Herança de Lerner (4)
Apesar dos rapapés e do ''fair play'' da transição é quase certo que o governo de Requião tentará, no mínimo, ''dramatizar'' os números e indicadores da gestão Lerner para que amanhã, a médio prazo, apareça como o salvador. Embora o tom mais sério da transição nacional é provável, em que pese o dado trágico da situação brasileira, que Lula faça algo nessa direção também.
Como dramatizar e potencializar aquilo que já lembra o caos? Ocorre que há uma linguagem, a dos políticos, à disposição para esse tipo de exercício. É, pois, perfeitamente viável tornar o Inferno mais assustador do que é. E há especialistas na área.
AVANÇOS Indicadores de difícil contestação como os do IBGE, Dieese, ONU podem favorecer o Paraná nos anos Lerner, tanto os de ordem econômica (PIB, Renda Interna, participação nas exportações, taxa de emprego etc) como os sociais (mortalidade infantil e geral, expectativa de vida, escolaridade). O Paraná, por sua condição geopolítica e vocação econômica, tende em inúmeros setores a superar médias nacionais.
De saída, porém, há o primeiro impasse: a dívida do Paraná, conforme a oposição que vai ser governo, seria muito superior aos R$ 10 bilhões referidos em todos os registros oficiais. A controvérsia é também a quantas andava a verdadeira Dívida quando Lerner assumiu. Os que saem a colocam na metade do número final, alegando os débitos do Banestado que só viriam a ser conhecidas depois do seu processo de saneamento. Quando começar esse tipo de discussão não haverá mais espaço para a cordialidade atualmente reinante com o clima de tapinhas nas costas e sorrisos contagiantes.
''DRAMATIZAÇÃO'' Esse diálogo, ainda que seja travado por tecnoburocratas, especializados nessas artes esotéricas, terá a característica de um cabo de guerra em cima de números e equações com o governo que sai mostrando um cenário bem mais palatável do que é e o pessoal que entra satanizando tudo no máximo exagero e rigorosamente dentro da tradição brasileira da sinistrose. Ainda, a despeito dos avanços, perdemos nos estados do extremo sul em indicadores sociais e até isso vai ser referido para mostrar negativismo.
E é em conflitos do gênero que deve se destacar um feito de Lerner, talvez até contra a vontade, nos limites estritos em que deixou a mídia em matéria de investimentos e subvenção: gozamos hoje de melhores espaços de liberdade pelo fato de os veículos não poderem ter nas verbas oficiais seu cliente maior. Temos hoje um Ministério Público mais atuante como ficou demonstrado nos casos de corrupção do Banestado (Leasing, Corretora) e mormente no desmantelamento da malha de fraudes de Londrina e Maringá que redundaram na cassação dos seus respectivos prefeitos, Antonio Belinatti e Jairo Gianotto. Única ameaça a essa vigilância é o entendimento que o STF pode dar à Lei de Improbidade limitando punições a funcionários públicos, a bagrinhada, enquanto vereadores, deputados, prefeitos, senadores, governadores e presidente todos ganham uma espécie de anistia abrangente como incólumes.
ELEFANTÍASE Enfim, os avanços institucionais são inegáveis: o enquadramento nos rigores da Lei de Responsabilidade Fiscal, a procura de solução para a Previdência do servidor público (beneficiária das antecipações dos royalties da Itaipu), a manutenção em bom nível técnico de convênios internacionais. O pior dos bagaços está na pletora de secretarias montada para que Lerner pudesse acolher aliados e aspones de variada extração com um total de 29 pastas hoje reduzidas, sem muito critério, a 17. Isso bloqueou a administração e criou pontos de estrangulamento como o da junção prática entre órgãos da área da Justiça (sistema prisional, Imprensa Oficial, Junta Comercial) aos do front da Segurança, agravando suas responsabilidades. Outra deficiência foi a de não ouvir a sociedade como prática rotineira e isso está visível na criação do Museu de Arte, aparato de utilidade discutível, sem ouvir sequer artistas ou gente especializada em museus.

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