LUIZ GERALDO MAZZA
Conhece-te a ti mesmo
Sempre defendi a tese de que os governantes precisam mais de um filósofo do que de um demiurgo da economia. Nossos bons gestores tiveram vários deles: Adolpho de Oliveira Franco tinha o Fausto Castilho, mestre USP-Unicamp; Bento Munhoz da Rocha, também sociólogo e filósofo, contava com figuras como a de Ernani Reichmann (maior conhecedor de Kierkgarden da América Latina) que também assessorou Ney Braga. E assim por diante até chegar em Alvaro Dias que contava com as reflexões do escolástico Teóphilo Bacha. O próprio Requião teve ao menos no tempo da prefeitura em sua equipe o Ubaldo Puppi, que chegou a ser assistente de Jacques Maritain, da corrente neo-tomista, aristotélica.
Pois ontem, no andamento da transição, por pressão de Requião e seu grupo, o governador Jaime Lerner decidiu transferir o concurso dos professores. Está aí um tema socrático, baseado no ``nosce te ipsum`` (conhece-te a ti mesmo), para aplicar no episódio: se Requião estivesse saindo e Lerner entrando ele abriria mão do concurso do magistério pré-estabelecido?
Lerner é um ameno e às vezes vai ao radicalismo da omissão como quando nada fez no fato de a área de Segurança ser conduzida pelo chefe do Legislativo e ao permitir o circo do MST no Centro Cívico, também uma situação inimaginável sob o comando de Roberto Requião. O caso do pedágio é pré-julgamento claro de Requião de que Lerner agiu mal, cabendo-lhe agora a pressão contra os vários consórcios para baixar as tarifas, prensando-os contra a parede. Empreiteiro vivo, e temos exemplo disso no Paraná, tem mais advogados do que técnicos e engenheiros e está mais do que preparado para esse tipo de batalha que não se soluciona apenas no âmbito político-administrativo. Contra os empresários dos transportes coletivos de Curitiba, quando prefeito, Requião usou o método da pressão total, deprimindo as tarifas que só se ajustaram quando Lerner voltou.
Vai ser interessante porque um pouco de tensão e tumulto quem sabe consigam abrir protocolos e planilhas com mais eficiência do que ritos judiciais.
BIZARRICE Alvaro Dias subestimou o fato de que o seu irmão, Osmar, teve mais votos do que Lula no Paraná no primeiro turno e assim mesmo nem a terça parte das gravações do senador mais votado de nossa história foi aproveitada. Pelé apareceu mais do que ele. Será que a imagem do Pelé junto ao povo é boa, ainda mais depois das suas declarações de que o Brasil não ganharia a Copa?
AXIOMA Numa coisa Alvaro tem razão: só o TRE do Paraná não aplicou a regra da Resolução 2988 do TSE (verticalização) que impediria a colagem de Lula a Requião. Ocorre que a petição foi limitada e a equipe de advogados poderia ter entrado com cautelar no TSE que seria imediatamente concedida. Vários setores alvaristas falharam e não foi apenas o seu ``staff`` encarregado da imagem.
GLOSA ``Tudo para todos`` pode acabar, de novo, em ``Nada para ninguém`` que seria mais socialista do que ``Pouco para alguém``. Por favor: priorizar é, antes de tudo, uma forma clara e racional, também de excluir.
EPIGRAMA Governo de sábios prioriza o filósofo: quase sempre a meta física é bem mais abstrata (e inviável) do que a metafísica.
FOLCLORE Quando Munhoz da Rocha, em 1951, assumiu a polícia lacrava repartições do governo Lupion. Daí Lupion retornou (55) e quando Ney Braga assumiu (61) voltaram a lacrar os órgãos públicos. Ao observar-se a transição de hoje, tanto a nacional como a local, dá para perceber, nas aparências, a grande melhora, quer no enredo, quer na forma.
CROMO Você é tão distante como uma estrela, fruto sazonado que não colhi.
AFORÍSTICO Como distribuir benesses (cargos em comissão) sem algo parecido com um vestibular: por etapas ou a tapas?





