LUIZ GERALDO MAZZA
A cautela indispensável
Os que já estiveram no poder e dele foram afastados quando retornam buscam compensar o tempo do ostracismo. Se tiverem talento fazem mostras de dureza e austeridade intercaladas por ações contra os ímprobos sem carregar demais no sentido da repressão. Mas se o espírito de vindita predominar correm o risco das ações temerárias que a fatalidade do tempo acaba corrigindo.
É saudável que o novo governo se mostre aberto às denúncias e que as apure. Mas que faça esse exercício com os filtros da legalidade e não o espetáculo de prisões inúteis, como se deu sob a gestão de Alvaro Dias, que redundaram em nada, mesmo aquela sortida espetacular, com a cobertura de veículos cúmplices, uma característica da época, contra o Banco del Parana.
Exemplos históricos, e em alguns casos histéricos, não param aí. Assisti, ao lado do Carlos Alberto Marques, o Gauchinho de Londrina, a primeira reunião do secretariado de Lupion no seu segundo governo. Lembro claramente de Ivo Leão, secretário da Fazenda, relatando que o Banestado estava quebrado, frase e sentença que a cada novo governo se repetia. Houve ainda na gestão Ney Braga denúncias contra Lupion, as mais pesadas, como a de que teria se apropriado de dinheiro que era da conta dos leprosos. Ora o procurador do Paraná, no Rio, Libino Pacheco, fez esses depósitos na conta bancária como delegado e isso levou muitos anos para ser esclarecido nos tribunais.
A maior vítima de todo esse procedimento acabou sendo Rubens Requião, que na qualidade de secretário de Justiça, presidiu as apurações das denúncias e ficou com o ônus isolado, como se fosse um Torquemada, dessas ações. De fato isso se faz lenda e com forte conteúdo moral, um alertamento.
BIZARRICE Quando houver uma denúncia a primeira coisa, antes de qualquer outra, a fazer é apurar os antecedentes do autor da grave informação. Essa é uma regra de sabedoria que poderia servir tanto no plano federal como no estadual. Aliás, elas já permeiam informes da comissão de transição.
AXIOMA Se houver suspeita de chuncho o grupo de transição vira de transação.
GLOSA Redundância é alguém denunciar, com ar solene de Velho Testamento, que encontrou muita bosta num terminal de esgotos da Sanepar. Ou que a Copel se obrigue a clarear as suas parcerias. Luz demais cega, dizem maliciosos.
EPIGRAMA Não há uma só carreira funcional em que servidores estaduais ou federais não tenham algum atrasado para reivindicar. Essa é a mais clara impossibilidade de funcionar qualquer pacto. Ninguém abre mão de nada.
FOLCLORE Requião escolheu um homem de peso para a transição: o Pessuti.
CROMO No meio do manguezal, a garça imobilizada como estátua revê, no olhar catatônico, o seu entorno animal e vegetal. Do manguezal à restinga, o passeio mágico. No bater das asas um deslocamento de luz.
AFORÍSTICO Há alguém com espírito desarmado nessa transição: ou todos buscam valorizar suas posições, um em favor do que entra e outro no do que sai?
ASTERISCO Oposição, ao longo dos oito anos de Lerner, apostava, a cada mês, que o governo atrasaria o pagamento do funcionalismo. Para conseguí-lo poderiam na transição acertar o pagamento do 13º para janeiro e a cargo dos novos governantes.
SILOGISMO Há dois sentimentos paradoxais na passagem de governos: de um lado, o Carnaval, aos vencedores e de outro o Juízo Final para derrotados.





