LUIZ GERALDO MAZZA
A desenvoltura do Pessuti
Há quem pergunte: se Roberto Requião estivesse por aqui, o Orlando Pessuti, eleito seu vice, acumularia tantos poderes e estaria assim tão à vontade, cheio de energia e vivacidade, comandando o pólo futuro da transição com o dos que estão se despedindo?
Se andasse por aqui Pessuti não estaria tão folgado até porque Requião, por um dado óbvio, monopolizaria as atenções. Pode ser que essa jogada não tenha sido planejada e que veio ao natural no azáfama da diplomacia da transição. O fato é que o negociador se revela com talento especial: ouve as razões de governo sem cometer a imprudência de emitir juízo de valor antes de uma bem ajustada decodificação desses hieróglifos que são os balanços financeiros e as planilhas dos consórcios do pedágio. Não dá sinais de impaciência, embora quase sempre reproduza não apenas o pensamento, mas ainda palavras de ordem e compromissos de campanha eleitoral como essa de reinventar o IPE, Instituto de Previdência do Estado.
Nem tudo que se promete em campanha pode ser feito como as três refeições para todos de Lula ou a cota de um litro de leite por dia às famílias que ganham menos de R$ 80 por mês de Requião, generosas e aceitáveis, ainda que com um acentuado ranço assistencialista. Essa referência ao IPE deve ter sido ditada por funcionários públicos e na verdade essa instituição, há muito, já vinha deteriorando e não apenas por causa dos escândalos internos como da abertura do leque assistencial à casa própria (um absurdo quando havia Cohabs e a Cohapar) e até a empréstimos simples. Na verdade quebraram o IPE e era preciso uma avaliação detida do sistema substitutivo adotado sem preconceito e de forma franca.
Requião, em seu governo, quis estabelecer o sistema de previdência que se deu mal, especialmente quando se irritou com a denúncia pelo Conselho Curador que as aplicações dos recursos acumulados e tomados dos servidores no Banestado estavam rendendo menos do que as taxas vigentes no mercado. Com uma habitual autorização do Legislativo (as vaquinhas de presépio podem mudar de governo para governo, mas não alteram o comportamento passivo e cúmplice, como se viu na história da venda da Copel) esses recursos foram redistribuídos entre vários objetivos, dos quais a Ferroeste e uma parte transformada em kombis doadas a municípios, sindicatos e cooperativas.
Até por esse antecedente histórico é preciso olhar com cautela qualquer ação dirigida para o sistema instalado de previdência.
BIZARRICE Tantos são os que se acreditam nomeados e estimulando especulações na mídia que Requião poderia imitar Tancredo sugerindo aos que jamais serão aproveitados que declarem que foram efetivamente convocados e não aceitaram.
AXIOMA Fala-se tanto em pacto social que dava para colocar ao fundo aquela música da bossa nova: ''E vinha o pacto (pato) alegremente// Cuem, Cuem//''
Alguém vai ter que pagar o pato e desconfio que não serão os empresários.
GLOSA Requião vem aí para desatar nós. E se a corda rebentar atingirá, por acaso, o mais sorte só para desmentir o ditado popular ?
EPIGRAMA Três refeições por dia vão engordar a pobreza. Hoje quando pobre é barrigudo é porque padece de esquistossomose.
FOLCLORE É mais fácil achar o livro anti-semita ''Protocolos dos sábios do Sião'' do que encontrar explicação para os protocolos das montadoras.
CROMO Com Maria calma é hora de descobertas, sobretudo de calmaria.
AFORÍSTICO Incrível é que todo governo é mais dinâmico antes da posse pela carga de esperanças quase nivelada à de propostas.
VINHETA Foz do Iguaçu não é mais um dos maiores centros de recepção de turistas, mas seguramente, em termos proporcionais, bate a violência da Baixada Fluminense em assassinatos de jovens.





