Partilha equilibrada


As eleições nacionais foram sábias como fator de redistribuição harmônica do poder. Resta que os vencedores consigam fazer o que prometeram: redistribuir a renda, o progresso entre as regiões e, sobretudo, retirar o País do atoleiro.
Claro que o fator predominante, a escolha do presidente, favoreceu o nome paradigma e o partido a um só tempo. Houve, no entanto, predomínio do PSDB entre governadores eleitos, o que dará ao foro, que Lula pretende instituir, desses governantes provinciais uma força excepcional, sem incorrer nos erros históricos anteriores como o da celebrada política dos governadores.
Também no parlamento, tanto Senado como Câmara Baixa, prevaleceu um novo assentamento de forças bem mais equilibrado, menos conservador. Relevante o fato de o PT haver aberto o seu arco de alianças, o que também expressa, de forma clara, uma nova correlação de forças no interior do próprio partido.
O importante na eleição de Lula não é o fato de sua origem na pobreza e sim não apenas na questão de classe (um metalúrgico chegar à presidência), o que reafirma a mobilidade social de um migrante como tantos, de escolaridade média e dotado de excepcional capacidade de mobilizar. Isso demonstra uma reversão no processo brasileiro em que o poder ascendente de um trabalhador supera o poder descendente da elite nacional.
Também, regionalmente, o quadro se repete: Roberto Requião é eleito com minoria parlamentar, o que o obrigará ao aprofundamento das negociações. O melhor governo paranaense, quase transformado em dinastia, de Ney Braga, também se iniciou com minoria no Legislativo, o que o obrigou a demonstrar extrema habilidade nas artes da sedução, requisito indispensável ao bom político. A política, arte do possível, é uma engenharia do homem no seu mais radical sentido ontológico, tal qual o definiu Aristóteles.
BIZARRICE Que as promessas não se transformem em promissórias.
AXIOMA PT ganha quando estilingue, perde quando vidraça.
GLOSA A esperança, de fato, venceu o medo. Mas esse pode voltar quando as perspectivas imaginadas não forem cumpridas em curto prazo. Até porque, segundo o Lord Keynes, a longo prazo todos estaremos mais ou menos mortos.
EPIGRAMA O cara ia votar nulo até que lhe deu um branco.
FOLCLORE Requião começou comemorando a sua vitória com advertências aos consórcios do pedágio, à banda podre da polícia e a desvios do Judiciário.
Nada disso é fácil, mas talvez esteja seguindo um dos mandamentos de ``O Príncipe`` de Maquiavel que afirma ser mais eficiente o fato de ser temido do que o de ser amado. Já o Lula, hoje pelo menos, é mais amado que temido.
CROMO Vi a nuvem passar, lentamente, pelos seus olhos azulados e me perdi no horizonte da íris profunda, lilás como os jacarandás em flor. Gôngora vive e, como sempre, transborda, como é da sua natureza. Murilo Mendes que o diga.
AFORÍSTICO Se há mesmo a banda podre da polícia ela é funqueira, metaleira ou ultrapassada a ponto de tocar dobrados. Aliás, dizem que todos acabam dobrados por ela quando bem articulada com o crime organizado.
VINHETA O governante olha os pretendentes ao seu secretariado. Conforme seu estilo gostaria mais de sectários do que de secretários.
SILOGISMO Um bandido na polícia a comandá-la seria como aquele princípio da homeopatia ``similia similibus curantur``: combate-se o mal com o seu princípio ativo.
SCAPS Trabalhadores provisórios da campanha eleitoral perderam a ``boca``, mas estão com um patrimônio de esperança igual ao dos demais eleitores lulistas.

mockup