROMO Um espanto nos dias que correm é o rubor na face da moçoila.
AFORÍSTICO Se os Jogos da Natureza derem certo, ainda que predomine o lado mais virtual, ficará provado que Lerner nasceu de frente para o sol e, é claro, de costas para a lua.





