Luiz Geraldo Mazza
Os desgastes que Lerner sofrerá no andamento da questão fundiária serão colírio perto dos efeitos dessa decisão idiota de montar a termelétrica a carvão em Pontal do Paraná ou Paranaguá. Em primeiro lugar, todo o efeito pirotécnico visual dos Jogos Mundiais da Natureza, com toda a sua carga motivadora de caráter ambiental, diluir-se-á ante a violência dessa tolice que é botar no litoral, já estreito e agredido pela picaretagem imobiliária (e presente no lançamento de coliformes em toda a extensão da praia), essa usina que lançará diariamente nada menos de 300 toneladas de resíduos.
Não bastasse o delito de lesa-Paraná, que foi a entrega da melhor das hidrelétricas do sistema, a de Salto Caxias, a uma parceria desnecessária, ainda que recomendada pelo modelo energético, e que assume majoritariamente os ganhos daí resultantes (51% a 49% como se propala), ainda temos a contabilizar o ato primário da opção por um energético que nenhum dos homens do corpo técnico da Copel, pela cultura corporativa de tantos anos, admitiria como válido por ser antieconômico e agressivo.
As lições em Curitiba não foram aprendidas por Lerner. Só no mundo virtual e da manipulação a cidade é ecológica, conquanto isso seja repetido como axioma. Enchentes de anos passados revelaram, com os 300 casos de leptospirose e algumas mortes, que tal empulhação, mesmo quando bem intencionada e voltada para o ânimo das pessoas relativamente ao ambiente e à Capital, é visível.
Com a irresponsabilidade, aliás com tramitação fácil numa Assembléia que nada investiga e a tudo diz amém, o impacto nessa imagem será devastador. Não é preciso chamar o Green Peace, que tem estrutura logística para encarar abusos dessa natureza e detonar a farsa que se está armando com a empresa chilena que seria a majoritária na organização e que se origina do país que menos cautelas adota com relação a agressões ambientais. Urge conclamar, isso sim, a consciência dos copelianos, do seu corpo técnico e funcional, dos biólogos, dos especialistas da área, para mostrar que não há mimetismo possível que justifique a monstruosidade. A Universidade Federal cumpriu parte da sua obrigação em fazer o Fórum sobre o assunto, agora transformado em permanente. É preciso organizar a reação à violência.
Lerner imagina, em computação gráfica, um canal onírico, hoje entulhado de lixo e esgoto, entre Pontal do Sul e Matinhos. Simplifica as coisas, botando marinas e casas de veraneio, barcos e pedalinhos, gaivotas e biguás de sonho, na simulação. E na prática erige as chaminés que esconderão o maior ornamento da área, a Ilha do Mel, e que lançarão chuva ácida sobre a orla. Ironicamente ainda fala, em outro projeto virtual e de marketing, em baia limpa. Brincadeira mórbida demais. Reincidente específico.
VINHETA Nas praias do Paraná, o maior poluidor é o esgoto humano. Agora, porém, chegou o momento do estrôncio com a termelétrica. O próprio Lerner tinha uma piada, bem construtiva, sobre a poluição pelos coliformes fecais de Caiobá e que se resumia no seguinte: Não faça de sua válvula uma arma. A vítima pode ser você. E realmente, em temporada cheia, uma puxada de descarga equivale a um lançamento de torpedo de um submarino para atingir banhistas indefesos.
PEDESTRE Hoje Curitiba tem a oportunidade rara de ouvir um Don Quixote desses tempos mercantilescos: o engenheiro Eduardo José Daros, que foi assistente do marxista Paul Baran, ora envolvido na defesa do pedestre num seminário sobre circulação na Câmara Municipal, às 14 horas. Ouçam uma recomendação dele: Alguns novos ricos de Curitiba, como do resto do Brasil, começam a enveredar para o que existe de pior nos países mais ricos e na civilização ocidental. Para o novo rico, andar a pé ou de ônibus é coisa de pé de chinelo. Foi isso que ouvimos de paulistanos de classe média no início da década dos 70, quando para lá mudamos do Rio. Aí está São Paulo, 25 anos depois: congestionada e sufocada por 4,5 milhões de veículos automotores. Enquanto isso, centenas de milhares de pessoas frequentam academias dispendiosas para queimar excesso de gordura e tomam calmantes e remédios para suportar tensões e a poluição geradas pela cidade, em que o trânsito é um dos maiores responsáveis. Vejamos um dado de levantamento do Metrô em São Paulo sobre as viagens a pé: trajetos de mais de 500 metros, que representavam 25% do total de viagens, em 1977, cresceram para 36%, em 1987, e há previsão de que chegarão a 39% em 2.002.
BIZARRICE O repentista Jota Carlos sobre a euforia dos vereadores que ganharam a liminar que garante que podem sair do PDT sem perder o mandato: Se documento assinado// não vale o que a gente pensa// no julgamento exarado// também não vale a sentença.//
SPRAY Saiu ontem na Folha de S.Paulo que o Paraná vai perder a condição de estado que mais destrói a Mata Atlântica e para a Bahia de ACM. Pelo jeito, Lerner está querendo emparelhar, outra vez, com essa história da termelétrica.
FOLCLORE O turista, empolgado com os múltiplos arco-íris e que se cruzam com borboletas na Garganta do Diabo, emocionado: Este Jaime Lerner é genial.
CROMO Ainda bem que não há os sem-luz que jamais enxergariam os sem-terra.
AFORÍSTICO Nos Jogos Mundiais da Natureza, Requião torce pelo El Ni¤o.





