Relações perigosas

Com as ações do Ministério Público em Rio Negro e confirmadas na Justiça está ''recriado'' novamente o quadro gerado no Paraná com a passagem da CPI nacional do narcotráfico. Descontados os exageros da encenação política, embora a matéria de prova não estivesse claramente exposta, o trauma foi de tal ordem que ao governo não havia alternativa se não a de destituir toda a cúpula da Polícia Civil. Procedimentos judiciais são longos e complexos e de toda a semeadura tivemos escassa colheita praticamente enfocada nas ações dos desmanches de automóveis e na prisão do Caboclinho, enquanto o outro famoso, o Mandeli, quase fazendo um trocadilho, se mandou.

Deve-se levar em conta ainda que a ousadia dos delinquentes chegou ao ponto de atentar contra a sede da Promotoria de Investigações Criminais, o que tinha relação estreita com as apurações que aquele órgão fazia relativamente ao que se apurara na CPI nacional. A relação da classe política, como mediadora desse tipo de interesse e, portanto, com focos da criminalidade, não é novidade. Um manto protetor, alicerçado no medo e no terror, transforma essa anomalia em rotina. No processo que investigava a morte do criminalista Crovador, a viúva, apontada como mandante na versão policial, chegou a ser inquirida, vejam só o absurdo, pelo Mandeli como se fosse o delegado incumbido da tarefa.

O vereador Divonzir Rodrigues, de Campo do Tenente, descobriu o QG da quadrilha de roubo de cargas, dirigida por Mário do Amaral Fogassa, e foi morto por causa das diligências que pessoalmente fazia para incriminar a gangue. Sua morte teria sido executada por fugitivos da cadeia local em ação que teria sido facilitada por autoridades policiais. Nessas apurações, que já renderam 15 prisões, incluindo a de dois delegados, os promotores encontraram elementos para denunciar o delegado geral Leonyl Ribeiro. Este alega que se limitou, juntamente com o secretário José Tavares, a conversar por telefone com Fogassa a pedido do deputado Carlos Simões.

É justamente aí nessa relação entre políticos e autoridades policiais que se reproduz o cenário revelado pela CPI nacional. Um político, por incrível que pareça, pode exercitar demandas do gênero por culpa de um governo frouxo que há muito tempo entregara a área de Segurança aos cuidados de parlamentares.

Tanto o delegado geral como o secretário de Segurança podem estar sendo vítimas do desespero dos policiais presos e também de forma mediata de uma rotina cultural, a da tolerância de políticos com cabos eleitorais da pesada.

Não poucas vezes o Caboclinho, hoje preso, foi visto a andar pelo Legislativo na condição de cabo eleitoral. Como de resto não são poucos os políticos que costumam andar com pistoleiros.

BIZARRICE Dentro em pouco poderemos ter no Paraná um líder do padrão daquele Hildebrando Pascoal que só tinha aquela liberdade porque nenhum Poder o alcançava. Ele era o poder, aquele que prevalece.

AXIOMA Lula e ACM juntos na Bahia. Quem polariza e quem é polarizado?

GLOSA A oposição está mais propositiva: ela quer desterceirizar prisões e não nelas colocar a turma do governo. É um avanço.

EPIGRAMA Aos políticos convém cuidados com as palavras: quando dizem que é preciso avançar torna-se indispensável descobrir o gesto explicativo.

VINHETA Em certos governos avanço mesmo é apenas nome de um desodorante.

FOLCLORE Já ''Esperança'' não é apenas título de novela e sim esse fenômeno difuso que toma conta do país em relação a Lula. Agora podemos dormir ao som de Lullaby (cantiga de ninar) com o sono leve das crianças.

CROMO Até dia 15 ainda haverá ipês dourados; os verdes perderam as flores.

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