Luiz Geraldo Mazza
As modificações na lei eleitoral, que originaram a cena de beira de cais entre o Luis Eduardo Magalhães (como é que uma pessoa com essa impulsividade chega a presidente da Câmara Federal?) e o Carlos Apolinário, deram forma menos monstruosa ao projeto que visava a nomeação dos detentores do poder que disputassem a reeleição. Há ainda muita patologia que a justiça pode remediar, mas, de um modo geral, o documento tem a cara deste Brasil autoritário que mal se ajusta à democracia.
Proibidas as inaugurações noventa dias antes do pleito, já se sabe que aqui no Paraná Lerner se beneficiará poderosamente do processo. O governo estava, de certa forma, escondendo o manancial de obras, pequenas em maioria, mas suficientes para um bom caldo eleitoral porque o povo do interior em especial adora esse tipo de manifestação. Vai ficar mais tempo no interior para atender esse imperativo: programas de desfavelamento, Vilas Rurais, obras do Paraná Urbano e onde houver queixa teremos a resposta de bate-pronto: e teríamos mais obras, muitas mais, não fosse o bloqueio dos senadores Osmar Dias e Requião, vai dizer.
Esses Jogos Mundiais da Natureza, cuja inauguração festiva se dá hoje, são um exemplo do rastilho de pólvora: a hotelaria de Foz do Iguaçu, uma das maiores do país, entrou em estado de euforia com a movimentação e existe a crença, o que prova o primeiro efeito de marketing, de que promoções sequenciais como essa geram taxas de permanência inusuais, mesmo em grandes convenções. Além de tudo, vende-se algo maior, a tal da Costa Oeste, que atrairá investimentos privados pela alavancagem da mídia relativamente à competição.
Além disso, teremos os desdobramentos, também inaugurais, de fábricas e demais instalações dos R$ 10 bilhões de investimentos. E ainda a do tapa-buracos nas estradas privatizadas, seguidas das obras da segunda pista. Com um cronograma de visitas bem sacado, embora o prazo seja relativamente curto, o governo passeia.
E, convenhamos, no raciocínio aplicado de São Tomaz de Aquino, a doutrina do mal menor, Lerner, a despeito de tudo o que há de negativo, é menos ruim do que os postulantes até agora sugeridos. Repete-se o mesmo, no plano nacional, com FHC, pois com uma esquerda que insiste em Lula e Brizola e vira as costas para alguém que sabe pensar, como Ciro Gomes, ainda que um tanto postiço, não há mesmo alternativa.
SCAPS Dias atrás, uma ilustração desta Folha
confundiu o ministro Luis Carlos Santos com o presidente da França. Mas a pior da semana ficou por conta de outro jornal que no noticiário policial dizia o seguinte: A vítima não apresentava sinais de violência, exceto a falta de cabeça. Um detalhe.
SINISTROSE O apego à sinistrose é uma coisa nossa como o Flamengo e a banda marcial dos fuzileiros navais. Adoramos estatísticas negativas. Dai a barbárie da afirmação, idiotíssima, do Movimento de Luta pela Moradia de que existem 800 mil famílias sem casa no Paraná.
Uma ocasião fiz uma palestra num centro de formação de lideranças e quando afirmei que 70% dos que ganhavam menos de um a um piso salarial tinham casa própria, percebi que parte da assistência entrava em estado pré-convulsivo. E ficaram pior ainda quando lhes exibi a tabulação da época da PNAD, Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar, do IBGE. Sofrer pelos outros ou mimetizar esse sofrimento, como é típico da demagogia brasileira, dá nisso.
Outra coisa: a mania de chutar um número e transformá-lo em axioma. Nos anos 70, uma das fixações era dizer, sem qualquer comprovação, que existiam 800 mil bóias-frias no Paraná. O governo usava o número para sensibilizar a União, a oposição para exercícios oratoriais de indignação e os fazendeiros para pedir investimentos a fim de empregar os 800 mil trabalhadores volantes.
BIZARRICE Troca de reféns da demagogia agrária: sai Bradock de um lado e Maria de Oliveira de outro. Como o Garcia Cid fazia graça com a Maria, de repente sobra pro Garcia e, o que é pior, para ser substituído pelo Osvaldo Santos.
SPRAY Deputados que ficam histéricos, quando se fala em privatização do Banestado, deveriam ter uma dose de semancol no caso de estarem listados entre os inadimplentes do estabelecimento.- Situação idêntica ocorre com dirigentes ruralistas, à beira da apoplexia diante das invasões de terras, quando devedores do Banestado, do Badep, da Previdência, do FGTS etc, enfim habituais mamadores das tetas da loba romana do erário. Podem até ter razão de chamar a polícia, mas paguem as contas antes.- Gustavo Fruet, vereador, diz que há uma distorção básica no que a Prefeitura de Curitiba chama de publicização. Ela quer institucionalizar as terceirizações, velho hábito do time de Lerner, e Fruet mostra a aberração jurídica de transformar em privado o que é público.- Requião faz auê com uma pesquisa da Fundação Pedroso Horta, órgão doutrinário do PMDB: as seccionais ouviram as lideranças do Legislativo e apurou-se que das 21 ouvidas, 19 se inclinavam pelo candidato próprio.- Oito regionais indicaram Requião, sete Itamar Franco e quatro Sarney. Estimulante, mas muito vago.- Mal inaugurada, a Rua da Cidadania da Matriz revela vedação incompleta e problemas com o piso e a fiação elétrica.-
FOLCLORE Na crise de Santa Isabel do Ivaí sugeriram a Lerner que fizesse um cartaz daqueles do faroeste norte-americano com o rosto dos fazendeiros que queimaram o acampamento dos sem-terra. Aí imaginaram que o público poderia colocar a cara de gente do governo entre os procurados e a idéia gorou.





